Monday, March 10, 2008

«É tao curto o amor, tao longo o esquecimento» , Neruda

Poema Vinte - Pablo Neruda
(tradução de Fernando Assis Pacheco)

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Acabei de ler um livro magnífico. Um livro que aguçou o meu lado de voyer, o lado que espia os sentimentos, as emoções, as histórias que vivo, por empréstimo, ao entrar no palco de outras vidas. O livro chama-se «O teu nome flutuando no adeus» e é uma colectânea de histórias auto-biográficas de nove romancistas consagrados. Não histórias felizes, mas histórias de amores inesquecíveis, mas fracassados, amores que tatuaram a memória e a vida dos seus protagonistas, que foram avassaladores, mas fugazes na felicidade imensa que trouxeram. A felicidade, se calhar, é sempre fugaz…

Houve uma, sobretudo, que me marcou. Por ser contundente. Por ser brutalmente realista. Falarei dela. Há outra, de Mempo Giardinelli, que me levou até ao «Poema Vinte» , de Neruda, que fui pesquisar e, como todos os poemas de Neruda, me fascinou e me trouxe até aqui, à confissão da escrita. Neruda escreve : «é tão curto o amor, tão longo o esquecimento» , e ao ler e reler as suas palavras, penso que tem razão. Que para quem ama, para quem sentiu alguma vez a força da paixão, a sensação é essa: é tão curto o amor… parece sempre que corre contra o tempo. Uma hora torna-se um minuto, um segundo, se for feliz. Por outro lado, ao acabar, ao deixar atrás de si o rasto do vazio, pode tornar um minuto de dor em mil anos. Pode tornar o esquecimento uma luta, sem tréguas, eterna, como um inferno imposto.

A estória que me marcou e que me fez fazer a ponte com Neruda é da autoria do escritor Horácio Vasquez-Rial. Chama-se «A vergonha de ter sido, a dor de já não ser» e fala de um amor que, por preconceito, medo, vergonha, o autor, que fala na primeira pessoa, recusou assumir. Um amor negado, reprimido e que o tempo não deixou menos amargo. Porque há sentimentos que, se forem negados, não morrem. Pelo contrários, começam a viver nas entranhas da alma , como lobos num covil. Criam raízes no escuro, na dor, na obsessão. Ficam maiores por serem negados. Amores, como este, que por causarem «vergonha», por fugirem dos cânones normais imposto pela sociedade ( afinal o que é normal no amor? ) não podem ser assumidos. Amores auto - destrutivos. Amores, por isso mesmo, incuráveis. O autor da estória confessa a sua cobardia, o seu fracasso e chega à seguinte conclusão: «A maioria das pessoas passa por este mundo sem nunca se apaixonar. Acha que se apaixona, e actua em conformidade, mas não se trata senão de pura e simples química da conservação da espécie. Morrem sem terem vivido isso. É um privilégio pela Primavera que nos invade. Quanto ao resto não. Porque vendo bem, só há duas possibilidades: ou a paixão se realiza e, portanto, morre, ou não se realiza e, portanto, morre. Se desemboca em amor, em serena companhia e até em anos de bom sexo, vale a pena, mas na minha modestíssima e parcial estatística, isso acontece num casal em cada dez milhões e estou a ser generoso ao estabelecer que há dez milhões de casais, vinte milhões de pessoas no mundo, que conhecem a paixão. A maioria parte das vezes, quase sempre, desemboca em extinção, desmoronamento e fedor, como acontece com todos os incêndios: um espectáculo feio e aborrecido. Ah, mas quando a paixão desemboca em si mesma, quando se fecha por uma causa exterior ou por uma decisão brutal, e não se transforma numa prazenteira calma nem num chocante aborrecimento a dor que fica é tão enorme e brutal que tudo o resto se esquece, se perde, e só um milagroso instinto nos pode impedir de escolher a morte.»

Como já disse, sou uma voyer … observo, vivo por empréstimo sentimentos, emoções, vidas e histórias que se tornam minhas, quando as disseco para lhes extrair a alma. Faço-o com a precisão de um cirurgião que usa o bisturi para retalhar o sítio certo. Faço-o já sem hesitar, porque o tempo se encarregou de me roubar a capacidade de me espantar. De me chocar. Sei que tudo é possível, até a estupidez dos preconceitos, que tantas vezes se abraçam, em troca de própria felicidade. Há poucas paixões que possam ser eternas e felizes. Ou são felizes e correm para o rio calmo do amor, e morrem assim, sem dor ou espanto, ou não são felizes e acabam, na mesma, por mil razoes diferentes, todas dolorosas, sendo a mais dolorosa a paixão negada, amordaçada, não assumida, que fica para sempre a pairar, como um espectro, na paisagem das nossas memórias.

A paixão é uma sede e ninguém escolhe ter sede. A sede sacia-se, ou aguenta-se até ao desespero…até à morte. Diz novamente o autor, ao falar de Donna, a sua paixão negada e reprimida: «è assim a paixão, é assim a vida. Não consegue: nem o tempo nem as forças o conseguem. O desejo é mais longo do que a vida. O desejo: tudo aquilo que não se possui, ou não é. O que não se é acaba por derrotar o que se é. O resultado sabe-se desde sempre, mas apesar disso, aceitamos o desafio e corremos. Como Aquiles, a consolar-se com a ideia de que o competidor é apenas a porcaria de uma tartaruga. Donna foi isso. Uma sede. Não se apagou quando deixámos de nos ver. Só se apagou quando encontrei uma nova sede. Uma nova dependência. Mais serena. Prolongável em amor tranquilo com a aluda da idade. » . Tem razão , então, Alberoni quando diz que a dor de um amor só pode curar-se quando um novo amor vier, como as ondas do mar, varrer a praia de uma alma, levando memórias ou tornando-as secundárias, suportáveis, inóquas. Pelo menos à superfície…porque algo em mim segreda que um amor negado nunca pode ser realmente esquecido. O desejo do próprio desejo é maior que qualquer realidade e os amores negados vivem no reino dos desejos reprimidos. São bombas inclusas. Rebentam, continuamente, para dentro…

Mas há ainda algo mais que não se pode ultrapassar, mesmo com a chegada da primavera de uma nova paixão. É o sentimento de arrependimento, pelo que não se fez. Não pelo que se fez, mas pelo que não se assumiu, pelo que não se ousou, pelo que se recusou viver. Pela porção de felicidade negada. Di-lo novamente o autor desta fantástica história, apaixonado por uma prostituta, que amou, com vergonha, e chorou para sempre, ao escolher dizer-lhe adeus. Confessa-o assim: « Dizem os padres da Igreja Católica que aquele que se arrepende dos seus pecados tem mais mérito do que aquele que não peca. Um mísero álibi. Eu estou com Espinoza, que diz que aquele que se arrepende é duplamente iníquo: por aquilo que fez e por se arrepender. Ele não fala de pecado, felizmente. Não me arrependo de nada eu haja vivido. Mas muitas vezes me interrogo sobre o que não vivi, e assalta-me o temor de não haver sido suficientemente corajoso.»

E termino aconselhando todos os que adoram espiar almas, como eu, a ler o livro «O teu nome flutuando no adeus». Faz-nos pensar que sem amor, sem paixão, a vida nunca atinge o pico da verdadeira felicidade, mas, atingindo-a, o ser humano torna-se um refém do que viveu e perdeu, porque há sensações e sentimentos que só podem ser temporários. São grandes demais para se tornarem permanentes, são vento, são água, são luz….Usufruem-se, não se possuem… deixam sempre uma saudade terrível, porque, começo a acreditar, quem sente uma vez que seja o pico máximo da paixão, torna-se um viciado na emoção de o sentir. Não sei se nos prendemos a alguém que desperta esse sentimento, ou se é ao sentimento que nos agarramos. Mas sei que viver sem ter ousado sentir, no corpo e na alma, o estigma da paixão, é viver pela metade. Talvez um minuto de total felicidade justifique uma vida inteira de saudade. Tenho o pressentimento que é a isso que se refere Neruda quando diz: «É tão curto o amor e tão logo o esquecimento»…

Sunday, March 2, 2008

Capitulos 83- 96 «Estados de Alma»

Hoje reli a última parte do meu Diário «Estados de Alma» e senti algo estranho. Senti que aquelas palavras, escritas há tanto tempo, me parecem escritas por outra pessoa. Acho que, de lá para cá, me aconteceu tanta coisa e tanta coisa inesperada, que apesar de tudo o que sei, de toda a evolução por que batalhei, de todo o estudo, empenho, paixão, fui surpreendida por uma tempestade tão forte, que o meu «navio» naufragou e neste momento me encontro «encalhada» numa ilha esquecida, longe de todas as certezas que sempre me abrigaram.
Estou em maré cheia... não sei se vou conseguir soltar de novo o meu navio. Não sei, mas também já não tento ir além do minuto que vivo. A minha humildade e capacidade de entender que os homens são as suas circunstâncias, esticaram para lá dos meus próprios limites. Não tenho mais certezas. É a única certeza que tenho. Deixo-vos com os últimos capítulos dum diário interior, que começou, mas não sei quando, nem como acaba...

Capítulo 83
Já não me espanta que o amor morra. O amor entre homem e mulher. O mais forte e o mais frágil de todas as formas de amar.
Agora já não me espanta tanto. Conheço a rotina, conheço as cinzas e as chamas de paixão. Vejo em muitas histórias que cruzam no meu caminho o desencanto crescer e os corações perderem-se um do outro sem saberem bem onde ou porquê. Para amar alguém a vida inteira é preciso tecer laços de amizade e respeito que resistam a testes inevitáveis: o da desilusão, (porque ninguém é como sonhamos), o do cansaço (porque o tempo desgasta mais uma relação do que o vento norte as dunas), o da impaciência (porque os defeitos do outro parecem crescer com o conhecimento e as virtudes encolherem), o das tentações (porque o que é novo e aparece no meio do nosso desiludido e impaciente cansaço, pode apaixonar as nossas emoções ressequidas e ter o sabor de água fresca).
O amor morre, simplesmente porque é uma força viva. O amor nasce, cresce e mais tarde ou mais cedo chega a uma encruzilhada. Ou se fortifica com a maturidade e a experiência e nesse fortificar se renova como um elixir de eterna juventude, ou segue o caminho do envelhecimento, da doença e da morte.
Hoje há muitos amores moribundos, nem vivos nem mortos. Alguns perduram, por medo, por comodismo ou por vergonha e mantém-se mortos na árvore da vida. Outros mantêm-se aparentemente firmes, mas baseiam-se na ilusão e na mentira. Outros, simplesmente, assumem que o vazio é a única recordação que resta duma vida em comum. Reconhecer que o amor morreu é a maior das derrotas. É sempre um pecado de omissão, uma perda por desatenção, como deixar uma criança a morrer à fome porque não a alimentamos. Mas já não me espanta, também. Dói-me apenas. Assisto a tantas, tantas, vidas a tombarem, partidas ao meio. Amores desfeitos, sonhos perdidos, um sofrimento sem fim. Constato e aprendo. Aprendo que o que é belo e frágil não deve ser descuidado. Que tudo o que tem vida em si tem de ser alimentado e protegido. Que tudo o que é importante, como o sentimento que une duas pessoas no corpo e na alma, não pode morrer sem ajuda. O amor pode morrer, sim, mas só se o deixarmos morrer…

Capítulo 84

Nunca estamos sozinhos. Nunca. Mesmo nos momentos de mais sofrimento e angústia, se pararmos um segundo para dizer interiormente: “Aceito o que me está a acontecer” e, com um esforço supremo conseguirmos pedir a Deus que nos ensine a lição desse acontecimento, estou certa que, por mais doloroso que este seja, rapidamente nos deixará sentir uma paz que não é nossa – porque nos é dada – e o medo abrandará.
Se mantivermos o coração aberto, não deixando espaço à revolta, procuramos ver o bem que surge de cada mal, Deus se encarregará de colocar – estrategicamente! – nos apeadeiros do nosso caminho as pessoas, os acasos, as situações e os meios que nos permitem resolvê-los.
Só destrói o sofrimento quem não se aceite e se recalca. Só não se ultrapassa a dor que não assumimos e nos deixa orgulhosamente sós.
Os anjos andam sempre por aí, nos locais de sofrimento. Surgem no gesto amigo dum desconhecido, numa ajuda inesperada e tão necessária, no consolo que nos vem duma palavra escutada e lida. Só necessitamos de estar atentos.
A solidão na dor é sempre resultado da revolta. Uma dor assumida e entregue é integrada e vencida, porque há sempre quem nos ajude a fazê-la.

Capítulo 85

Estou tão cansada…
Parece que vivo num mar encapelado. Uma vaga sucede-se à outra e mal mergulho e ponho a cabeça de fora, sôfrega de ar, surge outra e outra e outra vaga. Luto, sim, é preciso lutar, mas o cansaço é tremendo, o peso que sinto no corpo e na alma parece querer esborrachar-me, como a um insecto inoportuno.
Mas a luta, a maior luta, é tentar sempre manter as minhas convicções, acreditar que um obstáculo – e são tantos! – é apenas um degrau para ver mais além. Ver o quê?
Não sei, apenas me agarro desesperadamente à certeza que tudo o que me desafia e me morde são testes, que viver é um sopro e que nada importa muito. Tudo são provas a passar, lições a aprender, apegos a deixar partir.
Procuro, que o meu lago interior mantenha a paz. Não à superfície. Lá só vejo ondas, desinquietude, turbulência. Mas no fundo, na alma do lago, espero preservar intacta a minha paz, a harmonia e a serenidade.
É como se estivesse num campo de batalha e sentisse as balas a rasarem-me a pele e visse também a meu lado os companheiros de luta. Há sangue, barulho e dor. Tanta dor inútil…
Mas de uma forma estranha parece-me que olho tudo de “cima”, que estou, sem estar, no meio do fogo e da guerra. Algo em mim sabe que há alturas em que não se pode remar contra a maré, que é preciso esperar e aceitar. Que é preciso acreditar teimosamente na felicidade, sobretudo quando ela se esconde. Tenho muita fé nessa energia superior que nos ampara desde toda a eternidade. Sei que nunca estou só, mesmo que assim pareça. Sei que até os desafios, as incompreensões, as injustiças e os medos passam. Tudo passa. Tudo acaba. Tudo é sempre um princípio que caminha para um fim. Tudo menos a alma. Só ela é eterna, só ela não pode ser atingida. Não sei mais nada. Hoje, não quero nem posso saber mais nada.

Capítulo 86

Estou sempre a repetir-me. Despejo palavras, como um vómito da alma. Digo sempre a mesma coisa, mas tenho de o fazer, para continuar a acreditar naquilo em que acredito.
Neste momento assisto a uma situação – uma lição – de vida paradoxal.
No bem que procuro fazer, encontrei ressentimento, crítica e incompreensão. Parece que tudo o que faço, mesmo com a melhor das intenções, resulta numa bofetada. Deixa-me contudo anestesiada, esta situação. Talvez o problema não seja sequer meu, porque quem não me entende ou me julga, injustamente, está pior do que o mal que me está a fazer. Quando nos sentimos atacados injustamente, quando o bem que fazemos é posto em causa o terreno sagrado da verdade violada, então só nos resta imaginar que uma tempestade de chuva fria e de vento agreste nos pretende atingir. Contudo, se uma “janela” estiver entre nós e o vento, este não nos fustigará.
É preciso manter o coração imune, não deixar que a negatividade o contamine e que o ressentimento o envenene. É preciso ver. O mal só nos atinge em pleno, quando acreditamos que é mais forte do que a nossa vontade. O mal que os outros nos causam é sempre fruto da ignorância, logo deve ser visto como tal. Proteger a alma e o coração é não empolgar através da auto comiseração os ataques exteriores.
O único inimigo que devemos temer está cá dentro: somos nós próprios, quando somos vítimas das nossas emoções e pensamentos. Não podemos deixar que as emoções nos controlem mas aprender a controlá-los. Então, o vento que sopre, a chuva que caia, os relâmpagos que ecoem furiosos a nosso redor. Não nos atingirão. O nosso “lar” continuará quente, seguro e protegido. Lá crepitará a lareira da compreensão, do não julgamento, da liberdade interior. E tudo fará sentido…

Capítulo 87
Às vezes não fazemos o que desejamos e podemos – pelo simples motivo que “fazer” é um acto que implica uma decisão, um sair do nosso rotineiro comodismo. Assim, recusamo-nos involuntariamente, a momentos únicos de contentamento por pura preguiça física ou emocional. E depois queixamo-nos, queixamo-nos, queixamo-nos…

Capítulo 88

O crescimento espiritual é tão lento, tão custoso de saborear e tão difícil de transmitir, que não admira que a maioria das pessoas só se aperceba da sua existência ou muito tarde ou quando alguma circunstância extrema o obriga ao seu aceleramento. Crescer espiritualmente é como escalar uma montanha. Primeiro só há pedras soltas, distracções e retrocessos. Depois começa o gosto pela subida. Algures no caminho surge o cansaço e a dúvida: saber para quê? Não será uma perda de tempo? Sobe-se mais um pouco, a contra gosto e surgem obstáculos difíceis de transpor. Há abismos, contornos pouco seguros, insegurança. Surge o medo e algumas vezes o desânimo, quando se pensa que não é possível ir em frente, que não se tem força, nem coragem, nem vontade de subir mais.
Mas depois de algumas vitórias na escalada o cume já se avista. Há um objectivo e uma promessa. Às vezes no derradeiro instante há quem perca o equilíbrio e caia. Há quem deixe de acreditar em si mesmo e resvale para o abismo. E toda a escalada terá de começar de novo… As maiores vitórias perdem-se quase sempre quando estão ao alcance da nossa mão. Quem atinge o pico da montanha sabe que as arranhadelas no corpo, os dedos dilacerados, o cansaço e todas as dores somadas são uma peça diminuta comparando com o prémio que se alcançou. A visão sublime, o silêncio cheio, a paz sem limites de estar com os pés na terra e a alma a tocar o céu.
Mas as palavras nunca serão capazes de explicar o que só a exemplo pessoal proporciona. A vivência espiritual é uma aventura individual, sem espectadores e sem guias. Há setas e sinais, mas o caminho é só nosso. As derrotas são só nossas. As virtudes, essas, curiosamente, são de todos, porque quem sobe ao cume de uma montanha já não consegue mais rastejar e vive para incentivar outros a voarem até ao infinito.

Capítulo 89
Aprendi mais uma lição nova. Surpreendente. O seu teor está perfeitamente englobado na palavra inglesa “surrender”. Apetecia-me continuar a usá-la, como me foi transmitida, mas de alguma forma precisa de encontrar uma tradução que me satisfaça, na minha língua materna. Surrender pode significar “rendição”. Podemos render-nos, a um inimigo e ficar com a ideia que a palavra significa derrota. Mas não é isso. Surrender pode também significar aceitação do inevitável. Rendição no sentido de “não combate”, voluntário. O seu significado não é derrota, mas a escolha consciente de uma atitude que pareça fraqueza, mas é força, que pareça desistência, mas é fé, confiança, entrega. Acho que é isso mesmo; entrega, sem luta desnecessária a um momento que não se pode vencer a não ser pela aceitação.
Eu sempre lutei, sempre tive medo de me “render”, porque isso significava muitas vezes aceitar o inaceitável, deixar-me “dobrar” por uma vontade alheia à minha, fosse ela de Deus ou dos homens.
Mas há situações em que lutar com revolta e não-aceitação é mais doloroso que esmurrar rochas com os pulsos. Só nos fará sangrar e dilacerar a alma inutilmente. Tudo o que é inútil é uma perda de tempo triste e inglória. Sofrer por exemplo uma doença. Aceitar a doença e combater contra ela com aceitação – sem medo ou revolta – é sem dúvida a atitude mais difícil, mas a mais útil, porque é uma atitude positiva geradora de paz e vale por um milhão de lutas negativas que nos atolam no desespero. A morte é outro desses exemplos, tal como a perda dum amor, a perda de segurança, de um emprego, de uma posição.
Na vida os problemas surgem sempre. É inevitável. A vitória de uma vida não consiste em não ter problemas mas sim em escolher a atitude mais correcta para os enfrentar. Sentir raiva, gritar, dizer “não” é por vezes necessário à nossa sobrevivência.
As nossas fronteiras terminam onde começam as fronteiras dos outros e vice-versa. Mas há lutas que só se podem vencer sem violência. Aceitar é procurar tirar do momento presente todo o seu sumo em vez de o maldizer. É encarar os obstáculos como desafios e não como prisões. É compreender que tudo são lições e que é nossa a escolha de as aprender – e ultrapassar – ou de as recusar e ser de novo confrontado com elas. Uma lição por aprender regressa sempre, de novas maneiras, até que o nosso espírito diga “sim, vou abraçar-te, porque só depois podes partir”.
Às vezes esgoto-me em lutas por ideais, por opiniões, por opções que os outros não aceitam e me parecem as certas. Argumento, uso a arma da raiva, da impaciência, da intolerância. Mas nunca venço. Enquanto a boca grita “vence-te” o coração chora, porque não tem paz, não se sente em casa, não sobrevive, inteiro, no caos da desarmonia.
“Surrender” é uma técnica de sobrevivência que só os mais corajosos conseguem empreender. Dizer “sim” à dor, parece renúncia ao prazer e à alegria, mas trata-se apenas de adiar uma satisfação passageira em nome de uma prova maior: sentir o nascer duma paz que nada nem ninguém pode matar, porque se tornou imune a todas as provocações. Sem paz interior é impossível a felicidade. Com dor, sofrimento, perda é possível ter paz, logo ser feliz de uma maneira diferente. É aceitar o presente, tal como é, e ser feliz aos bocadinhos. Humildemente, com gratidão. É isto que eu aprendi com a palavra “surrender”, é exactamente assim que espero ser capaz de enfrentar, daqui para a frente, todos os meus “demónios”.


Capítulo 90
Quando um pensamento nasce e se torna em vontade, medo ou desejo, a sua realização concreta torna-se real e transforma-se em acção. Teremos sempre de ter cuidado com o que tememos e desejamos. Se acreditarmos num mal futuro, ele virá. Se acreditarmos numa bênção futura, ela virá. O que pedirmos, obteremos, o que procurarmos, encontraremos. O que pensarmos, seremos…




Capítulo 91

Aquilo que mais me cansa, hoje, é a noção que cada passo parece um retrocesso. Dou dois passos para a frente e logo a vida me testa e me faz recuar três. Estou parada, lutando. Imóvel, esbracejando. E a corrente arrasta ressentimentos, incompreensão, lutas mesquinhas, um vazio na mente e um peso no coração.
Estou no deserto e só a fé me permite acreditar que do escuro que me rodeia, na monotonia da vida, de todos os conflitos, uma luz irá surgir e a paz abraçará o que sou. Não serei eu a alcança-la, será ela a alcançar-me a mim.

Capítulo 92

Somos o que fazemos, ou fazemos o que somos? Acho que é uma dúvida importante. Eu acho que “faço” o que sou. O bom, ou o mau, faço-o porque transmito a minha forma de agir, de sentir e de pensar nas minhas acções. Posso até levar os outros a pensarem que o que faço, sobretudo o que faço conscientemente bem, me define como pessoa. É falso. Nos momentos de crise, de impaciência, de teste, a forma como actuo, o que faço, espelha o que sou, mostra os meus medos, fraquezas, inseguranças. Posso quase sempre, com mais ou menos esforço controlar o que eu faço. Raramente consigo controlar o que sou.

Capítulo 93

Descobri uma realidade terrível, assustadora: o ressentimento que o amor nos pode causar. Quando sacrificamos tempo, sonhos, desejos e forças para estar junto de quem amamos, para os proteger, para lhes facilitar a vida, podemos, sem o perceber, acumular frustrações que, mais tarde ou mais cedo rebentam numa depressão ou numa impaciência incontida.
Dor, dor, dor até à exaustão. Dar sem esperar recompensa, mas calcando sonhos próprios, pode pagar-se muito caro. Não é raro olharmos os que mais amamos mas estão dependentes de nós fisicamente, ou emocionalmente com um certo amuo. Por causa deles não podemos fazer, não podemos ser, não podemos escolher, o que nos apetece fazer, ser e escolher.
Ser altruísta, generoso, abnegado, pode não ser tão inofensivo como parece. A morte dos nossos sonhos nunca é pacífica.
Talvez por isso seja necessário termos paciência com a nossa natureza. Se um pai ou uma mãe doentes nos roubam todo o tempo e energia, não nos devemos sentir culpados, por alguns momentos nos apetece fugir e deixar o “fardo” noutros ombros.
O cansaço é humano. O nosso limite é testado vezes sem conta até aprendermos a alcançar o meio-termo “mágico” que nos permite continuar a viver as nossas escolhas, sem desprezar as nossas obrigações. Duma coisa estou certa: amar é prescindir, voluntariamente, de ter sossego na vida. Mas isso é estar vivo.

Capítulo 94

Quando alcançamos a compreensão duma verdade, quando ela nos parece clara e a nossa convicção segura, surge o teste. E o teste é sempre uma perda, uma humilhação ou injustiça. É algo que nos abana, de dentro para fora, até ter a certeza que a nossa certeza é uma planta com raízes.
Não é aquilo em que dizemos acreditar que é importante. Importante é a capacidade de nos mantermos fiéis, sejam quais forem as circunstâncias, às verdades teóricas que proclamamos. Não podemos amar a justiça, sem conhecer a injustiça. Não podemos sentir o amor, se não cruzamos a linha do rancor. Não podemos entender a paz, se não lutamos algum dia. Não podemos saber o que é vencer, sem conhecer o fel da derrota.
É na prática, nunca na teoria, que mostramos o peso das nossas convicções e seremos testados uma e outra vez, até Deus nos confiar outro teste mais elevado, por missão. A isto chama-se evoluir espiritualmente e faz-se muito, muito devagarinho, porque o tempo tem uma paciência infinita e nunca desiste de nós.




Capítulo 95
Recebi uma mensagem. Chegou quando devia chegar e diz assim: “Se queres muito alguma coisa deixa-a livre. Se ela voltar será tua para sempre, se não, é porque nunca foi tua de verdade. A liberdade é o espaço que a felicidade precisa.”
Se assim é, o que penso perder, nunca possuí e o que conquistei sempre foi meu. O segredo é o desprendimento, a liberdade interior que nos permite possuir sem orgulho ou perder sem mágoa. A isto chama-se felicidade.

Capítulo 96

Tantos mundos paralelos se cruzam no meu trajecto. Mundos onde habita o luto, a incompreensão, a dor. Almas desesperadas, num quarto trancado às escuras. A janela está lá. Por trás está a luz, mas a janela tem as portadas cerradas e estas só abrem por dentro e ninguém pode abri-las na vez de outro alguém. Revolta, raiva, apegos. Algemas que a alma aceita, sem questionar a razão. Sem chegar a perceber que a chave que as abre está na própria fechadura, ao alcance do coração.
Mas tudo é necessário: a dúvida, o erro, a dor, a raiva, o desespero, a procura, a perda, a solidão. Um dia o cálice chega à última gota e a travessia está completa. Sem cruzar todas as etapas do conhecimento interior, sem despir as capas pesadas que sufocam a alegria e estrangulam a paz, sem aprender a sofrer vendo na dor uma lição, sem morrer todas as mortes antes da morte chegar, não se cresce, não se é homem, não se torna tudo simples, transparente, imperturbável como o lago da verdade.
Todas as experiências são positivas porque, juntas, são a herança da alma. Tudo o que se aprende é útil, um dia, quando menos se espera. Combater a ignorância e treinar o desapego são dois combates espirituais obrigatórios para quem procura a “luz”. Sem elas continuaremos a apalpar o mundo, como cegos errantes, num círculo ininterrupto de caminhos repetidos que não nos levam à saída mas ao ponto de partida. E viveremos milhares de vidas até entendermos o sentido de cada uma delas. Até esgotarmos o leque das emoções, dos sentimentos, das escolhas e já não existe mais nada para sentir ou experimentar.
Acredito que todos teremos de lá chegar e acredito que o nosso caminho só se torna mais plano, quando nos esforçarmos por tornar menos duro ou solitário o caminho de alguém. Afinal, contra toda a lógica do mundo, vivemos, apenas, para aprender a amar...

Tuesday, February 5, 2008

O Dilema

Já alguma vez se deparou com um dilema sério? Um daqueles dilemas que nos colocam perante opções opostas, em que se joga tão alto que pode perder-se, ou ganhar-se tudo? Já alguma vez ficou no «meio da ponte», dilacerado pela incerteza, sentindo-se rasgado por dentro, porque gostaria de seguir em duas direcções opostas, mas tem de escolher só uma? É que a opção, muitas vezes, a maioria das vezes, não é entre algo «bom» e algo «mau». É entre duas coisas potencialmente boas, mas que se anulam uma à outra. Nos obrigam a dizer «sim» , ou «não», sem lugar para um «nim». A maioria das pessoas prolonga até ao limite do impossível o «nim» …e por vezes perde tudo, o «sim» e o «não», e fica de mãos e coração vazios, vítima das circunstâncias em vez de agente da sua própria vida.
Se já passou alguma vez por um dilema, sabe como são difíceis de enfrentar, como representam as mudanças marcantes da vida, porque as decisões mais importantes envolvem um investimento total, envolvem a consciência, envolvem a razão, envolvem o coração. Todos em total sintonia. E têm o peso do universo, porque, depois de assumidas, trazem consequências irrevogáveis: seja a alegria do sucesso, seja a dor do erro e da derrota, seja – para mim a mais terrível – o desconsolo interminável do arrependimento…por não ter sido corrido o risco e ousada a mudança.
Este tema é central na minha vida. Percebi, entretanto, que os riscos são convites ao nosso crescimento. São oportunidades que não voltam, se as deixarmos escapar. São opções que podem mudar o rumo de tudo o que somos.
Durante anos fui poupada ao dilema de grandes escolhas. Vivi num limbo simpático, onde tudo parecia encaixar no devido lugar e não havia grandes margens a incertezas. Depois veio o período de deserto, em que todas as certezas me foram sendo roubadas, uma a uma, de forma implacável. E tudo o que me sustentava se desmoronou, como um castelo de areia varrido por uma onda…
De início a reacção é de negação. Não pode ser verdade. Não estamos a viver aquela situação. Depois vem a luta. Há que combater a perda das nossas seguranças e velhas certezas. Agarramo-nos, como náufragos, aos estilhaços e fragmentos do que «foi» e já não é, mas quando entendemos que as velhas certezas, de facto, se tornaram fantasmas que apenas nos assombram e já não agasalham a alma, sentimo-nos perdidos, traídos…sem rumo e apodera-se da alma a noite do desespero. Depois, como as ervas daninhas, cresce dentro de nós a revolta. Temos a certeza de estar a ser vítimas de um terrível e injusto plano universal, que visa a nossa destruição. Finalmente, depois de todas as lutas esgotadas, chega a hora da rendição. A aceitação que a vida é feita de ciclos, que ninguém foge dos seus testes de vida, que tudo tem um sentido, que não há acasos… que mesmo a situação mais incompreensível não é uma coincidência, mas algo com sentido que tinha de acontecer. E, nesse momento, somos compelidos a agir…normalmente fazendo face a um dilema.
Os dilemas podem implicar muitas coisas, como mudar de profissão, mudar de país, acabar com uma relação «acabada» mas prolongada pela preguiça do hábito e da rotina, assumir uma relação ou uma posição difícil e contra a qual se luta, terminar com uma situação intolerável para a qual nunca tinha havido coragem de dizer: chega! Aceitar uma situação contra a qual sempre lutámos. Seja qual for o dilema, implica sempre escolher e mudar. Duas coisas muito difíceis para a maioria dos seres humanos.
Olho para a minha vida e percebo que tenho arriscado e tenho perdido. Mas também tenho arriscado e ganho, o que jamais pensei ganhar, se não tivesse ido em frente. Todos os riscos sérios que já corri, deixaram cicatrizes e implicaram escolhas, por vezes dilacerantes. Mas também memórias e momentos de felicidade únicos nas páginas da minha vida.
E a vida é feita de alguns momentos únicos, breves e intensos como um arco-íris, e de anos de cinzento sem história. Hoje sei que um momento de arco-íris vale por uma vida inteira de cinzento, por isso, depois de ponderar o que posso ponderar em termos de riscos, se achar que, apesar de tudo vale mesmo a pena, jogo. Arrisco. Ouso, mesmo sabendo que posso perder, porque a vida é um jogo de roleta. Não o faço sempre, mas faço-o cada vez mais, em consciência e coerência com os meus sentimentos e limites.
Não há certezas, não há justiça, não há garantias. Há, talvez, um pressentimento inadiável, uma compulsão para «jogar» no tabuleiro da vida, que nos obriga a dar passos impensáveis, seja a nível profissional, seja a nível pessoal. São momentos em que penso muito, em que sofro terrivelmente, em que me questiono até a exaustão. Mas, se assumo arriscar, vou até ao fim… e assumo a responsabilidade da escolha, nunca a empurro para ninguém.
Há uns dias uma amiga enviou-me o seguinte texto que me fez estar agora aqui, a escrever estas linhas. Vou transcrevê-lo antes de chegar à minha conclusão:
«"Não existe testemunha tão terrível, nem acusadora tão implacável quanto a consciência que mora no coração de cada homem." Políbio
Principalmente quando temos sentimentos de arrependimento em relação a algo que fizemos ou a algo que nunca chegámos a fazer. Se errámos pensamos, "eu deveria ter feito as coisas de outra forma" e ficamos a remoer, sempre a bater na mesma tecla, quando deveríamos pensar, "ok, talvez não tenha feito a melhor opção… mas então agora que já aprendi a lição para a próxima faço de outra maneira." Pior é o arrependimento de algo que nunca se chegou a fazer por medo de falhar. Todos nos deparamos com barreiras, mas entre nós existem aqueles que têm coragem de as derrubar e não se deixarem condicionar, esses são os únicos seres verdadeiramente vivos. É preciso ter coragem de arriscar, de agir! Por muito que exista o risco de falhar, de cometer algum erro, vale a pena tentar. Vale sempre!
Todos nós passamos por momentos mais complicados que se podem tornar mais fáceis de suportar quando pensamos "fiz tudo o que podia!" Não deixe que a sua mente seja invadida por pensamentos derrotistas e ponha na cabeça de uma vez por todas que é um vencedor! Lute pelo prazer de lutar e pelo prazer de se superar, pelo prazer de se transcender e ame-se tal como é neste preciso momento.
Todas as fases de crescimento de uma flor são bonitas e assim é a vida, já que todos os momentos têm o seu encanto e a sua aprendizagem. Cada fim – o significado desta carta – representa uma nova oportunidade de princípio.»
Talvez a conclusão seja só esta: cada um de nós tem o direito de ser feliz, de viver a sua vida em pleno, de arriscar as suas próprias escolhas, contra tudo e contra todos, agarrando as novas oportunidades de um princípio, em vez de se arrepender por ter deixado escapar oportunidades e momentos únicos. Talvez o maior de todos os erros seja precisamente não arriscar sair dos limites de uma segurança fictícia, criada pelos medos e pelos preconceitos. Talvez a maior perda seja não ter ousado, não ter descoberto, não ter assumido, de corpo e alma, algo que se quer ou não se quer, por medo de errar ou por cobardia em enfrentar fronteiras desconhecidas. Porque se a meta da vida é sentirmos que nos superámos e atingimos o pico de nós mesmos, que sentido tem negar a vida e morrer, tantas vezes, na negação castrante de nos permitirmos ir onde nunca formos? E porque não podemos fazer as coisas de forma diferente do que sempre nos ensinaram? E porque temos de nos ajustar aos limites externos do «certo» e do «errado» em vez de definirmos as nossas próprias fronteiras, no respeito pela fronteira dos outros? E porque não podemos assumir posições diferentes da maioria, conciliar o inconciliável, ser felizes à nossa maneira?
Sabem qual é o meu maior pavor? É um dia olhar para trás e dizer: «Porque não fiz o que tanto desejava? Porque não ousei ir onde o coração me chamava? Porque não vivi o que me foi oferecido em forma de uma oportunidade?» …o meu maior terror é arrepender-me, não do que fiz, mas do que não fiz e ficou, para sempre, eternamente, incompleto dentro de mim…

Wednesday, January 2, 2008

Talvez...

Talvez

Talvez não ser,
É ser sem que tu sejas,
Sem que vás cortando
O meio-dia com uma
Flor azul,
Sem que caminhes mais tarde
Pela névoa e pelos tijolos,
Sem essa luz que levas na mão
Que, talvez, outros não verão dourada,
Que talvez ninguém
Soube que crescia
Como a origem vermelha da rosa,
Sem que sejas, enfim,
Sem que viesses brusca, incitante
Conhecer a minha vida,
Rajada de roseira,
Trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
Sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

Pablo Neruda

Talvez… palavra que encerra em si essa certa incerteza que só os poetas conseguem apreender, por momentos, na rima de uma palavra. Nos contrastes que se fundem, misturando os sentidos, invertendo a razão, inventando cheiros, sons, emoções. Tal como o amor que, de cada vez que nasce, é novo, único, irrepetível. Sobretudo indizível…
Pergunto-me: em que botão mágico do nosso ser toca o amor, ao ponto de alguém poder exclamar, como o poeta: «E desde então, sou porque tu és…». Porque tu és, porque tu existes, porque tu me alimentas o pensamento, sou. Sou em função de uma nova forma de olhar a realidade, que é só minha, porque quem ama vê no ser amado o que ninguém consegue ver. Vê «essa luz que levas na mão, que talvez mais ninguém veja dourada».
Começo a desconfiar que quem ama não vê o que o outro é: vê-o pintado com as cores de si mesmo. Inventa-o. Acrescenta-lhe poderes, que talvez ninguém veja… precisamente porque não existam.
Por isso, «quem o amo feio, bonito lhe parece», por isso é possível amar quem é, de facto, incompatível connosco. Pode-se amar quem nos magoa, nos desilude, nos quebra a vontade de viver. Ama-se, afinal, quem não seria jamais uma escolha racional.
O amor, entre duas pessoas, o amor que envolve a sexualidade, é talvez a ilusão mais realista da história. Sem sexualidade, o amor pertence a outra área dos sentimentos: o amor amizade, o amor da família, o amor a um ideal. Estes são amores realistas, que não envolvem o lado caótico do sentimento de posse ou do ciúme.
O amor romântico é, de longe, o sentimento mais fundamentalista de todos. Consegue, numa fracção de segundos, com uma única palavra ou gesto levar uma alma ao céu ou ao inferno. È tudo ou nada. Por ele se morre e se mata. Por isso os poetas o tentam decifrar, com palavras que ninguém decifra.
Alberoni, o meu guru em termos de Sociologia, defende que enamoramento (paixão) e amor são diferentes. Vamos analisar um pouco o primeiro. Segundo Alberoni «a polaridade da vida quotidiana é entre tranquilidade e desapontamento; a do enamoramento, entre o êxtase e o tormento. A vida quotidiana é um eterno purgatório; no enamoramento, há só ou o paraíso ou o inferno, ou somos salvos ou condenados». O enamoramento não nasce porque se quer. Curiosamente só se apaixona quem atingiu nas suas relações e experiências uma profunda estagnação. Quem está insatisfeito. Cansado. Sem mais nada a perder. «Ninguém se enamora se está, embora parcialmente, satisfeito com o que tem e com o que é. O enamoramento nasce da sobrecarga depressiva, isto é da impossibilidade de encontrar algo que tenha valor na existência quotidiana. (…) Não é a nostalgia de um amor que nos faz enamorar, mas a convicção de não termos nada a perder tornando-nos naquilo que somos».
Chegados aqui começamos a perceber que o enamoramento é uma revolução. Pode ser o início de um novo amor, ou o anúncio do fim dum amor já «gasto». Pode desenvolver-se para um processo de amor, ou não sobreviver face à realidade. Talvez por isso, como diz Alberoni «O enamoramento mais intenso é aquele que põe em jogo mais existência, mais riqueza, mais responsabilidade, mais vida. O enamoramento é uma revolução: quanto mais complexa, articulada e rica for a ordem, mais terrível é o desenvolvimento, mais difícil, perigoso, arriscado o processo. È frequente enamorarem-se duas pessoas das quais uma possui grande riqueza de existência e a outra grande possibilidade de mudança, porque tem menos vínculos, como seja o caso de uma pessoa casada e uma não casada, de uma adulta e de uma jovem, ou de uma política ou religiosamente) comprometida e uma não comprometida. Quem tem vários vínculos, vários deveres, várias coisas a integrar e a mudar, é aquela para quem o enamoramento é mais perturbante.» E, inevitavelmente, conclui: «É mais fácil o amor surgir quando as duas pessoas se encontram numa situação mais equilibrada, mas, paradoxalmente, neste caso também o enamoramento é menos intenso. (…) Um enamoramento pode por isso marcar, perturbar profundamente a existência de uma pessoa ou de duas sem criar amor, e, ao invés, é possível surgir o amor sem um enamoramento perturbante, mas de um encontro sereno, do prazer de se estar junto, de se poder facilmente estabelecer aquele querer em conjunto o que cada um quer, e o pacto institucionaliza-o». Só isto justifica o que Alberoni diz: «Será possível amar simultaneamente duas pessoas? Certamente. Amar uma e enamorar-se de outra? Certamente. Estar enamorado de duas? Não»
E posto tudo isto onde quero eu chegar? Confundir quem me está a ler? Não. A observação da realidade tornou-me cortante. Acredito que o amor e paixão põem ser realidades complementares, mas isoladas. Uma pode existir sem a outra. O grande problema de muitos casais é, precisamente, confundirem os conceitos. Vejo que milhares de pessoas vivem a fingir que são felizes com o mito do «casaram e foram felizes para sempre», alimentando a ilusão de uma paixão eterna. Há quem consiga viver com um amor firme ao passar de forma sábia do enamoramento para o amor. Mas uma grande maioria não. A maioria engana-se, finge, encontra escapes, conforma-se. Sofre em silêncio. Outros enamoram-se…e sofrem a dobrar. Uma minoria consegue ter a coragem de separar o trigo do joio e assumir aquilo que sente e quer, doa a quem doer, por uma questão de verdade interior.
O poeta fala de amor e diz ao terminar o seu poema «Talvez»: «Sou porque tu és… e por amor serei, serás, seremos». Deixo de lado o realismo e permito-me ser embalada pelas palavras outra vez… e, bem no íntimo, sei que, para termos a certeza se o que sentimos é mesmo amor, «talvez» seja necessário imaginar o passado o presente e o futuro junto da mesma pessoa. O que sente? Alegria ou sofrimento? Excitação ou monotonia? Paz ou desespero? «Talvez» só assim lá chegue e perceba em que patamar da vida anda: do enamoramento, do amor, ou no limbo da procura… uma delas terá de ser. E seja qual for não é a certa ou a errada…é apenas a que as circunstâncias, tantas vezes cómico-trágicas da vida, engendraram para si…

Monday, December 31, 2007

«Ponte para o Sempre»

Hoje é o ultimo dia do ano de 2007. Para mim não faz grande diferença de ontem, ou de amanhã. Mas acredito que no início de cada ciclo devemos por fora o que nao convém e dar passos novos..um de cada vez. Fica aqui a minha mensagem para 2008...

«A Ponte para o Sempre»

« Pensamos que às vezes não restou um só dragão. Não há mais qualquer bravo cavaleiro nem uma única princesa a passear por florestas encantadas.
Pensamos, às vezes, que a nossa era está além das fronteiras além das aventuras. Que o destino já passou do horizonte e se foi para sempre.
É um prazer estar enganado. Princesas e cavaleiros encantamentos e dragões mistério e aventura, não existem apenas aqui e agora...continuam a ser tudo o que já existiu neste mundo. No nosso século só mudaram de roupagem.
As aparências tornaram-se tão insidiosas que as princesas e cavaleiros podem esconder-se uns dos outros... podem esconder-se até de si mesmos. Contudo, os mestres da realidade ainda nos encontram em sonhos para dizer que nunca perdemos o escudo de que precisamos contra os dragões... Que uma descarga de fogo azul nos envolve agora a fim de que possamos mudar o mundo como desejarmos. Não somos poeira, somos magia!» Richard Bach (Fernao Capelo Gaivota)

Gosto muito deste texto. Porque me faz acreditar, no meio de tantas nuvens negras, pessimismo, desencanto e falta de originalidade que abundam pelo mundo, que ainda podemos acreditar em príncipes e princesas. Que, enquanto houver mundo, haverá magia. Que as princesas e os príncipes podem ter roupas diferentes, nomes diferentes, palácios de formatos diferentes. Mas que, bem no fundo, todos temos sonhos e quem sonha não pode deixar de acreditar no impossível, lutar para atingir metas, ter a esperança como seta nos caminhos da vida. E assim sendo, arriscar cometer erros, cair, magoar-se, mas VIVER.
Na vida há dragões: há momentos em que não apetece continuar em frente, em que o dia a dia é uma monotonia interminável, a que se segue outra monotonia igual; há alturas em que as dores, os problemas, as angústias, andam em circulo e massacram a paciência, a vontade, a alma… há dragões com rostos humanos, há sempre aqueles que nos decepcionam, nos viram as costas, nos passam um rasteira, nos abandonam.
Mas há, também, os que nos estendem a mão ou nos abraçam. Há oportunidades únicas que surgem. Há acasos cheios de sentido. Há dias com o céu azul, com o sol a brilhar. Há sempre a possibilidade de mudarmos o que nos perturba, o que já não nos serve, o que se tornou uma prisão, se dermos o primeiro passo.
Começo a chegar a uma conclusão: os problemas que mais nos atormentam, nunca irão embora enquanto não assumirmos a nossa responsabilidade por eles. Tudo o que nos acontece tem um motivo e os mesmos testes serão repetidos, numa roda sem fim, enquanto não descobrirmos uma nova resposta para o mesmo problema. Seja qual for o problema, é a nossa atitude perante ele que o pode perpetuar ou aniquilar. Os problemas não mudam, nós é que podemos mudar a perspectiva que temos deles. E vencê-los…
Sei, porque o sinto na pele, que aquilo de que fujo, me aparece noutra esquina, com outro «rosto», mas com a mesma força virulenta. Sei que as resoluções difíceis que evito, não param de me importunar até que as enfrente, com medo mas também com determinação. Sei que ninguém pode decidir ser feliz por mim, escolher o que mais me convém na minha vez, lutar as minhas lutas, rir o meu riso, chorar as minha lágrimas. Mas sei não estou sozinha…há príncipes e princesas e no palácio do mundo todos os que se arriscam a viver as mudanças que são convidados a viver, que assumem o que sentem e o que são, que enfrentam os seus «dragões» e os vencem, um a um, não fugindo deles, descobrem que os escudos mais eficazes moram cá dentro. Constroem-se com paciência, com persistência, com os pés na terra e o coração no universo. E só assim descobrimos, no meio do deserto da vida, que não somos poeira…somos magia!
Deixo-vos com algumas frases que escolhi e que são um estímulo a acreditar nos sonhos, na vida, nas princesas e nos príncipes que nos vestem a alma, se assim escolhermos acreditar. São o meu voto de um bom ano para todos os que neste momento me estão a ler. E são uma forma de agradecimento a todos os que, durante este ano difícil de 2007 estiveram a meu lado, funcionando como um escudo extra contra os dragões que tive de enfrentar.

«A vida é um enorme, grandioso quadro; atira-lhe com toda a tinta que puderes» Denny Kaye
«Daqui a vinte anos estarás mais desiludida pelas coisas que não fizeste do que pelas coisas que fizeste. Por isso iça todas as velas. Navega para lá do porto seguro… Explora. Sonha. Descobre.» Mark Twain
«Se o consegues sonhar, consegues fazê-lo» Walt Disney
«Quando alguém me diz que há algo que não posso fazer «porque»…já não estou mais a ouvir» Florence G. Joyner
«Que outra razão haveria para te levantares, de manhã, a não ser para te libertares?» Ann McMaster
«Não tenhas medo de dar grandes passos. Não podes atravessar um precipício em dois passinhos» David Lloyd George
«O que mais gosto de fazer é ir onde nunca fui» Diane Arbus
«Ainda não fui a todo o lado, mas está na minha lista» Susan Sontag
«No interior de cada um está o potencial para construir o império dos nossos desejos; e não permitas a ninguém que te diga que não os podes ter todos. Tu podes sim, podes tê-los todos» Estée Lauder

Um ano de 2008 absolutamente mágico que fique como uma «ponte para o sempre», o seu amanhã!

Tuesday, December 18, 2007

Mensagem de Natal 2007

«Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente eu não diria tudo o que penso! Mas, certamente pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco... Sonharia mais... pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos 60 segundos de luz. Andaria quando os demais parassem...Acordaria quando os outros dormissem... Escutaria quando os outros falassem... E saborearia um bom sorvete de chocolate. Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, jogar-me-ia ia de bruços no solo deixando a descoberto não apenas o meu corpo, como a minha alma.
Deus meu! Se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol nascesse. Pintaria com um sonho de Van Gogh nas estrelas, um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat. Seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas.
Deus meu! Se eu tivesse um pedaço de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas: amo-te , amo-te ! Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor. Aos homens... provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem! Sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança...daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens... Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha... sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
Johny Welch - Marioneta de Trapo»

Eu não sei se sou como uma «marioneta de trapo», mas sei que me identifico com ela. Nos anseios, nos desejos, nos «ses». E como cada vez mais acredito que a vida nos devolve aquilo em que acreditamos, o meu desejo para cada um de vós, ao terminar este ano de 2007, é que desistam dos vossos «ses» e ousem ser tudo o que sonham ser. Hoje, hoje mesmo! Sem ter medo do medo, sem perder um minuto ou uma única oportunidade. Ousando dizer não ou sim, com a convicção da alegria. Não forçando nunca um sorriso, mas sorrindo com a alma em cada um dos sorrisos. Desejo que não desejem, mas façam. Que não lamentem, mas sigam em frente, abraçando cada erro que serviu de degrau para irem mais além. Que não lamentem os erros, as lágrimas, as cicatrizes, as perdas. Tudo têm uma razão de ser e tudo aquilo que começamos a aceitar deixa de ter o poder de nos magoar ou controlar. Desejo que voem como as águias, sem limites, sem cansaço, sem monotonia, porque viver é a maior e mais fascinante aventura que se pode imaginar, e só o facto de estarmos vivos, faz de cada um de nós, um privilegiado! Mas, sobretudo, amem com a paixão das tempestades e vivam como se não houvesse mais nenhum dia. E verão, estou certa disso, como todas as prioridades ficam mais simples e mudam…sem que os «ses» se intrometam…
Um abraço com a alma,
Any

Monday, November 19, 2007

«Tristão, Isolda e o filto do amor»

Ando a ler vários livros ao mesmo tempo. Para mim não é complicado. É, isso sim, divertido, porque por vezes, ao ler autores com ideias antagónicas, sinto um imenso prazer em perceber,como mera espectadora, a força com que pessoas diferentes defendem ideias opostas, com a mesma inabalável convicção. É por isso que sou incapaz, hoje em dia, de ter ideias inabaláveis seja lá sobre o que for. Penso, leio, releio, procuro, sinto esta curiosidade insaciavél em perceber, saber, ir mais além... mas não sinto a necessidade do conforto de encontrar respostas embrulhadas e prontas a consumir. Não as há.
A vida vai mudando e alargando a nossa forma de ver as mesmas coisas, ou então estagnámos, mumificámos nalgum degrau do processo de viver. E perceber esta realidade não me causa angústia, pelo contrário, começa a ser algo que me dá um imenso gozo. Este mar imenso de possibilidades à minha frente...esta certeza que nunca saberei tudo o que há para saber...que haverá sempre algo mais para aprender para me «espantar».
Ando a ler António Damásio e «O Erro de Descartes» e ao mesmo tempo «Maturidade» de Osho, entre outros livros. Não deixa de ser curioso que se possam pegar nas mesmas ideias e vesti-las com uma roupagem científica e espiritual. Vejamos os conjuntos que descobri...
Começo pela abordagem científica do consagrado autor de livros como «O sentimento de Si» e «O Erro de Descarte» e lamento ter de dizer que, de acordo com António Damásio, em termos neurobiológicos, emoções não são ideias meio etéreas e românticas, mas sim estados do nosso corpo. Um conjunto de processos químicos, aprendizagens e reacções inatas que nos levam a reagir, a cada momento, a estímulos que visam a preservação da vida do corpo. Já os sentimentos serão algo que se segue às emoções, em último caso o complexo processo de perceber que temos essas emoções e de as avaliar cognitivamente e reagir a elas.
Pode parecer pouco romântico, mas explica muita coisa para mim. Explica, por exemplo, o facto de muitas vezes não sermos senhores absolutos das nossas decisões ou reacções. De existirem no nosso cérebro processos neurais e químicos que podem desencadear respostas que escapam ao poder da vontade dita consciente.
Há um sub-capítulo no capítulo Seis do livro, com o título «Tristão, Isolda e o filtro do amor» que nos dá uma ideia alargada da opinião de António Damásio sobre esta problemática. Transcrevo: «Existem, de facto, poções nos nossos organismos e cérebros capazes de nos impor comportamentos que podemos ser capazes, ou não, de eliminar através da chamada força da vontade. Um exemplo elementar é a substância química oxitocina (...) O seu efeito não fica em nada atrás do efeito dos elixires lendários. De um modo geral influencia toda uma série de comportamentos higiénicos, locomotores, sexuais e maternos. Um bom exemplo encontra-se nos estudos de Thomas Insel sobre o arganaz, um roedor com uma belíssima plumagem. Após um namoro fulminante e um primeiro dia de copulação repetida e apaixonada, o macho e a fêmea tornam-se inseparáveis até à morte (...) Não ha dúvidas que os seres humanos estão constantemente a usar muitos dos efeitos da oxitocina (...) Podemos acrescentar à neurobiologia do sexo, a respeito da qual se sabe já bastante, os primórdios da neurobiologia do afecto e, munidos de ambos, lançar um pouco mais de luz sobre o complicado conjunto de estados e comportamentos mentais a que chamamos amor»Por aqui depreendo que até o amor, mais tarde ou mais cedo terá uma leitura neurobilógica. Mas para exemplificar o poder das «forças ocultas e indomáveis que por vezes se conseguem sobrepor à vontade própria», nas palavras do autor, muitas vezes atribuídas ao destino ou à magia, o mesmo recorre à história lendária de Tristão e Isolda que, ao beberem por engano um «filtro do amor», se perdem de paixão um pelo outro, sem o desejarem, tornado-se incapazes de resistir à força ilógica dessa emoção proibida, acabando ambos de forma trágica.
A questão que se coloca é esta: se há, de facto, «poções» que ao actuarem no nosso organismo impõem comportamentos que a força da vontade não consegue controlar, como o exemplo do efeito da oxitocina, produzida no cérebro e no corpo dos mamíferos e que influencia comportamentos sexuais, locomotores e maternos; facilita as interacções sociais e induz a ligação entre amantes, entao será que a paixão é um simples e inevitável truque químico, que ocorre sem o nosso consentimento ou controle? Será que a oxitocina explica as paixões sem limites, quer de arganazes, quer de humanos (no caso dos araganazes a paixão pelos visto é eterna até que morte os separe..já os seres humanos não podem dizer sempre o mesmo...) ?


Dá que pensar não dá?


Entretanto vejam o que diz Osho, esse polémico e igualmente consagrado autor indiano, e estudioso da espiritualidade, sobre o amor e a paixão. Num capítulo que fala de «dependência, independência e interdependência» num «relacionamento maduro» , vai dizendo coisas deste género e que vou transcrevendo para exemplificar a sua opinião sobre o tema:


«O homem adquire maturidade no momento em que começa a amar mais do que a precisar»


«Quando você está dependente do outro há sempre infelicidade. No momento em que fica dependente, você começa a sentir-se infeliz porque a dependência é escravidão»


«Sempre que duas pessoas são infelizes juntas não é uma simples adição, é uma multiplicação»


«Aqueles que se apaixonam não têm amor nenhum, foi por isso que se apaixonaram. E como eles não têm amor nenhum, não o podem dar. E uma coisa mais - uma pessoa imatura apaixona-se sempre por outra pessoa imatura, porque só elas conseguem compreender a linguagem uma da outra. Uma pessoa madura ama uma pessoa madura. Uma pessoa imatura ama uma pessoa imatura» ( evidentemente Osho nunca ouviu falar da oxitocina,mas também não precisava... )


«Na realidade uma pessoa com maturidade não se apaixona, cresce em amor»


«Quando duas pessoas maduras estão apaixonadas ( caramba, a paixão afinal é para os maduros também? pensei que seria só para os imaturos..mas continuemos) acontece um dos maiores paradoxos da vida, um dos fenómenos mais belos: estão juntas e apesar disso estão tremendamente sozinhas. Estão tão juntas que praticamente são uma só, mas a sua unicidade não destroi as suas individualidades - na realidade, realça-as torna-as mais individuais. Duas pessoas maduras apaixonadas ajudam-se uma à outra a serem mais livre. Não há nisso nem política, nem diplomacia, nem esforços para dominar.» ( admito que concordo com a maioria do que ele diz..menos na história da paixão..aí prefiro a teoria da oxitocina...)


«A liberdade é um valor mais elevado do que o amor. Por isso, se o amor estiver a destruir a liberdade, esse amor não tem valor. O amor pode ser abandonado, a liberdade tem de ser salva - a liberdade é um valor mais elevado. E sem a liberdade você nunca poderá ser feliz, isso não é possível»


Mas há mais...veja o que pensa este autor sobre o casamento ( o que pensariam os arganazes disto, se pudessem ter sentimentos além de emoções???)


«Ninguém se deveria casar com uma mulher ou com um homem num estado de espírito poético. Deixe que surja o espírito da prosa, e depois case-se. Porque o dia a dia é mais parecido com a prosa do que com a poesia» ( E não é que ele sabe mesmo o que está a dizer? talvez a taxa de divórcios baixasse drasticamente se tal ideia fosse posta em prática. Claro que metade dos casamentos também não se realizariam...)


«Uma pessoa deveria adquirir maturidade suficiente. Maturidade significa que se deixou de ser um palerma romântico. (Esta doeu para quem se considera romântico, não doeu?). Que se compreende a vida, que se compreende a responsabilidade da vida, que se compreendem os problemas de estar junto de uma pessoa. Não se espera que tudo seja um paraíso, que tudo sejam rosas. Não se espera nenhum absurdo; sabe-se que a realidade é dura, é difícil. Haverá rosas, mas só de longe em longe; haverá muitos espinhos.» (Não há como negar que estas palavras fazem sentido...doa a quem doer.)


«O amor não é uma paixão, o amor não é uma emoção. O amor é uma compreensão muito profunda de que, de certo modo, alguém o completa a si. Alguém faz de si um círculo completo. A presença do outro faz realçar a sua presença. O amor dá-lhe liberdade de ser você mesmo; não é possessivo. Por isso, fique atento - nunca pense no sexo em termos de amor, caso contrário terá uma decepção. Esteja vigilante e quando começar a sentir em relação a alguém que basta a presença, a pura presença - nada mais, nada mais é necessário; você não pede nada, basta que o outro seja, é suficiente para o fazer feliz (...) é porque você está apaixonado. E então poderá passar por todas as dificuldades que a realidade cria.» ( Será que António Damásio já leu as teorias de Osho? Será que elas ajudariam a completar um estudo sobre a neurobiologia do amor? ...afinal Osho também percebeu que o amor não é uma emoção... )


E perante isto tudo pergunto-me: que ideias escolher? optar pela paixão ou o amor? E porque não as duas? E, já agora, que mal pode haver em deixar a oxitocina fazer o seu papel biológico inevitável e, ao mesmo tempo, mantermos a nossa capacidade de pensar e decidir - de sentir - fazer o seu papel de gestão das emoções?


De uma coisa estou certa, neurobiologia e espiritualidade à parte, ainda há uma margem enorme de capacidade de escolha no ser humano. Até o direito de errar na escolha é uma capacidade que prova inteligência. Escolha. Liberdade. Felizmente, além de um fantástico e complexo organismo, ainda somos seres indecifraveis, capazes de atitudes e escolhas. Somos corpo e mente. Somos biologia e espiritualidade. A maior dificuldade, ocorreu-me agora, não é a de não termos escolhas. Temos. A dificuldade no meio disto tudo é a de escolher o melhor entre várias boas opções.

Eu sei que já estou a misturar isto tudo, num bolo confuso, com mel e fel à mistura. Já é tardíssimo e tenho de ir dormir, por isso termino com as palavras do Padre Vasco Pinto de Magalhães ( eu disse que andava a ler muitos livros diferentes...) e que, no que toca a escolhas na vida, resume tudo o que é importante saber nestas linhas desarmantemente simples:


«Primeiro pára, senta-te e pesa o que pretendes de bem. Depois, pondera, não as hipóteses teóricas, mas as possibilidades reais. Então, entre duas realidades, podes escolher a melhor. Decidir não é descobrir a única hipótese boa, é decidir, entre coisas boas, qual é a melhor, a mais construtiva para si e para os outros. Se é fácil ou difícil, isso não conta».
E não é que de tudo o que li e escrevi...só isto, acreditem, me abalou realmente? ...