Deixo-vos com mais alguns capítulos revisitados de um diário que escrevi há alguns anos. Repito: já não sou eu que lá estou, mas um estado de espírito que foi meu. Por isso o posso publicar sem pudor. É como pegar num album de fotografias e revisitar memórias. De lá para cá o tempo ensinou-me a não ter certezas, a manter uma permanente abertura à vida, ao Universo, ao inesperado. Crescer é um exercício de avanços e recuos. Não há linhas rectas na vida...e cada curva nos revela outra paisagem. Hoje sou outra pessoa...não melhor, não pior. Apenas diferente, porque me deixo moldar, como o barro, pelas mãos implacáveis da experiência.
Capítulo 51
Estranha esta paz, esta alegria sem razão, este caminhar firme e seguro por entre o desconhecido e o escuro. Sinto-me amada, sei que nunca estive e que nunca estarei só. Não sei porque o sei.
Pressinto, mas basta que o sinta. Cada vez mais que Deus não vive fora, mas dentro da alma, que lá se deixa encontrar através da meditação e da oração. Cada vez mais a felicidade se revela como uma viagem para dentro, uma busca da espiritualidade, pautada pela ausência de medo e pela aceitação de tudo o que acontece como uma lição, alegre ou triste, que soma experiência à minha aprendizagem eterna. Vivo, uma vez mais, para aprender algo que ainda não aprendi.
Deus é sempre a luz mais alta, o cume que vislumbra. Não tenho mais medo. Sei que lá chegarei inevitavelmente e sinto-me agradecida.
É essa a razão desta alegria sem motivo, porque, como disse alguém, “não podemos estar agradecidos e não sentir alegria”. Obrigada, Deus, por estares tão próximo, por me fazeres olhar o sofrimento sem derrota e por me fazeres compreender que as vitórias são apenas instantes que passam, tal como passam as dores e as horas de escuridão.
Acredito na luz, porque a sinto acesa dentro de mim.
Capítulo 52
O que posso deixar como um legado? Como transmitir à carne da minha carne, aos filhos reais e adoptivos, tudo o que me habita e já entendo? Como cruzar a ponte e emprestar sentimentos, certezas, lutas vencidas, tentações ultrapassadas, humilhações que levaram a vitórias, vitórias que se transformaram em derrotas a quem não me pode entender?
Como falar da alma a quem só conhece o corpo? Como explicar que tudo o que é importante não se vê, a quem só acredita no que vê e toca?
Às vezes parece-me que grito ao vento, que atiro pétalas de rosas desfeitas para o meio dum temporal. Embato num muro surdo, que me ignora ou esquece.
A resposta é a preserverança e a paciência. Se toda a minha vida gritar ao vento que o amor é a minha bandeira, um dia, à força de tanto o gritar, a minha voz ficará gravada nos corações que a escutam.
Deixo pois, em testamento as palavras de força que me habitam, as poucas certezas que me alicerçam (o amor, a fé e o optimismo) e alguns exemplos que a minha forma de agir revela.
Um dia o crescimento virá e aqueles que chamo “filhos” entenderão finalmente que a voz do amor é mais forte do que a voz do sangue.
Um dia perceberão que, mesmo ausente, estarei eternamente presente nas minhas crenças, no caminho que partilhei, nas lágrimas que sequei, no riso que dividi, na amargura que consolei. Um dia a minha alma, invisível e presente, ganhará a força do sonho e habitará as almas dos que amei e quis ajudar a crescer. É para elas que ficam todos os recados a que hoje são surdos, porque “todo o amor semeado cedo ou tarde florirá” (R. Fullereau)
Capítulo 53
Li esta frase e registo-a “É impossível estar agradecida e não ser feliz”.
Quando falo com Deus, digo-lhe muitas vezes obrigada. Outras, sorrio para dentro, um sorriso que só Ele pode entender e estremeço de alegria porque me sinto amada e viva.
Agradecer é orar, é admitir que somos sempre muito mais abençoados do que aquilo que pedimos ou merecemos. Agradecer e ser feliz, mesmo que a dor chore nas nossas lágrimas, antes do sol voltar a nascer.
Agradecer a vida e a morte, aceitar ambas, viver como se a morte fosse o prémio, a chave da paz e da alegria eterna.
Agradecer é ser feliz. Ser feliz e agradecer. Não é preciso mais nada…
Capítulo 54
Ás vezes chorar faz bem. É como abrir uma janela e deixar o ar puro entrar dentro dum quarto abafado.
Chorar liberta a dor, solta amarras e deixa os sentimentos sentirem. Chora-se de tristeza, de raiva, de medo, de emoção e até de alegria. Mas a forma de chorar que mais marca é o chorar silencioso, imparável, que corre como um rio manso de dentro para fora de nós. O choro duma perda, o choro na morte, no abandono, no desamparo.
Eu choro pouco. Às vezes ando engasgada, com a alma atrofiada, mas não a deixo respirar. Não gosto muito de ser piegas, é certo, mas não é só isso. Acho que só choro quando sou apanhada desprevenida, quando uma palavra, uma música ou uma memória me abraçam de mansinho, como um abraço de criança.
Choro pouco, mas quando o faço, choro até esgotar a dor, a incompreensão e o medo.
Choro quando deixo o coração falar e fecho a porta à razão.
Hoje apetecia-me chorar…
Capítulo 55
As “coisas” dão felicidade? As coisas bonitas, o que compramos, os adornos, o que nos enche os olhos e as mãos, também nos pode encher o coração?
Sinceramente penso que não. As “coisas”, como uma bela casa, o conforto que o dinheiro compra, todo o bem-estar e a beleza materiais podem ser complementos, mas jamais substitutivos da felicidade.
“Ter ou não ter” para mim não é a questão. Eu estou mais de acordo com Shakespeare que punha a tónica em “Ser ou não ser, eis a questão”.
Tudo o que constitui a felicidade é impalpável, não se toca, não se agarra, nem se vê, porque a felicidade «é».
É aquele sentir que não se explica, num manso encher do coração que o faz brilhar para dentro. É respirar fundo e sentir que o nosso peito alberga toda a energia positiva do universo.
Não, não sei explicar o que é ser feliz, mas sei o que não constitui a sua base.
Sei que se pode ter tudo e não ter nada. Que se pode ter o poder de comprar o mundo, mas jamais se compra o amor. Que se pode ter uma corte de servidores, mas não ter um único amigo que seja uma alma gémea.
Para mim ser feliz é uma missão; uma descoberta solitária e humilde do caminho estreito e difícil do desapego, do serviço e da partilha. Sou feliz quando me dou, sou feliz quando faço alguém sorrir, sou feliz quando sinto Deus a pulsar no meu peito, a rir no meu riso e a adormecer no meu sono. Sou feliz quando compreendo que não posso fazer a minha felicidade depender de coisas ou de pessoas, porque tudo me pode ser tirado, menos a minha alma. Sou feliz quando entendo que tudo é dom, mas apenas o meu espírito é eterno. Sou feliz, sim, sobretudo quando entendo que até a dor, o sofrimento e a perda são caminhos de evolução e de aprendizagem.
Ninguém é feliz porque quer ser feliz, mas sim quando entende que a felicidade não vem de fora mas mora “cá” dentro, solitária, sem causas, sem razões e sem condições…
Capítulo 56
Só encontra a verdade quem nunca afirma possui-la.
O que é certo e o que é errado na busca da nossa alvorada?
Todos somos noite que caminha para o dia. Somos pedaços de luar que vagueiam pelo escuro e apalpam o caminho.
Como se chega à alvorada? Pela direita ou pela esquerda da alma?
Qual a seta que aponta o caminho certo, se é noite e o negrume não revela nenhumas direcções? O caminho faz-se caminhando. A alvorada nasce lentamente, quando a noite aceita morrer. O dia não nasce com pressa, mas devagar, com um ritmo que o tempo não altera, com uma paciência onde a sabedoria habita.
Todas as direcções irão dar ao caminho da aurora, tal como todas as noites se desenrolam sem espanto ou alvoroço para a luz tímida do dia.
Capítulo 57
Instantes perdidos no tempo. Rasgos fugazes de alegria. Memórias, risos em eco, o voar solto e livre da inocência de quem ainda não sofreu…
Que bom é este armazém de recordações que alimenta o meu presente. Hoje é tudo diferente. Já perdi a inocência, já bebi o cálice da dor, já sei ler nos olhos que encontro o sofrimento, o cansaço, a perda, a revolta e o desamor. Quando a morte nos visita, quando somamos perdas e percebemos que viver é um resvalar manso e certo para o fim, tudo muda.
Há um tempo para receber e um tempo para dar. Um tempo para viver na ingenuidade e um tempo para aprender a conviver com o medo. Um tempo de paz e um tempo em que se luta contra muitas guerras. Perdi a inocência, a troca de aceitar ver. Hoje já não me espanta a morte, não me revolta a perda, nem me criva para sempre a dor. Tenho apenas saudade do tempo em que tudo era fácil e eterno. Do tempo em que eu não precisava de proteger, mas me sentia sempre protegida. Saudade das raízes que me vão soltando, da terra mansa e quente como um cobertor das memórias de outrora.
Nada lamento, nem mesmo aqueles que perdi. Entala-me apenas a alma esta saudade, esta momentânea ilusão de dormir como uma criança à sombra da vida, e ser embalada por sonhos que brincam sem freio. Saudade de abraços que não voltarei a ter; saudade dos sorrisos que perdi e da forma descarada como ignorava a dor. Perdi a inocência, porque quem busca a verdade tem sempre de caminhar só, agarrando a única certeza possível: eu sei de onde vim e sei para onde vou. Todo o resto é um entretanto…
Capítulo 58
Somos peregrinos e buscamos o santuário, no cume mais alto das nossas emoções. O caminho nem sempre é longo, mas é sempre solitário. Não alcançamos ninguém, só os nossos próprios passos se aproximam dos passos cadentes e certos da vida. Caminhamos lado a lado, mas não nos passos de outrem. Como é estranha a dor dos outros. Imensa mas invisível, pavorosa mas sem rosto, enterrada no coração peregrino da alma que não nos pertence. Como eu gostaria de alcançar certas dores, limpar as almas doridas, dar-lhes um sopro vital, curador, que adormecesse o sofrimento, como uns braços que embalam, como uma canção de amor.
Mas o caminho das almas é solitário. Todos somos meros espectadores da dor. Podemos estar ao lado, mas jamais dentro de quem sofre.
A dor que os teus olhos revelam, esse olhar de andorinha presa, esse bater apressado do teu coração, como asas perdidas, é sofrimento… e eu não o posso curar.
Alma peregrina, aprende a aceitar. Não te contamine a dor, antes aprende a deixá-la atravessar a tua alma e a deixá-la seguir o seu rumo sem te destruir.
Não te afogue o momento de provação que te parece eterno e incontornável. Tudo tem um fim. Até a dor, até o medo, até a morte e a morte, afinal, é o início da vida.
Olho-te com infinito amor. Rezo por ti, estou por perto, como o ar que respiras ou a luz que te guia. Mas não sou ar nem luz. Não choro as tuas lágrimas, mas posso recolhê-las, como gotas de cristal, e abraçar o teu corpo perdido e só. Bebe da minha alegria, partilha a minha energia, a minha força, o meu amor. Faz tudo isso, amigo, irmão, mas aprende que todo o caminho é só teu. Os teus passos, as tuas escolhas, os teus fantasmas e tormentos só tu os podes derrotar. Estou aqui, uma alma peregrina como tu. Caminhemos lado a lado, mas sabendo aceitar que cada um terá de caminhar os seus próprios passos.
Capítulo 59
Porque é que ao crescer por fora, em estatura, em inteligência, em conhecimento, tantas vezes mingamos em tamanho de alma? Porque esquecemos o legado que nos codifica, a tua imagem, meu Deus? Porque esquece o homem que nasceu livre e feliz, puro, com os olhos dum recém-nascido, pequeno e frágil, que não pensa sequer em pedir mais do que é preciso para viver?
Um bebé para ser feliz, seja rei ou mendigo, precisa apenas de alimento, dos braços de uma mãe e do calor do aconchego. Porque insistimos, então, em esquecer o que nos fez felizes e, ao invés, procuramos catalogar necessidades, inventar desejos e multiplicar ambições? Porque não guardamos intacto o pedaço de céu que trazemos na alma, quando nos fazemos corpo? Porque não podemos entender que sempre fomos alma e que o corpo é um percalço na nossa eternidade, um entretanto que terá de ser despido e deixado para trás. A minha alma pulsa, com esta sensação inevitável de consentida solidão. Nasci e morrerei sozinha, embora possa estar rodeada de gente.
Sou uma privilegiada do amor; tenho uma família linda, sinto o amor a rodear-me e possuo mais do que mereço ou preciso. Agradeço, mas não me deixo seduzir. Ninguém é meu e eu não sou de ninguém. Tudo são momentos: a alegria e a tristeza. Só contam os centímetros de alma que consigo crescer no dia a dia. Só o alimento que me faz viver por dentro é um investimento seguro.
Tudo me é dado. Tudo está ao meu alcance. Mas só uma coisa me fascina: receber e nada considerar meu, rir e ser feliz sem me espantar com a visita de dor. Amar e ser amada. Pôr fora o que me pesa e deixar a alma voar, sem bagagem, na sua própria eternidade.
Capítulo 60
Tudo o que digo, eu sinto. Acredito em cada palavra. Porque será então que o que hoje me parece uma premissa segura, um sentimento cimentado, amanhã me deixa à deriva, vazia de respostas, sentindo o que não quero, sofrendo apesar de todas as respostas que desvendo?
Como é frágil o ser humano. Como são pouco firmes as suas mais fiéis convicções.
Quero desapegar-me, sei qual é o caminho, conheço os atalhos, as setas e os sinais. Porque me dói ainda esta visita da perda? Porque sinto angústia ao ver quem amo doente, enquanto me rói a impotência? A dor dói-me por inteiro, não vale a pena negá-lo. Aceito-a, é certo. Não me revolto, não me deixo afundar, mas ao fazê-lo não torno a dor menor, apenas mais suportável.
Ah esta impotência! Esta realidade amarga de poder mudar tão pouco do que me perturba e ameaça. A luta, a grande luta mora cá dentro. As intenções são alavancas, mas só a força teimosa da persistência na meditação, no desapego e no viver segundo a segundo o meu presente me poderão aliviar e tornar livre.
Não conheço outra solução que me vista a alma e a agasalhe do Inverno da angústia…
Capítulo 61
Quando estamos no meio duma ponte, estamos mais perto do início ou do fim da mesma? No meio existe o dualismo que nos define porque nos obriga a optar e a ser quem somos. Aquela pergunta acerca do copo que está cheio até meio e é apresentado a um pessimista, que o considera meio vazio enquanto um optimista o considera meio cheio, é a questão que nos é colocada diariamente quando os dilemas, as opções difíceis e os problemas nos apanham nas esquinas da vida.
É no meio – na incerteza, na ausência de segurança, que, muitas vezes, revelamos a nossa natureza e enfrentamos os nossos maiores medos. Que direcção seguir? Qual o caminho certo? Ficar quieto, caminhar para a frente ou recuar? Como ter a certeza, se a certeza não se prende a respostas feitas? Para mim só uma atitude aberta, de confiança no melhor – mesmo que seja o pior que nos está a acontecer – de desapego e optimismo nos levam a encontrar o rumo. Acho que não há acasos. Há premissas, há urdiduras que o tempo e as circunstâncias tecem à margem do nosso conhecimento consciente. Há a aposta em algo muito maior do que o nosso pequeno eu, que nos protege e guia. Quando tudo parece negro, sem saída, tento recordar-me que depois de cada noite nasce um novo dia. Depois de cada prova que nos testa e é vencida, vem um novo desafio, uma nova oportunidade.
Tudo é recomeço, tudo é caminho para os que vivem o seu presente (o meio da ponte) sem ficarem presos ao passado (o princípio da ponte) nem colocando todas as esperanças apenas no futuro (o fim da ponte). É tudo uma questão de atitude, nada mais.
Capítulo 62
As estações da vida são sempre iguais, acontecem sem pressa e sem espanto. Desenrolam-se imunes a sofrimentos ou alegrias. Um círculo imparável, repetitivo, cadente. Nascer, crescer, envelhecer, morrer. Há estações interrompidas, claro, mortes precoces que não entendemos nem poderemos nunca explicar. A morte não se explica. A morte é o que é, uma dor que não aceita paliativo, uma certeza sem hora marcada, da qual não se foge.
A estação primeira é a Primavera. A inocência feliz da infância, quando o tempo não tem futuro e parece longo e eterno. É o tempo de receber. Depois vem o Verão. A força da vida, o vigor do trabalho, o amadurecimento físico, intelectual e espiritual. É tempo para aprender e desejar. Depois chega o Outono. Há Outonos que chegam muito cedo, que são acelerados pelas circunstâncias trágicas da vida e fazem a alma ganhar anos de sabedoria em dias. É o caso da aprendizagem do desapego que a doença, a perda ou a morte acarretam. Sofrer parece, ironicamente, um fermento de amadurecimento – quem nunca sofreu não pode crescer, simplesmente porque não precisa de o fazer. Sofrer abre-nos as fronteiras da nossa finitude, reduz-nos ao que somos e podemos. Sofrer torna-nos humildes ou destroços. O Outono é um tempo de conceder. Aprende-se a deixar partir a juventude, a beleza, a força física. Aprende-se a perder os que amamos, como os pais e os avós. Ficamos mais e mais solitários, à medida que entendemos a nossa impotência e a aceitamos. A paz pode ser um fruto do Outono da vida se a chuva corrosiva da revolta não inundar esta estação.
No Outono já não se está dependente da beleza nem do desejo de adulação. À medida que o corpo envelhece, chega algo diferente: um entender o porquê das coisas e encontrar um sentido entre os acasos que nos envolvem.
Depois chega o Inverno. O tempo de todas as perdas. O corpo está gasto e puído como uma manta muito usada. O espírito começa a sentir-se preso e inquieto dentro do corpo apertado e sem energia. É tempo de fazer contas, saldar dívidas, contabilizar perdas e ganhos. É tempo de recordar, de analisar, de não ter. No Inverno vem o frio da solidão radical. É altura – se ainda não tinha surgido essa noção – de aceitar a mortalidade. A morte só tem de fazer um pequeno gesto para o corpo ceder. Porque já não há luta, resistência ou força. É altura de mendigar, de estar dependente, de observar e nada dizer.
Depois, com a morte, retorna a Primavera. O outro nascimento. O primeiro de muitos, até chegar o nascimento final, com a conquista da paz total e da eternidade.
Capítulo 63
Hoje fiz anos. Nasci num dia de capicua (22) e, numa hora de capicua (11), num ritual que se repete constantemente, como se o início e o fim de tudo fossem imagens reflectidas num mesmo espelho. Algo matematicamente preciso. Nascer. Morrer. Morrer. Nascer. 22. Da frente para trás ou detrás para a frente nada altera a certeza imperturbável dos números.
A minha vida começa também a ser um espelho deste acaso. Tudo faz sentido, nada altera o curso certo do meu rio, este caminhar, dia após dia, para um caminho que é meu.
Somar anos não é um exercício inútil. Não é coleccionar rugas e cabelos brancos. Não é apenas sentir o edifício exterior a deteriorar-se lenta, mas certamente.
Somar anos é aprender o que a idade anterior não ensinou. É perceber um pouco melhor o que ontem era incompreensível. É sentir algo diferente, seja bom ou mau, sereno ou inquietante, a crescer mais depressa do que o ritmo a que o corpo se desmorona.
Somar anos é aprender com o sofrimento a não ser tão infeliz. É treinar a paciência e a tolerância. É encontrar um sentido para tudo, é não ter medo dos acasos, é ir somando perdas com a certeza de que não se fecham portas, apenas se abrem outras portas ao lado das que se encerram. Hoje não anseio tanto. Agradeço mais. Tudo: a vida, o amor, os que amo. Agradeço o que tenho e o que aprendo. Agradeço ver um sentido e uma meta, mesmo que por vezes lhes perca o rumo. Agradeço a Deus tê-lo por companheiro no meu coração e saber que, com Ele, um dia chegarei de novo à pátria de onde parti.
Viver é bom, mas cansa. Luta-se contra apegos, contra adversários reais e imaginários. Enfrentam-se a dor física e espiritual. A paz é sempre um sonho, algo fugaz, facilmente perturbável pelo infortúnio, pelas emoções negativas e pela falta de auto-estima ou fé. Hoje fiz anos. Acordei a agradecer a Deus o dom da vida, adormeço a agradecer mesmo dom. Penso nos meus pais, essas raízes que amo com toda a força do meu ser. Os meus guardiões, o muro das lamentações, a bóia no mar revolto, a âncora na tempestade. Agradeci-lhes também. Selei esse agradecimento com uma rosa branca e uma cor-de-rosa que lhes ofereci como sinal da minha gratidão. Fiz anos. Nada mudou hoje. Tudo vai mudando, aos poucos, porque somar anos é, no fundo, um exercício sistemático de somar dias, horas e segundos com a consciência plena que o estamos a fazer.
Capítulo 64
Engraçado. À medida que vou entendendo porque estou aqui, que reconheço a minha finitude, o meu caminhar sereno e firme para a morte, sem que ela me assuste, cresce em mim outro sentimento. Uma nostalgia, uma quase tristeza. Não, não é por mim. É pela certeza, não menos firme, que terei de aprender a olhar a morte dos que amo sem sucumbir à dor aguda do adeus. Eu sei que não há adeus, que tudo é uma ilusão, que reencontramos sempre o que amamos. Apenas o que amamos. Talvez por isso já não me cause espanto aceitar que todas as religiões estão certas. Que todos falam do mesmo Deus sem o saberem. Não é Àquele a quem se reza ou em quem se crê que é fundamental. Fundamental é a fé com que se reza e o amor com que crê. É a fé que faz os milagres, é a fé que vence os impossíveis, é a fé que nos permite encontrar o rumo de Deus onde Ele se encontra: no nosso interior. A energia do amor redobra com a fé e revela o seu lado. É eterna e imortal. É essa energia que eu sou, é essa energia que são aqueles que tanto amo. O corpo, este companheiro de jornada, por muito que doa admiti-lo, é apenas uma cobertura temporária, um revestimento degradável que cobre a alma. Porque me dói, então, perder os corpos que amo? Porque sinto tanta saudade dum olhar, dum sorriso, dum toque manso duma mão, ou dum abraço apertado? Ah! Sim, a ideia da morte dói, embora eu me esteja a preparar para ela. Acho que vivo, apenas, para a entender e, ao reconhecer os seus contornos, anseio por viver melhor, por dar mais, por dar tudo o que sou e tenho. A morte, só ela, nos dá a real dimensão do que somos e podemos. Só ela traz humildade e desapego à mistura com dor e saudade.
É estranha esta sensação crescente de que só o desapego e o sofrimento nos purificam e permitem uma viagem ao mais profundo do nosso ser. Talvez por a morte ser o expoente máximo de sofrimento e desapego, seja a maior e a mais sábia das lições.
Peço-vos, Deus, Deus sem nome, sem rótulo, sem pouso, peço-vos que me ajudeis a olhar a morte dos que amo com um olhar de sabedoria. Ajudai-me a não ficar destroçada nem perdida, quando perco os que amo. Ajudai-me a sorrir, cúmplice, quando a vejo chegar, sabendo, não só na teoria mas também na prática, que a morte só vence os que se deixam enganar pelo seu aspecto cruel e usurpador. Ajudai-me, Deus, a vislumbrar o outro lado da máscara: a libertação, a plenitude, o veludo macio do amor eterno apenas coberto pelos espinhos ensanguentados da dor da perda. Tudo é ilusão. Só o amor permanece cá, ou “lá”, tanto faz…
Capítulo 65
Sinto-me uma eremita. A minha casa, que tanto gosto, não é minha, é apenas algo que me foi “emprestado” temporariamente. O meu corpo não é meu. Os dias não são meus. Não tenho nada nem ninguém que possa ser meu, porque tudo me será tirado na devida altura. Não tenho seguranças, apenas desafios. Sinto-me impotente para consolar, para dar a saúde a quem a perdeu, para acalmar a angústia, para anular o medo, a revolta e a solidão.
Por vezes sinto-me inútil, sem préstimo. Falo para o vento, agarro os meus valores e procuro mostrá-los como troféus que ninguém quer. Valores que mudam, que também perco ou refaço. Ingénua, louca, sonhadora, o que é que eu sou? Porque não me conformo com a indiferença? Porque sinto esta compulsão para partilhar a minha crença em Deus e no valor do espírito? Porque não sei viver sem rasgar o peito ao mundo e mostrar a nudez das minhas certezas interiores? Às vezes parece-me que descobri um tesouro. Que quero chamar amigos, família, conhecidos para o partilharem comigo, mas não consigo que ninguém me escute. Falo, gesticulo, argumento. A surdez colectiva mantêm-se. Posso gritar ou chorar, exigir ou suplicar, nada quebra o estado de anestesia que adormece as almas que me cercam.
Aprendi, entretanto, que para alguém acordar é preciso que o seu relógio interior o permita. Tudo acontece a seu tempo. Não há acasos. Nem a indiferença é um acaso. No momento certo, algo acontece para despertar a alma para a vida do espírito. Sem forçar, sem barulho, sem esforço. Porquê? Muito simples: é que quando o amor acorda nada mais o pode adormecer. Nem o sofrimento, nem a alegria, nem o ganho nem a perda. E amor, amor verdadeiro, é a única razão porque vivemos. A única que quebra o gelo da indiferença e sintoniza a alma com a consciência cósmica do seu criador.
Capítulo 66
Já o amor, entre um homem e uma mulher é algo que me confunde. Hoje não acredito em amores imutáveis, que permanecem eternamente jovens e românticos. O amor, o verdadeiro amor, não tem nada de romântico. Qual o segredo das almas gémeas, daquelas que se completam como duas partes da mesma maça? Qual o segredo de resistir ao desgaste do tempo, da irritação e da indiferença? Porque morre o amor sem que saiba como ou porquê? Acho que o segredo – se existe – deve rondar uma realidade prosaica e sensata. Só se pode amar aceitando o outro tal como ele é. Irritante, pouco sensível, desajeitado, desarrumado, sem organização, sem todo o role de exigências que secretamente nos afastam de alguém, porque ele é como é e não como gostaríamos que fosse. Amar, penso eu, é um exercício violento, que nos faz suportar o que parece insuportável, que nos mantém em permanente alerta, que nos obriga a ceder, a ceder, a ceder…
E eu cedo mal. Às vezes há situações difíceis de contornar, como a injustiça, a ironia, a insensibilidade. Há atritos, desacordos, desencontros. Às vezes apetece desistir e entregar o coração ou à indiferença total, ou à recusa total, que são duas formas de não-amor.
O amor é teimoso. Mesmo ferido, magoado, humilhado encontra forças para resistir e para recomeçar. Como? Simplesmente porque quem ama não dá primazia ao “eu”, mas ao “nós” ou ao “tu”.
Talvez o amor seja para os parvos, os lunáticos, os corajosos. Tudo menos para os românticos, os piegas ou os amuados. Estes não têm hipótese de sobreviver a dois por muito tempo. Amar, infelizmente, é uma obrigação penosa que coloca permanentes desafios e armadilhas no nosso caminho.
Não admira que haja tanta gente que sucumbe, algures, nesse caminho. Que desiste, que foge, que entrega as armas. Porém o maior desafio é conseguir não deixar morrer o amor, mesmo que apeteça fazê-lo. Só imagino uma lista de mandamentos para o fazer:
1º - Prescindir de julgamentos. Não acusar. Não ver apenas o erro do outro, a sua conduta que nos repugna ou enerva, mas perceber que o que não fazemos pode ser a origem da reacção negativa que condenamos.
2º - Para destruir o desamor não se podem usar armas de agressão. Só a calma, o carinho, a paciência podem, a longo prazo trazer frutos de paz. A agressão gera agressão. A fúria alimenta a fúria, palavras vomitadas com ressentimento estimulam mais ressentimento ainda.
3º - Não dar demasiado valor ao que nos perturba. Não amuar, não usar de vingança, não alimentar o nosso orgulho ferido nem dar ouvidos ao nosso ego.
4º - Perdoar. Perdoar sempre; esquecer as ofensas e recomeçar de novo, as vezes que forem precisas.
5º - Não querer mudar o outro, mas entender que as principais mudanças são de atitude. Da nossa atitude, não da do outro.
Uma passagem de Hugh Downs resume magistralmente esta questão da atitude face ao desafio do amor. A nossa atitude: “Uma pessoa feliz não é uma pessoa num determinado conjunto de circunstâncias, mas sim uma pessoa com um determinado conjunto de atitudes”.
Capítulo 67
No meio deste Inverno que não acaba, embora hoje seja o primeiro dia de Primavera, percebi que a felicidade não depende do “sol” ou da “chuva” que nos são oferecidos, mas sim da forma como os escolhemos colher.
A felicidade é imune ao tempo, não se divide em estações, não estremece com o frio nem desmaia com o calor. Ser feliz é algo que se aprende devagar.
É principalmente procurar a paz, mesmo que problemas, angústias e dores nos envolvam, como um nevoeiro cerrado. Paz, “cá dentro”, onde a certeza da impermanência, onde o desapego, onde o real sentido da nossa pequenez no tempo fazem sentido. Uma paz que está lá, desde sempre, à espera de ser desvendada. Tudo é tão igual!
Até a dor dói pelos mesmos motivos: a doença enfraquece o corpo e quebra a alegria e a vitalidade, a traição deixa um coração destroçado, a morte deixa um vazio que se alarga, mais e mais, enquanto o tempo passa. As lágrimas são molhadas, em todos os olhos; as emoções de raiva, medo, frustração são clones de estados de espírito iguais no essencial, embora diferentes nos pormenores.
Se tudo é tão igual, a solução serve a todos. Se o que alegra o meu coração alegra a maioria dos corações, então o que me traz paz e harmonia também deve trazer paz e harmonia aos outros corações. Ser feliz é escolher viver os bons e os maus momentos, como se fossem iguais. É não levar nada demasiado a sério, porque tudo acaba: a alegria e a dor.
É perceber que cada momento, seja ele de Inverno ou de Primavera não acontece por acaso, mas é uma oportunidade para descobertas e mudanças. É, também, entender que aguentamos tudo mesmo o que pensamos não aguentar. O momento presente traz sempre consigo a dose de força que necessitamos, por isso se não quisermos viver 20 dias, em 2 minutos, se aceitarmos o pingar lento dos segundos, como a única realidade que possuímos, encontraremos sempre a força que necessitamos para vencer os obstáculos desse dia e dessa hora. Amanhã nem sequer existe, como o Inverno do próximo ano não existe. Quem me garante, além disso, que o meu futuro não termina agora, aqui, neste preciso momento que é o meu presente?
Capítulo 68
O Cansaço
Olho o meu rosto, marcado por todas as histórias do tempo.
Conto linhas, como legendas
em código, dos anos que já vivi.
Estranho como o corpo voa,
mais rápido que o pensamento.
Como se cobre de tempo,
como põe neve nos cabelos
e sulcos finos ou cavados
nas praias do meu olhar.
Sim, está cansado, o corpo.
Vai lutando, corajoso,
Contra guerras e perdas,
Desilusões e saudades.
Estranho como a alma se renova,
Se enche de imortalidade
Enquanto o corpo, esquecido,
Vai descendo, cabisbaixo,
Os degraus da sepultura.
Há em mim dois rios fundos,
Um que corre para o mar,
Outro que corre ao contrário
Para a nascente alcançar.
No rio do corpo,
Nadam mortas as quimeras,
Bóiam desfeitos os sonhos,
As certezas, as ilusões.
No outro, no rio fundo da alma,
Somam-se pequenas vitórias,
Desvendam-se mil segredos,
Aprende-se a nada querer.
Sim, o cansaço abraça-me.
Não me espanto. Não me assusto.
Está cá, sereno, à espera,
De ver partir o que eu sou
Para fora do casulo,
Para dentro da eternidade.
Março 2001
Capítulo 69
Começo a acreditar que tudo é possível a quem não acredita em impossíveis.
Capítulo 70
Ser feliz não depende das circunstâncias. Depende da atitude que tomamos face às circunstâncias…
Capítulo 71
Engraçada esta certeza (provada, porque a vivi) que a única forma de não me afogar nos meus problemas, no meu cansaço, na minha dor, é esquecê-los no exacto momento em que penso nos problemas dos outros, no seu cansaço e na sua dor. Não conheço outro antídoto mais eficaz para minorar os sofrimentos do que este: colocá-los em segundo plano, distanciar-me deles, para estar disponível para servir quem precisa.
Acho que metade das soluções por encontrar estão aqui, neste segredo que se alimenta do amor incondicional e desinteressado que damos, só por dar, sem esperar ganho ou recompensa. É o que damos que nos enche, não o que procuramos amealhar duma forma egocêntrica e egoísta – nem que sejam as soluções dos nossos próprios problemas.
Capítulo 72
Descobri, na pele da alma, ou seja, bem fundo nos meus sentimentos, como custa fazermos o melhor que sabemos, darmos o que temos, conseguirmos com esse dar melhorar algo ou alguém e, depois, por esse mesmo motivo sermos rejeitados por terceiros como “intrusos” num esquema onde não temos lugar por direito.
É estranho o ser humano. Prende-se a miudezas, como o orgulho ferido a falsa capa dum código de valores pessoais e, a troca de nada, rejeita seres humanos validos e úteis, só porque estes lhe fazem sombra. Não queria tornar esta sensação pessoal. Não é o que eu sinto que conta, mas o que há de global no sentimento da injusta rejeição que me fez parar e pensar. Se alguém faz algo melhor do que eu, porque não lhe dou esse crédito? Se alguém tem ideias melhores do que as minhas, porque não as partilho e aprendo com elas em vez de as menosprezar e continuar ignorante? Porque temos a mania de ter um lugar só nosso, um posto que nos pertence, uma caverna pequena e fechada que não tem espaço para incluir valores novos e ideias diferentes, se estas, em termos práticos, são eficientes?
Falo, ainda por cima, de relações humanas, de pessoas, de almas a quem se educa.
Como é possível, em tantos espaços de formação moral, haver círculos fechados, mentalidades pequenas e viradas para o seu próprio mundo, quando só a união de esforços, metas e corações leva à evolução do ser humano?
Esta lição está a ser muito dura. Estou a aprender a engolir, com a dignidade possível, a rejeição de quem não aceita tudo o que tenho para dar. Como lidar com esta lição? Aprendendo a não fazer guerras, a não julgar, a não deixar que uma situação negativa atraia a minha negatividade. O que fazemos de bem tem um mérito por si mesmo. É isento de condições. Mesmo incompreendido brilha na consequência que gerou ou no amor que semeou. O bem faz-se, não para ter aplausos, mas para reparar um mal existente ou preencher uma lacuna que permanecia em aberto.
Se a rejeição é a resposta ao amor, teremos de aprender a valorizar o amor e não a rejeição. Aprender, também, a não fazer aos outros o que não gostávamos que nos fosse feito.
No mundo dos homens não triunfa sempre a justiça, não são facilmente reconhecidos os verdadeiros talentos, não são acarinhados com isenção os esforços mais nobres. O ser humano está em evolução e nesse processo uma das mais duras provas é o desapego. Saber deixar partir o que não pode ser nosso, dar o lugar a quem o desempenha melhor, partilhar os nossos dons e não guardá-los como um tesouro enterrado.
A evolução passa pelo não julgamento, a não apropriação e a justiça. Evoluir é aprender a amar, sem razões e sem prémios. Espero que esta mágoa estranha, esta sensação de dor que me perturba passa depressa. Espero aprender a lição que esta dor veio ensinar e espero ter a sabedoria e a atenção necessárias para nunca rejeitar, por orgulho, inveja ou ignorância quem, no meu lugar, faria melhor do que eu.
Capítulo 73
São tão curtos os verões e tão longos os Invernos. Chuva, uma morrinha constante, o ar empapado de névoas e humidade. Frio, vento, nuvens negras, cerradas, tapando o céu.
É como a vida. Entre o sol curto e fugaz da alegria – o nosso verão – passam-se longos dias de escuridão, de céu coberto, de solidão, frio e Inverno. Para lá das nuvens, porém, o sol brilha sem queixa. Nada perturba a permanência do sol, mesmo o facto de não o vermos, não significa que não seja omnipresente, quente e imenso.
Tal como a esperança e a alegria. Vem coberta por todas as agruras que cobrem a nossa missão de viver. Mas a dor é passageira. A alegria é eterna. Só isso conta.
Capítulo 74
Nem sempre os que estão mais próximos de nós fisicamente estão próximos interiormente. Viver ao lado de alguém pode ser uma solidão imensa, como um iceberg no mar.
Partilhar o nosso mundo interior é só para aqueles que conseguem sintonizar as suas emoções e pensamentos com os nossos. Só damos a alma a quem a segura e embala. É pena que nem sempre a possamos dar a quem queremos. Mas se calhar não se escolhe amar um espírito, mesmo que o corpo que o reveste nos seja inacessível. Entenda-se: partilhar o nosso corpo, reagir ao toque, ao som, ao sabor, ao calor dum abraço, à força dum beijo, é fácil.
Porém beijar outra alma, abraça-la sem a tocar, dar-lhe a nosso mundo e mergulhar no seu, é para energias compatíveis, está para lá de tudo o que é físico e imediato. É assim que amo quem parece estar distante de mim, tão perto e tão longe. Assim, com o pensamento, com o olhar, com a certeza da confiança, da amizade, dos silêncios partilhados. E está bem assim…
Capítulo 75
É pura perda de tempo tentar ensinar a amar. O amor aprende-se, sem ser ensinado. É, igualmente, inútil projectar a nossa imagem de Deus a quem não acredita Nele. Deus descobre-se, não se transmite.
Deus o transcendente, o início e o fim, o Deus que ultrapassa a dualidade e o dogma e é uno, imenso, indefinível. Deus descobre-se aos poucos, até se descobrir por inteiro. É inevitável chegar lá, mas o caminho é pessoal, longo e solitário. É, acima de tudo, necessário desejar conhecê-lo. Sem a procura, sem a noite da fé, sem a dúvida, não se alcança o ponto de partida.
A escalada espiritual é lenta e progressiva. Escalar uma montanha não se faz de ânimo leve. É preciso treino, preparação e coragem.
Só os loucos ou os temerários se aventuram a subir à mais alta das montanhas sem se prepararem. E quando a subida começa, à medida que a alma se aproxima do topo, a dificuldade aumenta. A solidão é opressiva. Total. Inultrapassável. Solidão. Silêncio. Nada. A alma fica entre o firmamento e a terra, num vazio cheio, num espanto imenso. Já perto do topo o despojamento é total. Nada mais importa, não há mais medo, perda, questão ou dúvida. Só o desejo de chegar, de atingir o cume e repousar no encontro.
Chegar ao cimo é atingir a compreensão total de quem somos, é perceber, finalmente, o pedaço de Deus que nos foi legado, fundi-lo no todo de que sempre fomos parte aceite. Mas como se pode ensinar o que só é experimentado de uma forma pessoal, única e intransmissível?
Capítulo 76
Há sempre um degrau inesperado na nossa escalada interior, um novo anseio, uma nova paixão inesperada, um desequilíbrio que surge rápido, certeiro, como um raio. E as certezas da nossa força interior são testadas uma e outra vez. São testados os limites da nossa consciência. Ficamos parados na subida com um pé a querer ir em frente e o outro a querer recuar. É uma mistura insuportável de emoções contraditórias a lutarem no nosso corpo e a desassossegarem a alma. São os momentos de provação. São o teste, a tentação, a humilhação de quem exige ser diferente.
A liberdade interior é uma aquisição caríssima que hipoteca toda a nossa força de vontade. Ser livre é aprender a prescindir de gratificação, é disciplinar a mente a culpa e o coração. É uma ferida latente, sempre pronta a abrir e a sarar, enquanto o caminho se for fazendo. Enquanto a vontade de crescer for mais forte que todo o prazer menor. E só assim se vence: com dor e sangue; mudando os desejos que nos inundam como marés insanas. No meio da batalha da vida, conquistar a paz, praticar o desapego, conseguir, dia a dia, manter a fidelidade ao juramento de sermos autênticos é a única forma de alguém ser um vencedor. Por um dia, por uma hora, por um minuto. Um de cada vez, como as lágrimas que não choram se limpam, uma a uma, sem que o carreiro que formam no coração se possa apagar. Linhas, como cicatrizes, bordando a paisagem do que somos e do que queremos ser.
Capítulo 77
Eis um pensamento que me descobriu nas páginas de um livro e faz um sentido imenso. Palavras sincronicamente coladas na página do meu destino, certamente para terem uma consequência. Refiro-me às seguintes palavras da Drª Kubler Ross que traduzi assim:
“Não podemos fazer qualquer tipo de bem a alguém se, para isso, tivermos de prejudicar uma outra pessoa”. Conquistar o bem exige não ceder ao mal.
Capítulo 78
Se uma vocação nos chama, se é uma vocação de serviço, de entrega aos outros, se nos rouba tempo, família e interesses pessoais, então preparemos a alma para um grande deserto: o da incompreensão, o da crítica velada ou aberta, o do cinismo, o da perda. Não parece haver retorno algum do que damos porque nos salta do peito, das mãos, do coração. Damos porque está lá entalada e tem de sair ou sufoca-nos a alma. O preço é terrível, terrível… mas eu acredito que as sementeiras dão sempre frutos, no final do Verão. Se a semente for boa, mesmo que alguma se perca, como poderá a colheita ser má?
Capítulo 79
Porque não consigo aprender a domar o tubarão que nada no meu peito? Porque o deixo morder, verter o sangue da ira e destroçar a paciência e paz? Porque ferve o mar dos meus sentimentos, como se um vulcão demente me corroesse as entranhas? Porque solto sempre estes vendavais irados, estas ondas impetuosas e tontas, que se desfazem com violência inútil contra os rochedos da vida?
Se eu não aprender a lição do auto-controle, sei que terei de prestar sempre provas e mais provas, até a conseguir aprender. Porque é tão difícil fazer o que sei que é certo? Porque é que na hora do teste falho outra e outra vez?
Como seria bom que o golfinho que nada do outro lado do meu peito fosse mais forte do que o tubarão. O golfinho acolhe, sorri sempre, mesmo na agonia e na dor. Não agride, não desespera, não mata.
Há um tubarão e um golfinho a nadarem no meu mar. Em direcções opostas, mas dentro do mesmo mar. Haverá espaço para os dois, ou um deles terá de morrer para o outro sobreviver?
Capítulo 80
Às vezes pergunto-me para onde foi a ânsia da minha juventude, aquele desejo desenfreado da aventura, de conhecer pessoas, de viver a noite e mergulhar na alucinação da música, barulho e gente.
Não fiz nada, conscientemente, para mudar. Nem sei exactamente quando começou a mudança. Sei apenas que tive de abraçar o sofrimento – ou melhor, ser abraçada por ele – para que as prioridades da minha vida dessem uma enorme cambalhota cósmica e me lançassem para outra dimensão da realidade. Hoje não anseio por nada. Não valorizo o barulho, a confusão e a aventura. Não sinto necessidade de conhecer muita gente, mas sim de conhecer pessoas que me ensinem algo. Não acho irresistivelmente atractiva a paixão, que hoje considero uma simples interrupção no rio da paz. É um teste dos mais difíceis de superar, o da paixão…
Penso que estou no meio da ponte do conhecimento e o caminho que escolhi me leva para a compreensão inequívoca que a minha melhor companhia, sou eu própria. É dentro de mim que existe um universo a explorar, é a minha energia por descobrir que me fascina, é o poder da minha alma, que anseio encontrar, que me cativa e prende.
Não há lugar para a procura do prazer, mas sim da alegria. Não me quero prender a nada, a ninguém, ao tempo, à vida ou à morte. Sinto o imenso desejo de me deixar boiar, de braços abertos, na imensidão do meu mar interior, onde, finalmente, sei que Deus habita. Sem resistir, sem duvidar, sem que me perturbe a dádiva ou a perda.
Não renuncio ao amor. Sei apenas que para o conquistar no que tem de mais profundo, de mais perfeito, de mais arrebatador, terei de entender quem sou. Depois viverei para me partilhar porque ninguém consegue viver com a fonte do amor a arder no peito, sem incendiar tudo ao seu redor. Sei isso agora, mas também sei que amanhã é outro dia e posso voltar a dar uma cambalhota cósmica…
Capítulo 81
É estranho como podemos viver, lado a lado, com quem não nos conhece. Podem existir abismos de palavras por dizer, de pensamentos, sensações e descobertas por partilhar. Mas nada acontece por acaso. Os encontros e os desencontros são apenas lições. Não cruzamos os caminhos de ninguém sem deixar pegadas na sua praia. Não podemos ficar com a nossa praia nua, se outras vidas a cruzarem.
Todos temos almas gémeas, mas elas podem viver longe ou não chegarem a cruzar o nosso caminho duma forma directa. Hoje, que posso direccionar a minha energia – a positiva e a negativa – sei que acabo sempre por atrair quem quero atrair, que cruzo o caminho de quem devo cruzar. É doloroso entender que alguém que já nos pareceu uma alma gémea, não passe dum degrau, dum pássaro que voou em nós e partiu. Fica sempre alguém para trás, porque nem todos caminhamos ao mesmo ritmo. Não nos deve causar tristeza, apenas compreensão e humildade. Ninguém é de ninguém. Nascemos e morremos totalmente sozinhos, mas crescemos em relação directa com os que fazem parte da nossa história.
Já nada me espanta ou sobressalta; nem as minhas iras nem as minhas atracções. No fundo sei que reajo ou simplesmente estou a inter-agir com outras energias que me atraem ou a quem atraio. Somos apenas isso, campos de energia em comunicação. Partilhar a nosso corpo é fácil, porém, partilhar a alma é algo que só almas compatíveis conseguem fazer, muito de vez em quando