Monday, March 10, 2008

«É tao curto o amor, tao longo o esquecimento» , Neruda

Poema Vinte - Pablo Neruda
(tradução de Fernando Assis Pacheco)

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Acabei de ler um livro magnífico. Um livro que aguçou o meu lado de voyer, o lado que espia os sentimentos, as emoções, as histórias que vivo, por empréstimo, ao entrar no palco de outras vidas. O livro chama-se «O teu nome flutuando no adeus» e é uma colectânea de histórias auto-biográficas de nove romancistas consagrados. Não histórias felizes, mas histórias de amores inesquecíveis, mas fracassados, amores que tatuaram a memória e a vida dos seus protagonistas, que foram avassaladores, mas fugazes na felicidade imensa que trouxeram. A felicidade, se calhar, é sempre fugaz…

Houve uma, sobretudo, que me marcou. Por ser contundente. Por ser brutalmente realista. Falarei dela. Há outra, de Mempo Giardinelli, que me levou até ao «Poema Vinte» , de Neruda, que fui pesquisar e, como todos os poemas de Neruda, me fascinou e me trouxe até aqui, à confissão da escrita. Neruda escreve : «é tão curto o amor, tão longo o esquecimento» , e ao ler e reler as suas palavras, penso que tem razão. Que para quem ama, para quem sentiu alguma vez a força da paixão, a sensação é essa: é tão curto o amor… parece sempre que corre contra o tempo. Uma hora torna-se um minuto, um segundo, se for feliz. Por outro lado, ao acabar, ao deixar atrás de si o rasto do vazio, pode tornar um minuto de dor em mil anos. Pode tornar o esquecimento uma luta, sem tréguas, eterna, como um inferno imposto.

A estória que me marcou e que me fez fazer a ponte com Neruda é da autoria do escritor Horácio Vasquez-Rial. Chama-se «A vergonha de ter sido, a dor de já não ser» e fala de um amor que, por preconceito, medo, vergonha, o autor, que fala na primeira pessoa, recusou assumir. Um amor negado, reprimido e que o tempo não deixou menos amargo. Porque há sentimentos que, se forem negados, não morrem. Pelo contrários, começam a viver nas entranhas da alma , como lobos num covil. Criam raízes no escuro, na dor, na obsessão. Ficam maiores por serem negados. Amores, como este, que por causarem «vergonha», por fugirem dos cânones normais imposto pela sociedade ( afinal o que é normal no amor? ) não podem ser assumidos. Amores auto - destrutivos. Amores, por isso mesmo, incuráveis. O autor da estória confessa a sua cobardia, o seu fracasso e chega à seguinte conclusão: «A maioria das pessoas passa por este mundo sem nunca se apaixonar. Acha que se apaixona, e actua em conformidade, mas não se trata senão de pura e simples química da conservação da espécie. Morrem sem terem vivido isso. É um privilégio pela Primavera que nos invade. Quanto ao resto não. Porque vendo bem, só há duas possibilidades: ou a paixão se realiza e, portanto, morre, ou não se realiza e, portanto, morre. Se desemboca em amor, em serena companhia e até em anos de bom sexo, vale a pena, mas na minha modestíssima e parcial estatística, isso acontece num casal em cada dez milhões e estou a ser generoso ao estabelecer que há dez milhões de casais, vinte milhões de pessoas no mundo, que conhecem a paixão. A maioria parte das vezes, quase sempre, desemboca em extinção, desmoronamento e fedor, como acontece com todos os incêndios: um espectáculo feio e aborrecido. Ah, mas quando a paixão desemboca em si mesma, quando se fecha por uma causa exterior ou por uma decisão brutal, e não se transforma numa prazenteira calma nem num chocante aborrecimento a dor que fica é tão enorme e brutal que tudo o resto se esquece, se perde, e só um milagroso instinto nos pode impedir de escolher a morte.»

Como já disse, sou uma voyer … observo, vivo por empréstimo sentimentos, emoções, vidas e histórias que se tornam minhas, quando as disseco para lhes extrair a alma. Faço-o com a precisão de um cirurgião que usa o bisturi para retalhar o sítio certo. Faço-o já sem hesitar, porque o tempo se encarregou de me roubar a capacidade de me espantar. De me chocar. Sei que tudo é possível, até a estupidez dos preconceitos, que tantas vezes se abraçam, em troca de própria felicidade. Há poucas paixões que possam ser eternas e felizes. Ou são felizes e correm para o rio calmo do amor, e morrem assim, sem dor ou espanto, ou não são felizes e acabam, na mesma, por mil razoes diferentes, todas dolorosas, sendo a mais dolorosa a paixão negada, amordaçada, não assumida, que fica para sempre a pairar, como um espectro, na paisagem das nossas memórias.

A paixão é uma sede e ninguém escolhe ter sede. A sede sacia-se, ou aguenta-se até ao desespero…até à morte. Diz novamente o autor, ao falar de Donna, a sua paixão negada e reprimida: «è assim a paixão, é assim a vida. Não consegue: nem o tempo nem as forças o conseguem. O desejo é mais longo do que a vida. O desejo: tudo aquilo que não se possui, ou não é. O que não se é acaba por derrotar o que se é. O resultado sabe-se desde sempre, mas apesar disso, aceitamos o desafio e corremos. Como Aquiles, a consolar-se com a ideia de que o competidor é apenas a porcaria de uma tartaruga. Donna foi isso. Uma sede. Não se apagou quando deixámos de nos ver. Só se apagou quando encontrei uma nova sede. Uma nova dependência. Mais serena. Prolongável em amor tranquilo com a aluda da idade. » . Tem razão , então, Alberoni quando diz que a dor de um amor só pode curar-se quando um novo amor vier, como as ondas do mar, varrer a praia de uma alma, levando memórias ou tornando-as secundárias, suportáveis, inóquas. Pelo menos à superfície…porque algo em mim segreda que um amor negado nunca pode ser realmente esquecido. O desejo do próprio desejo é maior que qualquer realidade e os amores negados vivem no reino dos desejos reprimidos. São bombas inclusas. Rebentam, continuamente, para dentro…

Mas há ainda algo mais que não se pode ultrapassar, mesmo com a chegada da primavera de uma nova paixão. É o sentimento de arrependimento, pelo que não se fez. Não pelo que se fez, mas pelo que não se assumiu, pelo que não se ousou, pelo que se recusou viver. Pela porção de felicidade negada. Di-lo novamente o autor desta fantástica história, apaixonado por uma prostituta, que amou, com vergonha, e chorou para sempre, ao escolher dizer-lhe adeus. Confessa-o assim: « Dizem os padres da Igreja Católica que aquele que se arrepende dos seus pecados tem mais mérito do que aquele que não peca. Um mísero álibi. Eu estou com Espinoza, que diz que aquele que se arrepende é duplamente iníquo: por aquilo que fez e por se arrepender. Ele não fala de pecado, felizmente. Não me arrependo de nada eu haja vivido. Mas muitas vezes me interrogo sobre o que não vivi, e assalta-me o temor de não haver sido suficientemente corajoso.»

E termino aconselhando todos os que adoram espiar almas, como eu, a ler o livro «O teu nome flutuando no adeus». Faz-nos pensar que sem amor, sem paixão, a vida nunca atinge o pico da verdadeira felicidade, mas, atingindo-a, o ser humano torna-se um refém do que viveu e perdeu, porque há sensações e sentimentos que só podem ser temporários. São grandes demais para se tornarem permanentes, são vento, são água, são luz….Usufruem-se, não se possuem… deixam sempre uma saudade terrível, porque, começo a acreditar, quem sente uma vez que seja o pico máximo da paixão, torna-se um viciado na emoção de o sentir. Não sei se nos prendemos a alguém que desperta esse sentimento, ou se é ao sentimento que nos agarramos. Mas sei que viver sem ter ousado sentir, no corpo e na alma, o estigma da paixão, é viver pela metade. Talvez um minuto de total felicidade justifique uma vida inteira de saudade. Tenho o pressentimento que é a isso que se refere Neruda quando diz: «É tão curto o amor e tão logo o esquecimento»…

Sunday, March 2, 2008

Capitulos 83- 96 «Estados de Alma»

Hoje reli a última parte do meu Diário «Estados de Alma» e senti algo estranho. Senti que aquelas palavras, escritas há tanto tempo, me parecem escritas por outra pessoa. Acho que, de lá para cá, me aconteceu tanta coisa e tanta coisa inesperada, que apesar de tudo o que sei, de toda a evolução por que batalhei, de todo o estudo, empenho, paixão, fui surpreendida por uma tempestade tão forte, que o meu «navio» naufragou e neste momento me encontro «encalhada» numa ilha esquecida, longe de todas as certezas que sempre me abrigaram.
Estou em maré cheia... não sei se vou conseguir soltar de novo o meu navio. Não sei, mas também já não tento ir além do minuto que vivo. A minha humildade e capacidade de entender que os homens são as suas circunstâncias, esticaram para lá dos meus próprios limites. Não tenho mais certezas. É a única certeza que tenho. Deixo-vos com os últimos capítulos dum diário interior, que começou, mas não sei quando, nem como acaba...

Capítulo 83
Já não me espanta que o amor morra. O amor entre homem e mulher. O mais forte e o mais frágil de todas as formas de amar.
Agora já não me espanta tanto. Conheço a rotina, conheço as cinzas e as chamas de paixão. Vejo em muitas histórias que cruzam no meu caminho o desencanto crescer e os corações perderem-se um do outro sem saberem bem onde ou porquê. Para amar alguém a vida inteira é preciso tecer laços de amizade e respeito que resistam a testes inevitáveis: o da desilusão, (porque ninguém é como sonhamos), o do cansaço (porque o tempo desgasta mais uma relação do que o vento norte as dunas), o da impaciência (porque os defeitos do outro parecem crescer com o conhecimento e as virtudes encolherem), o das tentações (porque o que é novo e aparece no meio do nosso desiludido e impaciente cansaço, pode apaixonar as nossas emoções ressequidas e ter o sabor de água fresca).
O amor morre, simplesmente porque é uma força viva. O amor nasce, cresce e mais tarde ou mais cedo chega a uma encruzilhada. Ou se fortifica com a maturidade e a experiência e nesse fortificar se renova como um elixir de eterna juventude, ou segue o caminho do envelhecimento, da doença e da morte.
Hoje há muitos amores moribundos, nem vivos nem mortos. Alguns perduram, por medo, por comodismo ou por vergonha e mantém-se mortos na árvore da vida. Outros mantêm-se aparentemente firmes, mas baseiam-se na ilusão e na mentira. Outros, simplesmente, assumem que o vazio é a única recordação que resta duma vida em comum. Reconhecer que o amor morreu é a maior das derrotas. É sempre um pecado de omissão, uma perda por desatenção, como deixar uma criança a morrer à fome porque não a alimentamos. Mas já não me espanta, também. Dói-me apenas. Assisto a tantas, tantas, vidas a tombarem, partidas ao meio. Amores desfeitos, sonhos perdidos, um sofrimento sem fim. Constato e aprendo. Aprendo que o que é belo e frágil não deve ser descuidado. Que tudo o que tem vida em si tem de ser alimentado e protegido. Que tudo o que é importante, como o sentimento que une duas pessoas no corpo e na alma, não pode morrer sem ajuda. O amor pode morrer, sim, mas só se o deixarmos morrer…

Capítulo 84

Nunca estamos sozinhos. Nunca. Mesmo nos momentos de mais sofrimento e angústia, se pararmos um segundo para dizer interiormente: “Aceito o que me está a acontecer” e, com um esforço supremo conseguirmos pedir a Deus que nos ensine a lição desse acontecimento, estou certa que, por mais doloroso que este seja, rapidamente nos deixará sentir uma paz que não é nossa – porque nos é dada – e o medo abrandará.
Se mantivermos o coração aberto, não deixando espaço à revolta, procuramos ver o bem que surge de cada mal, Deus se encarregará de colocar – estrategicamente! – nos apeadeiros do nosso caminho as pessoas, os acasos, as situações e os meios que nos permitem resolvê-los.
Só destrói o sofrimento quem não se aceite e se recalca. Só não se ultrapassa a dor que não assumimos e nos deixa orgulhosamente sós.
Os anjos andam sempre por aí, nos locais de sofrimento. Surgem no gesto amigo dum desconhecido, numa ajuda inesperada e tão necessária, no consolo que nos vem duma palavra escutada e lida. Só necessitamos de estar atentos.
A solidão na dor é sempre resultado da revolta. Uma dor assumida e entregue é integrada e vencida, porque há sempre quem nos ajude a fazê-la.

Capítulo 85

Estou tão cansada…
Parece que vivo num mar encapelado. Uma vaga sucede-se à outra e mal mergulho e ponho a cabeça de fora, sôfrega de ar, surge outra e outra e outra vaga. Luto, sim, é preciso lutar, mas o cansaço é tremendo, o peso que sinto no corpo e na alma parece querer esborrachar-me, como a um insecto inoportuno.
Mas a luta, a maior luta, é tentar sempre manter as minhas convicções, acreditar que um obstáculo – e são tantos! – é apenas um degrau para ver mais além. Ver o quê?
Não sei, apenas me agarro desesperadamente à certeza que tudo o que me desafia e me morde são testes, que viver é um sopro e que nada importa muito. Tudo são provas a passar, lições a aprender, apegos a deixar partir.
Procuro, que o meu lago interior mantenha a paz. Não à superfície. Lá só vejo ondas, desinquietude, turbulência. Mas no fundo, na alma do lago, espero preservar intacta a minha paz, a harmonia e a serenidade.
É como se estivesse num campo de batalha e sentisse as balas a rasarem-me a pele e visse também a meu lado os companheiros de luta. Há sangue, barulho e dor. Tanta dor inútil…
Mas de uma forma estranha parece-me que olho tudo de “cima”, que estou, sem estar, no meio do fogo e da guerra. Algo em mim sabe que há alturas em que não se pode remar contra a maré, que é preciso esperar e aceitar. Que é preciso acreditar teimosamente na felicidade, sobretudo quando ela se esconde. Tenho muita fé nessa energia superior que nos ampara desde toda a eternidade. Sei que nunca estou só, mesmo que assim pareça. Sei que até os desafios, as incompreensões, as injustiças e os medos passam. Tudo passa. Tudo acaba. Tudo é sempre um princípio que caminha para um fim. Tudo menos a alma. Só ela é eterna, só ela não pode ser atingida. Não sei mais nada. Hoje, não quero nem posso saber mais nada.

Capítulo 86

Estou sempre a repetir-me. Despejo palavras, como um vómito da alma. Digo sempre a mesma coisa, mas tenho de o fazer, para continuar a acreditar naquilo em que acredito.
Neste momento assisto a uma situação – uma lição – de vida paradoxal.
No bem que procuro fazer, encontrei ressentimento, crítica e incompreensão. Parece que tudo o que faço, mesmo com a melhor das intenções, resulta numa bofetada. Deixa-me contudo anestesiada, esta situação. Talvez o problema não seja sequer meu, porque quem não me entende ou me julga, injustamente, está pior do que o mal que me está a fazer. Quando nos sentimos atacados injustamente, quando o bem que fazemos é posto em causa o terreno sagrado da verdade violada, então só nos resta imaginar que uma tempestade de chuva fria e de vento agreste nos pretende atingir. Contudo, se uma “janela” estiver entre nós e o vento, este não nos fustigará.
É preciso manter o coração imune, não deixar que a negatividade o contamine e que o ressentimento o envenene. É preciso ver. O mal só nos atinge em pleno, quando acreditamos que é mais forte do que a nossa vontade. O mal que os outros nos causam é sempre fruto da ignorância, logo deve ser visto como tal. Proteger a alma e o coração é não empolgar através da auto comiseração os ataques exteriores.
O único inimigo que devemos temer está cá dentro: somos nós próprios, quando somos vítimas das nossas emoções e pensamentos. Não podemos deixar que as emoções nos controlem mas aprender a controlá-los. Então, o vento que sopre, a chuva que caia, os relâmpagos que ecoem furiosos a nosso redor. Não nos atingirão. O nosso “lar” continuará quente, seguro e protegido. Lá crepitará a lareira da compreensão, do não julgamento, da liberdade interior. E tudo fará sentido…

Capítulo 87
Às vezes não fazemos o que desejamos e podemos – pelo simples motivo que “fazer” é um acto que implica uma decisão, um sair do nosso rotineiro comodismo. Assim, recusamo-nos involuntariamente, a momentos únicos de contentamento por pura preguiça física ou emocional. E depois queixamo-nos, queixamo-nos, queixamo-nos…

Capítulo 88

O crescimento espiritual é tão lento, tão custoso de saborear e tão difícil de transmitir, que não admira que a maioria das pessoas só se aperceba da sua existência ou muito tarde ou quando alguma circunstância extrema o obriga ao seu aceleramento. Crescer espiritualmente é como escalar uma montanha. Primeiro só há pedras soltas, distracções e retrocessos. Depois começa o gosto pela subida. Algures no caminho surge o cansaço e a dúvida: saber para quê? Não será uma perda de tempo? Sobe-se mais um pouco, a contra gosto e surgem obstáculos difíceis de transpor. Há abismos, contornos pouco seguros, insegurança. Surge o medo e algumas vezes o desânimo, quando se pensa que não é possível ir em frente, que não se tem força, nem coragem, nem vontade de subir mais.
Mas depois de algumas vitórias na escalada o cume já se avista. Há um objectivo e uma promessa. Às vezes no derradeiro instante há quem perca o equilíbrio e caia. Há quem deixe de acreditar em si mesmo e resvale para o abismo. E toda a escalada terá de começar de novo… As maiores vitórias perdem-se quase sempre quando estão ao alcance da nossa mão. Quem atinge o pico da montanha sabe que as arranhadelas no corpo, os dedos dilacerados, o cansaço e todas as dores somadas são uma peça diminuta comparando com o prémio que se alcançou. A visão sublime, o silêncio cheio, a paz sem limites de estar com os pés na terra e a alma a tocar o céu.
Mas as palavras nunca serão capazes de explicar o que só a exemplo pessoal proporciona. A vivência espiritual é uma aventura individual, sem espectadores e sem guias. Há setas e sinais, mas o caminho é só nosso. As derrotas são só nossas. As virtudes, essas, curiosamente, são de todos, porque quem sobe ao cume de uma montanha já não consegue mais rastejar e vive para incentivar outros a voarem até ao infinito.

Capítulo 89
Aprendi mais uma lição nova. Surpreendente. O seu teor está perfeitamente englobado na palavra inglesa “surrender”. Apetecia-me continuar a usá-la, como me foi transmitida, mas de alguma forma precisa de encontrar uma tradução que me satisfaça, na minha língua materna. Surrender pode significar “rendição”. Podemos render-nos, a um inimigo e ficar com a ideia que a palavra significa derrota. Mas não é isso. Surrender pode também significar aceitação do inevitável. Rendição no sentido de “não combate”, voluntário. O seu significado não é derrota, mas a escolha consciente de uma atitude que pareça fraqueza, mas é força, que pareça desistência, mas é fé, confiança, entrega. Acho que é isso mesmo; entrega, sem luta desnecessária a um momento que não se pode vencer a não ser pela aceitação.
Eu sempre lutei, sempre tive medo de me “render”, porque isso significava muitas vezes aceitar o inaceitável, deixar-me “dobrar” por uma vontade alheia à minha, fosse ela de Deus ou dos homens.
Mas há situações em que lutar com revolta e não-aceitação é mais doloroso que esmurrar rochas com os pulsos. Só nos fará sangrar e dilacerar a alma inutilmente. Tudo o que é inútil é uma perda de tempo triste e inglória. Sofrer por exemplo uma doença. Aceitar a doença e combater contra ela com aceitação – sem medo ou revolta – é sem dúvida a atitude mais difícil, mas a mais útil, porque é uma atitude positiva geradora de paz e vale por um milhão de lutas negativas que nos atolam no desespero. A morte é outro desses exemplos, tal como a perda dum amor, a perda de segurança, de um emprego, de uma posição.
Na vida os problemas surgem sempre. É inevitável. A vitória de uma vida não consiste em não ter problemas mas sim em escolher a atitude mais correcta para os enfrentar. Sentir raiva, gritar, dizer “não” é por vezes necessário à nossa sobrevivência.
As nossas fronteiras terminam onde começam as fronteiras dos outros e vice-versa. Mas há lutas que só se podem vencer sem violência. Aceitar é procurar tirar do momento presente todo o seu sumo em vez de o maldizer. É encarar os obstáculos como desafios e não como prisões. É compreender que tudo são lições e que é nossa a escolha de as aprender – e ultrapassar – ou de as recusar e ser de novo confrontado com elas. Uma lição por aprender regressa sempre, de novas maneiras, até que o nosso espírito diga “sim, vou abraçar-te, porque só depois podes partir”.
Às vezes esgoto-me em lutas por ideais, por opiniões, por opções que os outros não aceitam e me parecem as certas. Argumento, uso a arma da raiva, da impaciência, da intolerância. Mas nunca venço. Enquanto a boca grita “vence-te” o coração chora, porque não tem paz, não se sente em casa, não sobrevive, inteiro, no caos da desarmonia.
“Surrender” é uma técnica de sobrevivência que só os mais corajosos conseguem empreender. Dizer “sim” à dor, parece renúncia ao prazer e à alegria, mas trata-se apenas de adiar uma satisfação passageira em nome de uma prova maior: sentir o nascer duma paz que nada nem ninguém pode matar, porque se tornou imune a todas as provocações. Sem paz interior é impossível a felicidade. Com dor, sofrimento, perda é possível ter paz, logo ser feliz de uma maneira diferente. É aceitar o presente, tal como é, e ser feliz aos bocadinhos. Humildemente, com gratidão. É isto que eu aprendi com a palavra “surrender”, é exactamente assim que espero ser capaz de enfrentar, daqui para a frente, todos os meus “demónios”.


Capítulo 90
Quando um pensamento nasce e se torna em vontade, medo ou desejo, a sua realização concreta torna-se real e transforma-se em acção. Teremos sempre de ter cuidado com o que tememos e desejamos. Se acreditarmos num mal futuro, ele virá. Se acreditarmos numa bênção futura, ela virá. O que pedirmos, obteremos, o que procurarmos, encontraremos. O que pensarmos, seremos…




Capítulo 91

Aquilo que mais me cansa, hoje, é a noção que cada passo parece um retrocesso. Dou dois passos para a frente e logo a vida me testa e me faz recuar três. Estou parada, lutando. Imóvel, esbracejando. E a corrente arrasta ressentimentos, incompreensão, lutas mesquinhas, um vazio na mente e um peso no coração.
Estou no deserto e só a fé me permite acreditar que do escuro que me rodeia, na monotonia da vida, de todos os conflitos, uma luz irá surgir e a paz abraçará o que sou. Não serei eu a alcança-la, será ela a alcançar-me a mim.

Capítulo 92

Somos o que fazemos, ou fazemos o que somos? Acho que é uma dúvida importante. Eu acho que “faço” o que sou. O bom, ou o mau, faço-o porque transmito a minha forma de agir, de sentir e de pensar nas minhas acções. Posso até levar os outros a pensarem que o que faço, sobretudo o que faço conscientemente bem, me define como pessoa. É falso. Nos momentos de crise, de impaciência, de teste, a forma como actuo, o que faço, espelha o que sou, mostra os meus medos, fraquezas, inseguranças. Posso quase sempre, com mais ou menos esforço controlar o que eu faço. Raramente consigo controlar o que sou.

Capítulo 93

Descobri uma realidade terrível, assustadora: o ressentimento que o amor nos pode causar. Quando sacrificamos tempo, sonhos, desejos e forças para estar junto de quem amamos, para os proteger, para lhes facilitar a vida, podemos, sem o perceber, acumular frustrações que, mais tarde ou mais cedo rebentam numa depressão ou numa impaciência incontida.
Dor, dor, dor até à exaustão. Dar sem esperar recompensa, mas calcando sonhos próprios, pode pagar-se muito caro. Não é raro olharmos os que mais amamos mas estão dependentes de nós fisicamente, ou emocionalmente com um certo amuo. Por causa deles não podemos fazer, não podemos ser, não podemos escolher, o que nos apetece fazer, ser e escolher.
Ser altruísta, generoso, abnegado, pode não ser tão inofensivo como parece. A morte dos nossos sonhos nunca é pacífica.
Talvez por isso seja necessário termos paciência com a nossa natureza. Se um pai ou uma mãe doentes nos roubam todo o tempo e energia, não nos devemos sentir culpados, por alguns momentos nos apetece fugir e deixar o “fardo” noutros ombros.
O cansaço é humano. O nosso limite é testado vezes sem conta até aprendermos a alcançar o meio-termo “mágico” que nos permite continuar a viver as nossas escolhas, sem desprezar as nossas obrigações. Duma coisa estou certa: amar é prescindir, voluntariamente, de ter sossego na vida. Mas isso é estar vivo.

Capítulo 94

Quando alcançamos a compreensão duma verdade, quando ela nos parece clara e a nossa convicção segura, surge o teste. E o teste é sempre uma perda, uma humilhação ou injustiça. É algo que nos abana, de dentro para fora, até ter a certeza que a nossa certeza é uma planta com raízes.
Não é aquilo em que dizemos acreditar que é importante. Importante é a capacidade de nos mantermos fiéis, sejam quais forem as circunstâncias, às verdades teóricas que proclamamos. Não podemos amar a justiça, sem conhecer a injustiça. Não podemos sentir o amor, se não cruzamos a linha do rancor. Não podemos entender a paz, se não lutamos algum dia. Não podemos saber o que é vencer, sem conhecer o fel da derrota.
É na prática, nunca na teoria, que mostramos o peso das nossas convicções e seremos testados uma e outra vez, até Deus nos confiar outro teste mais elevado, por missão. A isto chama-se evoluir espiritualmente e faz-se muito, muito devagarinho, porque o tempo tem uma paciência infinita e nunca desiste de nós.




Capítulo 95
Recebi uma mensagem. Chegou quando devia chegar e diz assim: “Se queres muito alguma coisa deixa-a livre. Se ela voltar será tua para sempre, se não, é porque nunca foi tua de verdade. A liberdade é o espaço que a felicidade precisa.”
Se assim é, o que penso perder, nunca possuí e o que conquistei sempre foi meu. O segredo é o desprendimento, a liberdade interior que nos permite possuir sem orgulho ou perder sem mágoa. A isto chama-se felicidade.

Capítulo 96

Tantos mundos paralelos se cruzam no meu trajecto. Mundos onde habita o luto, a incompreensão, a dor. Almas desesperadas, num quarto trancado às escuras. A janela está lá. Por trás está a luz, mas a janela tem as portadas cerradas e estas só abrem por dentro e ninguém pode abri-las na vez de outro alguém. Revolta, raiva, apegos. Algemas que a alma aceita, sem questionar a razão. Sem chegar a perceber que a chave que as abre está na própria fechadura, ao alcance do coração.
Mas tudo é necessário: a dúvida, o erro, a dor, a raiva, o desespero, a procura, a perda, a solidão. Um dia o cálice chega à última gota e a travessia está completa. Sem cruzar todas as etapas do conhecimento interior, sem despir as capas pesadas que sufocam a alegria e estrangulam a paz, sem aprender a sofrer vendo na dor uma lição, sem morrer todas as mortes antes da morte chegar, não se cresce, não se é homem, não se torna tudo simples, transparente, imperturbável como o lago da verdade.
Todas as experiências são positivas porque, juntas, são a herança da alma. Tudo o que se aprende é útil, um dia, quando menos se espera. Combater a ignorância e treinar o desapego são dois combates espirituais obrigatórios para quem procura a “luz”. Sem elas continuaremos a apalpar o mundo, como cegos errantes, num círculo ininterrupto de caminhos repetidos que não nos levam à saída mas ao ponto de partida. E viveremos milhares de vidas até entendermos o sentido de cada uma delas. Até esgotarmos o leque das emoções, dos sentimentos, das escolhas e já não existe mais nada para sentir ou experimentar.
Acredito que todos teremos de lá chegar e acredito que o nosso caminho só se torna mais plano, quando nos esforçarmos por tornar menos duro ou solitário o caminho de alguém. Afinal, contra toda a lógica do mundo, vivemos, apenas, para aprender a amar...