Monday, December 31, 2007

«Ponte para o Sempre»

Hoje é o ultimo dia do ano de 2007. Para mim não faz grande diferença de ontem, ou de amanhã. Mas acredito que no início de cada ciclo devemos por fora o que nao convém e dar passos novos..um de cada vez. Fica aqui a minha mensagem para 2008...

«A Ponte para o Sempre»

« Pensamos que às vezes não restou um só dragão. Não há mais qualquer bravo cavaleiro nem uma única princesa a passear por florestas encantadas.
Pensamos, às vezes, que a nossa era está além das fronteiras além das aventuras. Que o destino já passou do horizonte e se foi para sempre.
É um prazer estar enganado. Princesas e cavaleiros encantamentos e dragões mistério e aventura, não existem apenas aqui e agora...continuam a ser tudo o que já existiu neste mundo. No nosso século só mudaram de roupagem.
As aparências tornaram-se tão insidiosas que as princesas e cavaleiros podem esconder-se uns dos outros... podem esconder-se até de si mesmos. Contudo, os mestres da realidade ainda nos encontram em sonhos para dizer que nunca perdemos o escudo de que precisamos contra os dragões... Que uma descarga de fogo azul nos envolve agora a fim de que possamos mudar o mundo como desejarmos. Não somos poeira, somos magia!» Richard Bach (Fernao Capelo Gaivota)

Gosto muito deste texto. Porque me faz acreditar, no meio de tantas nuvens negras, pessimismo, desencanto e falta de originalidade que abundam pelo mundo, que ainda podemos acreditar em príncipes e princesas. Que, enquanto houver mundo, haverá magia. Que as princesas e os príncipes podem ter roupas diferentes, nomes diferentes, palácios de formatos diferentes. Mas que, bem no fundo, todos temos sonhos e quem sonha não pode deixar de acreditar no impossível, lutar para atingir metas, ter a esperança como seta nos caminhos da vida. E assim sendo, arriscar cometer erros, cair, magoar-se, mas VIVER.
Na vida há dragões: há momentos em que não apetece continuar em frente, em que o dia a dia é uma monotonia interminável, a que se segue outra monotonia igual; há alturas em que as dores, os problemas, as angústias, andam em circulo e massacram a paciência, a vontade, a alma… há dragões com rostos humanos, há sempre aqueles que nos decepcionam, nos viram as costas, nos passam um rasteira, nos abandonam.
Mas há, também, os que nos estendem a mão ou nos abraçam. Há oportunidades únicas que surgem. Há acasos cheios de sentido. Há dias com o céu azul, com o sol a brilhar. Há sempre a possibilidade de mudarmos o que nos perturba, o que já não nos serve, o que se tornou uma prisão, se dermos o primeiro passo.
Começo a chegar a uma conclusão: os problemas que mais nos atormentam, nunca irão embora enquanto não assumirmos a nossa responsabilidade por eles. Tudo o que nos acontece tem um motivo e os mesmos testes serão repetidos, numa roda sem fim, enquanto não descobrirmos uma nova resposta para o mesmo problema. Seja qual for o problema, é a nossa atitude perante ele que o pode perpetuar ou aniquilar. Os problemas não mudam, nós é que podemos mudar a perspectiva que temos deles. E vencê-los…
Sei, porque o sinto na pele, que aquilo de que fujo, me aparece noutra esquina, com outro «rosto», mas com a mesma força virulenta. Sei que as resoluções difíceis que evito, não param de me importunar até que as enfrente, com medo mas também com determinação. Sei que ninguém pode decidir ser feliz por mim, escolher o que mais me convém na minha vez, lutar as minhas lutas, rir o meu riso, chorar as minha lágrimas. Mas sei não estou sozinha…há príncipes e princesas e no palácio do mundo todos os que se arriscam a viver as mudanças que são convidados a viver, que assumem o que sentem e o que são, que enfrentam os seus «dragões» e os vencem, um a um, não fugindo deles, descobrem que os escudos mais eficazes moram cá dentro. Constroem-se com paciência, com persistência, com os pés na terra e o coração no universo. E só assim descobrimos, no meio do deserto da vida, que não somos poeira…somos magia!
Deixo-vos com algumas frases que escolhi e que são um estímulo a acreditar nos sonhos, na vida, nas princesas e nos príncipes que nos vestem a alma, se assim escolhermos acreditar. São o meu voto de um bom ano para todos os que neste momento me estão a ler. E são uma forma de agradecimento a todos os que, durante este ano difícil de 2007 estiveram a meu lado, funcionando como um escudo extra contra os dragões que tive de enfrentar.

«A vida é um enorme, grandioso quadro; atira-lhe com toda a tinta que puderes» Denny Kaye
«Daqui a vinte anos estarás mais desiludida pelas coisas que não fizeste do que pelas coisas que fizeste. Por isso iça todas as velas. Navega para lá do porto seguro… Explora. Sonha. Descobre.» Mark Twain
«Se o consegues sonhar, consegues fazê-lo» Walt Disney
«Quando alguém me diz que há algo que não posso fazer «porque»…já não estou mais a ouvir» Florence G. Joyner
«Que outra razão haveria para te levantares, de manhã, a não ser para te libertares?» Ann McMaster
«Não tenhas medo de dar grandes passos. Não podes atravessar um precipício em dois passinhos» David Lloyd George
«O que mais gosto de fazer é ir onde nunca fui» Diane Arbus
«Ainda não fui a todo o lado, mas está na minha lista» Susan Sontag
«No interior de cada um está o potencial para construir o império dos nossos desejos; e não permitas a ninguém que te diga que não os podes ter todos. Tu podes sim, podes tê-los todos» Estée Lauder

Um ano de 2008 absolutamente mágico que fique como uma «ponte para o sempre», o seu amanhã!

Tuesday, December 18, 2007

Mensagem de Natal 2007

«Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente eu não diria tudo o que penso! Mas, certamente pensaria tudo o que digo.
Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.
Dormiria pouco... Sonharia mais... pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos 60 segundos de luz. Andaria quando os demais parassem...Acordaria quando os outros dormissem... Escutaria quando os outros falassem... E saborearia um bom sorvete de chocolate. Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, jogar-me-ia ia de bruços no solo deixando a descoberto não apenas o meu corpo, como a minha alma.
Deus meu! Se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol nascesse. Pintaria com um sonho de Van Gogh nas estrelas, um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat. Seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas.
Deus meu! Se eu tivesse um pedaço de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas: amo-te , amo-te ! Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor. Aos homens... provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem! Sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança...daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens... Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha... sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
Johny Welch - Marioneta de Trapo»

Eu não sei se sou como uma «marioneta de trapo», mas sei que me identifico com ela. Nos anseios, nos desejos, nos «ses». E como cada vez mais acredito que a vida nos devolve aquilo em que acreditamos, o meu desejo para cada um de vós, ao terminar este ano de 2007, é que desistam dos vossos «ses» e ousem ser tudo o que sonham ser. Hoje, hoje mesmo! Sem ter medo do medo, sem perder um minuto ou uma única oportunidade. Ousando dizer não ou sim, com a convicção da alegria. Não forçando nunca um sorriso, mas sorrindo com a alma em cada um dos sorrisos. Desejo que não desejem, mas façam. Que não lamentem, mas sigam em frente, abraçando cada erro que serviu de degrau para irem mais além. Que não lamentem os erros, as lágrimas, as cicatrizes, as perdas. Tudo têm uma razão de ser e tudo aquilo que começamos a aceitar deixa de ter o poder de nos magoar ou controlar. Desejo que voem como as águias, sem limites, sem cansaço, sem monotonia, porque viver é a maior e mais fascinante aventura que se pode imaginar, e só o facto de estarmos vivos, faz de cada um de nós, um privilegiado! Mas, sobretudo, amem com a paixão das tempestades e vivam como se não houvesse mais nenhum dia. E verão, estou certa disso, como todas as prioridades ficam mais simples e mudam…sem que os «ses» se intrometam…
Um abraço com a alma,
Any

Monday, November 19, 2007

«Tristão, Isolda e o filto do amor»

Ando a ler vários livros ao mesmo tempo. Para mim não é complicado. É, isso sim, divertido, porque por vezes, ao ler autores com ideias antagónicas, sinto um imenso prazer em perceber,como mera espectadora, a força com que pessoas diferentes defendem ideias opostas, com a mesma inabalável convicção. É por isso que sou incapaz, hoje em dia, de ter ideias inabaláveis seja lá sobre o que for. Penso, leio, releio, procuro, sinto esta curiosidade insaciavél em perceber, saber, ir mais além... mas não sinto a necessidade do conforto de encontrar respostas embrulhadas e prontas a consumir. Não as há.
A vida vai mudando e alargando a nossa forma de ver as mesmas coisas, ou então estagnámos, mumificámos nalgum degrau do processo de viver. E perceber esta realidade não me causa angústia, pelo contrário, começa a ser algo que me dá um imenso gozo. Este mar imenso de possibilidades à minha frente...esta certeza que nunca saberei tudo o que há para saber...que haverá sempre algo mais para aprender para me «espantar».
Ando a ler António Damásio e «O Erro de Descartes» e ao mesmo tempo «Maturidade» de Osho, entre outros livros. Não deixa de ser curioso que se possam pegar nas mesmas ideias e vesti-las com uma roupagem científica e espiritual. Vejamos os conjuntos que descobri...
Começo pela abordagem científica do consagrado autor de livros como «O sentimento de Si» e «O Erro de Descarte» e lamento ter de dizer que, de acordo com António Damásio, em termos neurobiológicos, emoções não são ideias meio etéreas e românticas, mas sim estados do nosso corpo. Um conjunto de processos químicos, aprendizagens e reacções inatas que nos levam a reagir, a cada momento, a estímulos que visam a preservação da vida do corpo. Já os sentimentos serão algo que se segue às emoções, em último caso o complexo processo de perceber que temos essas emoções e de as avaliar cognitivamente e reagir a elas.
Pode parecer pouco romântico, mas explica muita coisa para mim. Explica, por exemplo, o facto de muitas vezes não sermos senhores absolutos das nossas decisões ou reacções. De existirem no nosso cérebro processos neurais e químicos que podem desencadear respostas que escapam ao poder da vontade dita consciente.
Há um sub-capítulo no capítulo Seis do livro, com o título «Tristão, Isolda e o filtro do amor» que nos dá uma ideia alargada da opinião de António Damásio sobre esta problemática. Transcrevo: «Existem, de facto, poções nos nossos organismos e cérebros capazes de nos impor comportamentos que podemos ser capazes, ou não, de eliminar através da chamada força da vontade. Um exemplo elementar é a substância química oxitocina (...) O seu efeito não fica em nada atrás do efeito dos elixires lendários. De um modo geral influencia toda uma série de comportamentos higiénicos, locomotores, sexuais e maternos. Um bom exemplo encontra-se nos estudos de Thomas Insel sobre o arganaz, um roedor com uma belíssima plumagem. Após um namoro fulminante e um primeiro dia de copulação repetida e apaixonada, o macho e a fêmea tornam-se inseparáveis até à morte (...) Não ha dúvidas que os seres humanos estão constantemente a usar muitos dos efeitos da oxitocina (...) Podemos acrescentar à neurobiologia do sexo, a respeito da qual se sabe já bastante, os primórdios da neurobiologia do afecto e, munidos de ambos, lançar um pouco mais de luz sobre o complicado conjunto de estados e comportamentos mentais a que chamamos amor»Por aqui depreendo que até o amor, mais tarde ou mais cedo terá uma leitura neurobilógica. Mas para exemplificar o poder das «forças ocultas e indomáveis que por vezes se conseguem sobrepor à vontade própria», nas palavras do autor, muitas vezes atribuídas ao destino ou à magia, o mesmo recorre à história lendária de Tristão e Isolda que, ao beberem por engano um «filtro do amor», se perdem de paixão um pelo outro, sem o desejarem, tornado-se incapazes de resistir à força ilógica dessa emoção proibida, acabando ambos de forma trágica.
A questão que se coloca é esta: se há, de facto, «poções» que ao actuarem no nosso organismo impõem comportamentos que a força da vontade não consegue controlar, como o exemplo do efeito da oxitocina, produzida no cérebro e no corpo dos mamíferos e que influencia comportamentos sexuais, locomotores e maternos; facilita as interacções sociais e induz a ligação entre amantes, entao será que a paixão é um simples e inevitável truque químico, que ocorre sem o nosso consentimento ou controle? Será que a oxitocina explica as paixões sem limites, quer de arganazes, quer de humanos (no caso dos araganazes a paixão pelos visto é eterna até que morte os separe..já os seres humanos não podem dizer sempre o mesmo...) ?


Dá que pensar não dá?


Entretanto vejam o que diz Osho, esse polémico e igualmente consagrado autor indiano, e estudioso da espiritualidade, sobre o amor e a paixão. Num capítulo que fala de «dependência, independência e interdependência» num «relacionamento maduro» , vai dizendo coisas deste género e que vou transcrevendo para exemplificar a sua opinião sobre o tema:


«O homem adquire maturidade no momento em que começa a amar mais do que a precisar»


«Quando você está dependente do outro há sempre infelicidade. No momento em que fica dependente, você começa a sentir-se infeliz porque a dependência é escravidão»


«Sempre que duas pessoas são infelizes juntas não é uma simples adição, é uma multiplicação»


«Aqueles que se apaixonam não têm amor nenhum, foi por isso que se apaixonaram. E como eles não têm amor nenhum, não o podem dar. E uma coisa mais - uma pessoa imatura apaixona-se sempre por outra pessoa imatura, porque só elas conseguem compreender a linguagem uma da outra. Uma pessoa madura ama uma pessoa madura. Uma pessoa imatura ama uma pessoa imatura» ( evidentemente Osho nunca ouviu falar da oxitocina,mas também não precisava... )


«Na realidade uma pessoa com maturidade não se apaixona, cresce em amor»


«Quando duas pessoas maduras estão apaixonadas ( caramba, a paixão afinal é para os maduros também? pensei que seria só para os imaturos..mas continuemos) acontece um dos maiores paradoxos da vida, um dos fenómenos mais belos: estão juntas e apesar disso estão tremendamente sozinhas. Estão tão juntas que praticamente são uma só, mas a sua unicidade não destroi as suas individualidades - na realidade, realça-as torna-as mais individuais. Duas pessoas maduras apaixonadas ajudam-se uma à outra a serem mais livre. Não há nisso nem política, nem diplomacia, nem esforços para dominar.» ( admito que concordo com a maioria do que ele diz..menos na história da paixão..aí prefiro a teoria da oxitocina...)


«A liberdade é um valor mais elevado do que o amor. Por isso, se o amor estiver a destruir a liberdade, esse amor não tem valor. O amor pode ser abandonado, a liberdade tem de ser salva - a liberdade é um valor mais elevado. E sem a liberdade você nunca poderá ser feliz, isso não é possível»


Mas há mais...veja o que pensa este autor sobre o casamento ( o que pensariam os arganazes disto, se pudessem ter sentimentos além de emoções???)


«Ninguém se deveria casar com uma mulher ou com um homem num estado de espírito poético. Deixe que surja o espírito da prosa, e depois case-se. Porque o dia a dia é mais parecido com a prosa do que com a poesia» ( E não é que ele sabe mesmo o que está a dizer? talvez a taxa de divórcios baixasse drasticamente se tal ideia fosse posta em prática. Claro que metade dos casamentos também não se realizariam...)


«Uma pessoa deveria adquirir maturidade suficiente. Maturidade significa que se deixou de ser um palerma romântico. (Esta doeu para quem se considera romântico, não doeu?). Que se compreende a vida, que se compreende a responsabilidade da vida, que se compreendem os problemas de estar junto de uma pessoa. Não se espera que tudo seja um paraíso, que tudo sejam rosas. Não se espera nenhum absurdo; sabe-se que a realidade é dura, é difícil. Haverá rosas, mas só de longe em longe; haverá muitos espinhos.» (Não há como negar que estas palavras fazem sentido...doa a quem doer.)


«O amor não é uma paixão, o amor não é uma emoção. O amor é uma compreensão muito profunda de que, de certo modo, alguém o completa a si. Alguém faz de si um círculo completo. A presença do outro faz realçar a sua presença. O amor dá-lhe liberdade de ser você mesmo; não é possessivo. Por isso, fique atento - nunca pense no sexo em termos de amor, caso contrário terá uma decepção. Esteja vigilante e quando começar a sentir em relação a alguém que basta a presença, a pura presença - nada mais, nada mais é necessário; você não pede nada, basta que o outro seja, é suficiente para o fazer feliz (...) é porque você está apaixonado. E então poderá passar por todas as dificuldades que a realidade cria.» ( Será que António Damásio já leu as teorias de Osho? Será que elas ajudariam a completar um estudo sobre a neurobiologia do amor? ...afinal Osho também percebeu que o amor não é uma emoção... )


E perante isto tudo pergunto-me: que ideias escolher? optar pela paixão ou o amor? E porque não as duas? E, já agora, que mal pode haver em deixar a oxitocina fazer o seu papel biológico inevitável e, ao mesmo tempo, mantermos a nossa capacidade de pensar e decidir - de sentir - fazer o seu papel de gestão das emoções?


De uma coisa estou certa, neurobiologia e espiritualidade à parte, ainda há uma margem enorme de capacidade de escolha no ser humano. Até o direito de errar na escolha é uma capacidade que prova inteligência. Escolha. Liberdade. Felizmente, além de um fantástico e complexo organismo, ainda somos seres indecifraveis, capazes de atitudes e escolhas. Somos corpo e mente. Somos biologia e espiritualidade. A maior dificuldade, ocorreu-me agora, não é a de não termos escolhas. Temos. A dificuldade no meio disto tudo é a de escolher o melhor entre várias boas opções.

Eu sei que já estou a misturar isto tudo, num bolo confuso, com mel e fel à mistura. Já é tardíssimo e tenho de ir dormir, por isso termino com as palavras do Padre Vasco Pinto de Magalhães ( eu disse que andava a ler muitos livros diferentes...) e que, no que toca a escolhas na vida, resume tudo o que é importante saber nestas linhas desarmantemente simples:


«Primeiro pára, senta-te e pesa o que pretendes de bem. Depois, pondera, não as hipóteses teóricas, mas as possibilidades reais. Então, entre duas realidades, podes escolher a melhor. Decidir não é descobrir a única hipótese boa, é decidir, entre coisas boas, qual é a melhor, a mais construtiva para si e para os outros. Se é fácil ou difícil, isso não conta».
E não é que de tudo o que li e escrevi...só isto, acreditem, me abalou realmente? ...

Sunday, November 4, 2007

Hoje...

E de volta ao «hoje», onde estou mas já não estarei assim que acabar de escrever cada uma destas palavras, deixo apenas este conselho: não assuma nada do que digo como verdade. Apenas escute e medite. O seu mar não é o meu mar. O que o faz ser a pessoa complexa que é, sendo energia como a minha, não sou eu. Eu só partilho ondulações do meu mar...mas acredito, cada vez mais nas palavras de Shedd que dizem:

«O Homem não pode descobrir novos oceanos enquanto não tiver a coragem de perder de vista a costa»

Capítulo 51- 82 de «Estados de Alma»

Deixo-vos com mais alguns capítulos revisitados de um diário que escrevi há alguns anos. Repito: já não sou eu que lá estou, mas um estado de espírito que foi meu. Por isso o posso publicar sem pudor. É como pegar num album de fotografias e revisitar memórias. De lá para cá o tempo ensinou-me a não ter certezas, a manter uma permanente abertura à vida, ao Universo, ao inesperado. Crescer é um exercício de avanços e recuos. Não há linhas rectas na vida...e cada curva nos revela outra paisagem. Hoje sou outra pessoa...não melhor, não pior. Apenas diferente, porque me deixo moldar, como o barro, pelas mãos implacáveis da experiência.


Capítulo 51

Estranha esta paz, esta alegria sem razão, este caminhar firme e seguro por entre o desconhecido e o escuro. Sinto-me amada, sei que nunca estive e que nunca estarei só. Não sei porque o sei.
Pressinto, mas basta que o sinta. Cada vez mais que Deus não vive fora, mas dentro da alma, que lá se deixa encontrar através da meditação e da oração. Cada vez mais a felicidade se revela como uma viagem para dentro, uma busca da espiritualidade, pautada pela ausência de medo e pela aceitação de tudo o que acontece como uma lição, alegre ou triste, que soma experiência à minha aprendizagem eterna. Vivo, uma vez mais, para aprender algo que ainda não aprendi.
Deus é sempre a luz mais alta, o cume que vislumbra. Não tenho mais medo. Sei que lá chegarei inevitavelmente e sinto-me agradecida.
É essa a razão desta alegria sem motivo, porque, como disse alguém, “não podemos estar agradecidos e não sentir alegria”. Obrigada, Deus, por estares tão próximo, por me fazeres olhar o sofrimento sem derrota e por me fazeres compreender que as vitórias são apenas instantes que passam, tal como passam as dores e as horas de escuridão.
Acredito na luz, porque a sinto acesa dentro de mim.


Capítulo 52

O que posso deixar como um legado? Como transmitir à carne da minha carne, aos filhos reais e adoptivos, tudo o que me habita e já entendo? Como cruzar a ponte e emprestar sentimentos, certezas, lutas vencidas, tentações ultrapassadas, humilhações que levaram a vitórias, vitórias que se transformaram em derrotas a quem não me pode entender?
Como falar da alma a quem só conhece o corpo? Como explicar que tudo o que é importante não se vê, a quem só acredita no que vê e toca?
Às vezes parece-me que grito ao vento, que atiro pétalas de rosas desfeitas para o meio dum temporal. Embato num muro surdo, que me ignora ou esquece.
A resposta é a preserverança e a paciência. Se toda a minha vida gritar ao vento que o amor é a minha bandeira, um dia, à força de tanto o gritar, a minha voz ficará gravada nos corações que a escutam.
Deixo pois, em testamento as palavras de força que me habitam, as poucas certezas que me alicerçam (o amor, a fé e o optimismo) e alguns exemplos que a minha forma de agir revela.
Um dia o crescimento virá e aqueles que chamo “filhos” entenderão finalmente que a voz do amor é mais forte do que a voz do sangue.
Um dia perceberão que, mesmo ausente, estarei eternamente presente nas minhas crenças, no caminho que partilhei, nas lágrimas que sequei, no riso que dividi, na amargura que consolei. Um dia a minha alma, invisível e presente, ganhará a força do sonho e habitará as almas dos que amei e quis ajudar a crescer. É para elas que ficam todos os recados a que hoje são surdos, porque “todo o amor semeado cedo ou tarde florirá” (R. Fullereau)

Capítulo 53

Li esta frase e registo-a “É impossível estar agradecida e não ser feliz”.
Quando falo com Deus, digo-lhe muitas vezes obrigada. Outras, sorrio para dentro, um sorriso que só Ele pode entender e estremeço de alegria porque me sinto amada e viva.
Agradecer é orar, é admitir que somos sempre muito mais abençoados do que aquilo que pedimos ou merecemos. Agradecer e ser feliz, mesmo que a dor chore nas nossas lágrimas, antes do sol voltar a nascer.
Agradecer a vida e a morte, aceitar ambas, viver como se a morte fosse o prémio, a chave da paz e da alegria eterna.
Agradecer é ser feliz. Ser feliz e agradecer. Não é preciso mais nada…


Capítulo 54

Ás vezes chorar faz bem. É como abrir uma janela e deixar o ar puro entrar dentro dum quarto abafado.
Chorar liberta a dor, solta amarras e deixa os sentimentos sentirem. Chora-se de tristeza, de raiva, de medo, de emoção e até de alegria. Mas a forma de chorar que mais marca é o chorar silencioso, imparável, que corre como um rio manso de dentro para fora de nós. O choro duma perda, o choro na morte, no abandono, no desamparo.
Eu choro pouco. Às vezes ando engasgada, com a alma atrofiada, mas não a deixo respirar. Não gosto muito de ser piegas, é certo, mas não é só isso. Acho que só choro quando sou apanhada desprevenida, quando uma palavra, uma música ou uma memória me abraçam de mansinho, como um abraço de criança.
Choro pouco, mas quando o faço, choro até esgotar a dor, a incompreensão e o medo.
Choro quando deixo o coração falar e fecho a porta à razão.
Hoje apetecia-me chorar…

Capítulo 55

As “coisas” dão felicidade? As coisas bonitas, o que compramos, os adornos, o que nos enche os olhos e as mãos, também nos pode encher o coração?
Sinceramente penso que não. As “coisas”, como uma bela casa, o conforto que o dinheiro compra, todo o bem-estar e a beleza materiais podem ser complementos, mas jamais substitutivos da felicidade.
“Ter ou não ter” para mim não é a questão. Eu estou mais de acordo com Shakespeare que punha a tónica em “Ser ou não ser, eis a questão”.
Tudo o que constitui a felicidade é impalpável, não se toca, não se agarra, nem se vê, porque a felicidade «é».
É aquele sentir que não se explica, num manso encher do coração que o faz brilhar para dentro. É respirar fundo e sentir que o nosso peito alberga toda a energia positiva do universo.
Não, não sei explicar o que é ser feliz, mas sei o que não constitui a sua base.
Sei que se pode ter tudo e não ter nada. Que se pode ter o poder de comprar o mundo, mas jamais se compra o amor. Que se pode ter uma corte de servidores, mas não ter um único amigo que seja uma alma gémea.
Para mim ser feliz é uma missão; uma descoberta solitária e humilde do caminho estreito e difícil do desapego, do serviço e da partilha. Sou feliz quando me dou, sou feliz quando faço alguém sorrir, sou feliz quando sinto Deus a pulsar no meu peito, a rir no meu riso e a adormecer no meu sono. Sou feliz quando compreendo que não posso fazer a minha felicidade depender de coisas ou de pessoas, porque tudo me pode ser tirado, menos a minha alma. Sou feliz quando entendo que tudo é dom, mas apenas o meu espírito é eterno. Sou feliz, sim, sobretudo quando entendo que até a dor, o sofrimento e a perda são caminhos de evolução e de aprendizagem.
Ninguém é feliz porque quer ser feliz, mas sim quando entende que a felicidade não vem de fora mas mora “cá” dentro, solitária, sem causas, sem razões e sem condições…





Capítulo 56

Só encontra a verdade quem nunca afirma possui-la.
O que é certo e o que é errado na busca da nossa alvorada?
Todos somos noite que caminha para o dia. Somos pedaços de luar que vagueiam pelo escuro e apalpam o caminho.
Como se chega à alvorada? Pela direita ou pela esquerda da alma?
Qual a seta que aponta o caminho certo, se é noite e o negrume não revela nenhumas direcções? O caminho faz-se caminhando. A alvorada nasce lentamente, quando a noite aceita morrer. O dia não nasce com pressa, mas devagar, com um ritmo que o tempo não altera, com uma paciência onde a sabedoria habita.
Todas as direcções irão dar ao caminho da aurora, tal como todas as noites se desenrolam sem espanto ou alvoroço para a luz tímida do dia.

Capítulo 57

Instantes perdidos no tempo. Rasgos fugazes de alegria. Memórias, risos em eco, o voar solto e livre da inocência de quem ainda não sofreu…
Que bom é este armazém de recordações que alimenta o meu presente. Hoje é tudo diferente. Já perdi a inocência, já bebi o cálice da dor, já sei ler nos olhos que encontro o sofrimento, o cansaço, a perda, a revolta e o desamor. Quando a morte nos visita, quando somamos perdas e percebemos que viver é um resvalar manso e certo para o fim, tudo muda.
Há um tempo para receber e um tempo para dar. Um tempo para viver na ingenuidade e um tempo para aprender a conviver com o medo. Um tempo de paz e um tempo em que se luta contra muitas guerras. Perdi a inocência, a troca de aceitar ver. Hoje já não me espanta a morte, não me revolta a perda, nem me criva para sempre a dor. Tenho apenas saudade do tempo em que tudo era fácil e eterno. Do tempo em que eu não precisava de proteger, mas me sentia sempre protegida. Saudade das raízes que me vão soltando, da terra mansa e quente como um cobertor das memórias de outrora.
Nada lamento, nem mesmo aqueles que perdi. Entala-me apenas a alma esta saudade, esta momentânea ilusão de dormir como uma criança à sombra da vida, e ser embalada por sonhos que brincam sem freio. Saudade de abraços que não voltarei a ter; saudade dos sorrisos que perdi e da forma descarada como ignorava a dor. Perdi a inocência, porque quem busca a verdade tem sempre de caminhar só, agarrando a única certeza possível: eu sei de onde vim e sei para onde vou. Todo o resto é um entretanto…

Capítulo 58

Somos peregrinos e buscamos o santuário, no cume mais alto das nossas emoções. O caminho nem sempre é longo, mas é sempre solitário. Não alcançamos ninguém, só os nossos próprios passos se aproximam dos passos cadentes e certos da vida. Caminhamos lado a lado, mas não nos passos de outrem. Como é estranha a dor dos outros. Imensa mas invisível, pavorosa mas sem rosto, enterrada no coração peregrino da alma que não nos pertence. Como eu gostaria de alcançar certas dores, limpar as almas doridas, dar-lhes um sopro vital, curador, que adormecesse o sofrimento, como uns braços que embalam, como uma canção de amor.
Mas o caminho das almas é solitário. Todos somos meros espectadores da dor. Podemos estar ao lado, mas jamais dentro de quem sofre.
A dor que os teus olhos revelam, esse olhar de andorinha presa, esse bater apressado do teu coração, como asas perdidas, é sofrimento… e eu não o posso curar.
Alma peregrina, aprende a aceitar. Não te contamine a dor, antes aprende a deixá-la atravessar a tua alma e a deixá-la seguir o seu rumo sem te destruir.
Não te afogue o momento de provação que te parece eterno e incontornável. Tudo tem um fim. Até a dor, até o medo, até a morte e a morte, afinal, é o início da vida.
Olho-te com infinito amor. Rezo por ti, estou por perto, como o ar que respiras ou a luz que te guia. Mas não sou ar nem luz. Não choro as tuas lágrimas, mas posso recolhê-las, como gotas de cristal, e abraçar o teu corpo perdido e só. Bebe da minha alegria, partilha a minha energia, a minha força, o meu amor. Faz tudo isso, amigo, irmão, mas aprende que todo o caminho é só teu. Os teus passos, as tuas escolhas, os teus fantasmas e tormentos só tu os podes derrotar. Estou aqui, uma alma peregrina como tu. Caminhemos lado a lado, mas sabendo aceitar que cada um terá de caminhar os seus próprios passos.

Capítulo 59

Porque é que ao crescer por fora, em estatura, em inteligência, em conhecimento, tantas vezes mingamos em tamanho de alma? Porque esquecemos o legado que nos codifica, a tua imagem, meu Deus? Porque esquece o homem que nasceu livre e feliz, puro, com os olhos dum recém-nascido, pequeno e frágil, que não pensa sequer em pedir mais do que é preciso para viver?
Um bebé para ser feliz, seja rei ou mendigo, precisa apenas de alimento, dos braços de uma mãe e do calor do aconchego. Porque insistimos, então, em esquecer o que nos fez felizes e, ao invés, procuramos catalogar necessidades, inventar desejos e multiplicar ambições? Porque não guardamos intacto o pedaço de céu que trazemos na alma, quando nos fazemos corpo? Porque não podemos entender que sempre fomos alma e que o corpo é um percalço na nossa eternidade, um entretanto que terá de ser despido e deixado para trás. A minha alma pulsa, com esta sensação inevitável de consentida solidão. Nasci e morrerei sozinha, embora possa estar rodeada de gente.
Sou uma privilegiada do amor; tenho uma família linda, sinto o amor a rodear-me e possuo mais do que mereço ou preciso. Agradeço, mas não me deixo seduzir. Ninguém é meu e eu não sou de ninguém. Tudo são momentos: a alegria e a tristeza. Só contam os centímetros de alma que consigo crescer no dia a dia. Só o alimento que me faz viver por dentro é um investimento seguro.
Tudo me é dado. Tudo está ao meu alcance. Mas só uma coisa me fascina: receber e nada considerar meu, rir e ser feliz sem me espantar com a visita de dor. Amar e ser amada. Pôr fora o que me pesa e deixar a alma voar, sem bagagem, na sua própria eternidade.

Capítulo 60

Tudo o que digo, eu sinto. Acredito em cada palavra. Porque será então que o que hoje me parece uma premissa segura, um sentimento cimentado, amanhã me deixa à deriva, vazia de respostas, sentindo o que não quero, sofrendo apesar de todas as respostas que desvendo?
Como é frágil o ser humano. Como são pouco firmes as suas mais fiéis convicções.
Quero desapegar-me, sei qual é o caminho, conheço os atalhos, as setas e os sinais. Porque me dói ainda esta visita da perda? Porque sinto angústia ao ver quem amo doente, enquanto me rói a impotência? A dor dói-me por inteiro, não vale a pena negá-lo. Aceito-a, é certo. Não me revolto, não me deixo afundar, mas ao fazê-lo não torno a dor menor, apenas mais suportável.
Ah esta impotência! Esta realidade amarga de poder mudar tão pouco do que me perturba e ameaça. A luta, a grande luta mora cá dentro. As intenções são alavancas, mas só a força teimosa da persistência na meditação, no desapego e no viver segundo a segundo o meu presente me poderão aliviar e tornar livre.
Não conheço outra solução que me vista a alma e a agasalhe do Inverno da angústia…

Capítulo 61

Quando estamos no meio duma ponte, estamos mais perto do início ou do fim da mesma? No meio existe o dualismo que nos define porque nos obriga a optar e a ser quem somos. Aquela pergunta acerca do copo que está cheio até meio e é apresentado a um pessimista, que o considera meio vazio enquanto um optimista o considera meio cheio, é a questão que nos é colocada diariamente quando os dilemas, as opções difíceis e os problemas nos apanham nas esquinas da vida.
É no meio – na incerteza, na ausência de segurança, que, muitas vezes, revelamos a nossa natureza e enfrentamos os nossos maiores medos. Que direcção seguir? Qual o caminho certo? Ficar quieto, caminhar para a frente ou recuar? Como ter a certeza, se a certeza não se prende a respostas feitas? Para mim só uma atitude aberta, de confiança no melhor – mesmo que seja o pior que nos está a acontecer – de desapego e optimismo nos levam a encontrar o rumo. Acho que não há acasos. Há premissas, há urdiduras que o tempo e as circunstâncias tecem à margem do nosso conhecimento consciente. Há a aposta em algo muito maior do que o nosso pequeno eu, que nos protege e guia. Quando tudo parece negro, sem saída, tento recordar-me que depois de cada noite nasce um novo dia. Depois de cada prova que nos testa e é vencida, vem um novo desafio, uma nova oportunidade.
Tudo é recomeço, tudo é caminho para os que vivem o seu presente (o meio da ponte) sem ficarem presos ao passado (o princípio da ponte) nem colocando todas as esperanças apenas no futuro (o fim da ponte). É tudo uma questão de atitude, nada mais.

Capítulo 62

As estações da vida são sempre iguais, acontecem sem pressa e sem espanto. Desenrolam-se imunes a sofrimentos ou alegrias. Um círculo imparável, repetitivo, cadente. Nascer, crescer, envelhecer, morrer. Há estações interrompidas, claro, mortes precoces que não entendemos nem poderemos nunca explicar. A morte não se explica. A morte é o que é, uma dor que não aceita paliativo, uma certeza sem hora marcada, da qual não se foge.
A estação primeira é a Primavera. A inocência feliz da infância, quando o tempo não tem futuro e parece longo e eterno. É o tempo de receber. Depois vem o Verão. A força da vida, o vigor do trabalho, o amadurecimento físico, intelectual e espiritual. É tempo para aprender e desejar. Depois chega o Outono. Há Outonos que chegam muito cedo, que são acelerados pelas circunstâncias trágicas da vida e fazem a alma ganhar anos de sabedoria em dias. É o caso da aprendizagem do desapego que a doença, a perda ou a morte acarretam. Sofrer parece, ironicamente, um fermento de amadurecimento – quem nunca sofreu não pode crescer, simplesmente porque não precisa de o fazer. Sofrer abre-nos as fronteiras da nossa finitude, reduz-nos ao que somos e podemos. Sofrer torna-nos humildes ou destroços. O Outono é um tempo de conceder. Aprende-se a deixar partir a juventude, a beleza, a força física. Aprende-se a perder os que amamos, como os pais e os avós. Ficamos mais e mais solitários, à medida que entendemos a nossa impotência e a aceitamos. A paz pode ser um fruto do Outono da vida se a chuva corrosiva da revolta não inundar esta estação.
No Outono já não se está dependente da beleza nem do desejo de adulação. À medida que o corpo envelhece, chega algo diferente: um entender o porquê das coisas e encontrar um sentido entre os acasos que nos envolvem.
Depois chega o Inverno. O tempo de todas as perdas. O corpo está gasto e puído como uma manta muito usada. O espírito começa a sentir-se preso e inquieto dentro do corpo apertado e sem energia. É tempo de fazer contas, saldar dívidas, contabilizar perdas e ganhos. É tempo de recordar, de analisar, de não ter. No Inverno vem o frio da solidão radical. É altura – se ainda não tinha surgido essa noção – de aceitar a mortalidade. A morte só tem de fazer um pequeno gesto para o corpo ceder. Porque já não há luta, resistência ou força. É altura de mendigar, de estar dependente, de observar e nada dizer.
Depois, com a morte, retorna a Primavera. O outro nascimento. O primeiro de muitos, até chegar o nascimento final, com a conquista da paz total e da eternidade.

Capítulo 63

Hoje fiz anos. Nasci num dia de capicua (22) e, numa hora de capicua (11), num ritual que se repete constantemente, como se o início e o fim de tudo fossem imagens reflectidas num mesmo espelho. Algo matematicamente preciso. Nascer. Morrer. Morrer. Nascer. 22. Da frente para trás ou detrás para a frente nada altera a certeza imperturbável dos números.
A minha vida começa também a ser um espelho deste acaso. Tudo faz sentido, nada altera o curso certo do meu rio, este caminhar, dia após dia, para um caminho que é meu.
Somar anos não é um exercício inútil. Não é coleccionar rugas e cabelos brancos. Não é apenas sentir o edifício exterior a deteriorar-se lenta, mas certamente.
Somar anos é aprender o que a idade anterior não ensinou. É perceber um pouco melhor o que ontem era incompreensível. É sentir algo diferente, seja bom ou mau, sereno ou inquietante, a crescer mais depressa do que o ritmo a que o corpo se desmorona.
Somar anos é aprender com o sofrimento a não ser tão infeliz. É treinar a paciência e a tolerância. É encontrar um sentido para tudo, é não ter medo dos acasos, é ir somando perdas com a certeza de que não se fecham portas, apenas se abrem outras portas ao lado das que se encerram. Hoje não anseio tanto. Agradeço mais. Tudo: a vida, o amor, os que amo. Agradeço o que tenho e o que aprendo. Agradeço ver um sentido e uma meta, mesmo que por vezes lhes perca o rumo. Agradeço a Deus tê-lo por companheiro no meu coração e saber que, com Ele, um dia chegarei de novo à pátria de onde parti.
Viver é bom, mas cansa. Luta-se contra apegos, contra adversários reais e imaginários. Enfrentam-se a dor física e espiritual. A paz é sempre um sonho, algo fugaz, facilmente perturbável pelo infortúnio, pelas emoções negativas e pela falta de auto-estima ou fé. Hoje fiz anos. Acordei a agradecer a Deus o dom da vida, adormeço a agradecer mesmo dom. Penso nos meus pais, essas raízes que amo com toda a força do meu ser. Os meus guardiões, o muro das lamentações, a bóia no mar revolto, a âncora na tempestade. Agradeci-lhes também. Selei esse agradecimento com uma rosa branca e uma cor-de-rosa que lhes ofereci como sinal da minha gratidão. Fiz anos. Nada mudou hoje. Tudo vai mudando, aos poucos, porque somar anos é, no fundo, um exercício sistemático de somar dias, horas e segundos com a consciência plena que o estamos a fazer.

Capítulo 64

Engraçado. À medida que vou entendendo porque estou aqui, que reconheço a minha finitude, o meu caminhar sereno e firme para a morte, sem que ela me assuste, cresce em mim outro sentimento. Uma nostalgia, uma quase tristeza. Não, não é por mim. É pela certeza, não menos firme, que terei de aprender a olhar a morte dos que amo sem sucumbir à dor aguda do adeus. Eu sei que não há adeus, que tudo é uma ilusão, que reencontramos sempre o que amamos. Apenas o que amamos. Talvez por isso já não me cause espanto aceitar que todas as religiões estão certas. Que todos falam do mesmo Deus sem o saberem. Não é Àquele a quem se reza ou em quem se crê que é fundamental. Fundamental é a fé com que se reza e o amor com que crê. É a fé que faz os milagres, é a fé que vence os impossíveis, é a fé que nos permite encontrar o rumo de Deus onde Ele se encontra: no nosso interior. A energia do amor redobra com a fé e revela o seu lado. É eterna e imortal. É essa energia que eu sou, é essa energia que são aqueles que tanto amo. O corpo, este companheiro de jornada, por muito que doa admiti-lo, é apenas uma cobertura temporária, um revestimento degradável que cobre a alma. Porque me dói, então, perder os corpos que amo? Porque sinto tanta saudade dum olhar, dum sorriso, dum toque manso duma mão, ou dum abraço apertado? Ah! Sim, a ideia da morte dói, embora eu me esteja a preparar para ela. Acho que vivo, apenas, para a entender e, ao reconhecer os seus contornos, anseio por viver melhor, por dar mais, por dar tudo o que sou e tenho. A morte, só ela, nos dá a real dimensão do que somos e podemos. Só ela traz humildade e desapego à mistura com dor e saudade.
É estranha esta sensação crescente de que só o desapego e o sofrimento nos purificam e permitem uma viagem ao mais profundo do nosso ser. Talvez por a morte ser o expoente máximo de sofrimento e desapego, seja a maior e a mais sábia das lições.
Peço-vos, Deus, Deus sem nome, sem rótulo, sem pouso, peço-vos que me ajudeis a olhar a morte dos que amo com um olhar de sabedoria. Ajudai-me a não ficar destroçada nem perdida, quando perco os que amo. Ajudai-me a sorrir, cúmplice, quando a vejo chegar, sabendo, não só na teoria mas também na prática, que a morte só vence os que se deixam enganar pelo seu aspecto cruel e usurpador. Ajudai-me, Deus, a vislumbrar o outro lado da máscara: a libertação, a plenitude, o veludo macio do amor eterno apenas coberto pelos espinhos ensanguentados da dor da perda. Tudo é ilusão. Só o amor permanece cá, ou “lá”, tanto faz…

Capítulo 65
Sinto-me uma eremita. A minha casa, que tanto gosto, não é minha, é apenas algo que me foi “emprestado” temporariamente. O meu corpo não é meu. Os dias não são meus. Não tenho nada nem ninguém que possa ser meu, porque tudo me será tirado na devida altura. Não tenho seguranças, apenas desafios. Sinto-me impotente para consolar, para dar a saúde a quem a perdeu, para acalmar a angústia, para anular o medo, a revolta e a solidão.
Por vezes sinto-me inútil, sem préstimo. Falo para o vento, agarro os meus valores e procuro mostrá-los como troféus que ninguém quer. Valores que mudam, que também perco ou refaço. Ingénua, louca, sonhadora, o que é que eu sou? Porque não me conformo com a indiferença? Porque sinto esta compulsão para partilhar a minha crença em Deus e no valor do espírito? Porque não sei viver sem rasgar o peito ao mundo e mostrar a nudez das minhas certezas interiores? Às vezes parece-me que descobri um tesouro. Que quero chamar amigos, família, conhecidos para o partilharem comigo, mas não consigo que ninguém me escute. Falo, gesticulo, argumento. A surdez colectiva mantêm-se. Posso gritar ou chorar, exigir ou suplicar, nada quebra o estado de anestesia que adormece as almas que me cercam.
Aprendi, entretanto, que para alguém acordar é preciso que o seu relógio interior o permita. Tudo acontece a seu tempo. Não há acasos. Nem a indiferença é um acaso. No momento certo, algo acontece para despertar a alma para a vida do espírito. Sem forçar, sem barulho, sem esforço. Porquê? Muito simples: é que quando o amor acorda nada mais o pode adormecer. Nem o sofrimento, nem a alegria, nem o ganho nem a perda. E amor, amor verdadeiro, é a única razão porque vivemos. A única que quebra o gelo da indiferença e sintoniza a alma com a consciência cósmica do seu criador.

Capítulo 66

Já o amor, entre um homem e uma mulher é algo que me confunde. Hoje não acredito em amores imutáveis, que permanecem eternamente jovens e românticos. O amor, o verdadeiro amor, não tem nada de romântico. Qual o segredo das almas gémeas, daquelas que se completam como duas partes da mesma maça? Qual o segredo de resistir ao desgaste do tempo, da irritação e da indiferença? Porque morre o amor sem que saiba como ou porquê? Acho que o segredo – se existe – deve rondar uma realidade prosaica e sensata. Só se pode amar aceitando o outro tal como ele é. Irritante, pouco sensível, desajeitado, desarrumado, sem organização, sem todo o role de exigências que secretamente nos afastam de alguém, porque ele é como é e não como gostaríamos que fosse. Amar, penso eu, é um exercício violento, que nos faz suportar o que parece insuportável, que nos mantém em permanente alerta, que nos obriga a ceder, a ceder, a ceder…
E eu cedo mal. Às vezes há situações difíceis de contornar, como a injustiça, a ironia, a insensibilidade. Há atritos, desacordos, desencontros. Às vezes apetece desistir e entregar o coração ou à indiferença total, ou à recusa total, que são duas formas de não-amor.
O amor é teimoso. Mesmo ferido, magoado, humilhado encontra forças para resistir e para recomeçar. Como? Simplesmente porque quem ama não dá primazia ao “eu”, mas ao “nós” ou ao “tu”.
Talvez o amor seja para os parvos, os lunáticos, os corajosos. Tudo menos para os românticos, os piegas ou os amuados. Estes não têm hipótese de sobreviver a dois por muito tempo. Amar, infelizmente, é uma obrigação penosa que coloca permanentes desafios e armadilhas no nosso caminho.
Não admira que haja tanta gente que sucumbe, algures, nesse caminho. Que desiste, que foge, que entrega as armas. Porém o maior desafio é conseguir não deixar morrer o amor, mesmo que apeteça fazê-lo. Só imagino uma lista de mandamentos para o fazer:
1º - Prescindir de julgamentos. Não acusar. Não ver apenas o erro do outro, a sua conduta que nos repugna ou enerva, mas perceber que o que não fazemos pode ser a origem da reacção negativa que condenamos.
2º - Para destruir o desamor não se podem usar armas de agressão. Só a calma, o carinho, a paciência podem, a longo prazo trazer frutos de paz. A agressão gera agressão. A fúria alimenta a fúria, palavras vomitadas com ressentimento estimulam mais ressentimento ainda.
3º - Não dar demasiado valor ao que nos perturba. Não amuar, não usar de vingança, não alimentar o nosso orgulho ferido nem dar ouvidos ao nosso ego.
4º - Perdoar. Perdoar sempre; esquecer as ofensas e recomeçar de novo, as vezes que forem precisas.
5º - Não querer mudar o outro, mas entender que as principais mudanças são de atitude. Da nossa atitude, não da do outro.
Uma passagem de Hugh Downs resume magistralmente esta questão da atitude face ao desafio do amor. A nossa atitude: “Uma pessoa feliz não é uma pessoa num determinado conjunto de circunstâncias, mas sim uma pessoa com um determinado conjunto de atitudes”.

Capítulo 67
No meio deste Inverno que não acaba, embora hoje seja o primeiro dia de Primavera, percebi que a felicidade não depende do “sol” ou da “chuva” que nos são oferecidos, mas sim da forma como os escolhemos colher.
A felicidade é imune ao tempo, não se divide em estações, não estremece com o frio nem desmaia com o calor. Ser feliz é algo que se aprende devagar.
É principalmente procurar a paz, mesmo que problemas, angústias e dores nos envolvam, como um nevoeiro cerrado. Paz, “cá dentro”, onde a certeza da impermanência, onde o desapego, onde o real sentido da nossa pequenez no tempo fazem sentido. Uma paz que está lá, desde sempre, à espera de ser desvendada. Tudo é tão igual!
Até a dor dói pelos mesmos motivos: a doença enfraquece o corpo e quebra a alegria e a vitalidade, a traição deixa um coração destroçado, a morte deixa um vazio que se alarga, mais e mais, enquanto o tempo passa. As lágrimas são molhadas, em todos os olhos; as emoções de raiva, medo, frustração são clones de estados de espírito iguais no essencial, embora diferentes nos pormenores.
Se tudo é tão igual, a solução serve a todos. Se o que alegra o meu coração alegra a maioria dos corações, então o que me traz paz e harmonia também deve trazer paz e harmonia aos outros corações. Ser feliz é escolher viver os bons e os maus momentos, como se fossem iguais. É não levar nada demasiado a sério, porque tudo acaba: a alegria e a dor.
É perceber que cada momento, seja ele de Inverno ou de Primavera não acontece por acaso, mas é uma oportunidade para descobertas e mudanças. É, também, entender que aguentamos tudo mesmo o que pensamos não aguentar. O momento presente traz sempre consigo a dose de força que necessitamos, por isso se não quisermos viver 20 dias, em 2 minutos, se aceitarmos o pingar lento dos segundos, como a única realidade que possuímos, encontraremos sempre a força que necessitamos para vencer os obstáculos desse dia e dessa hora. Amanhã nem sequer existe, como o Inverno do próximo ano não existe. Quem me garante, além disso, que o meu futuro não termina agora, aqui, neste preciso momento que é o meu presente?

Capítulo 68

O Cansaço

Olho o meu rosto, marcado por todas as histórias do tempo.
Conto linhas, como legendas
em código, dos anos que já vivi.

Estranho como o corpo voa,
mais rápido que o pensamento.
Como se cobre de tempo,
como põe neve nos cabelos
e sulcos finos ou cavados
nas praias do meu olhar.

Sim, está cansado, o corpo.
Vai lutando, corajoso,
Contra guerras e perdas,
Desilusões e saudades.

Estranho como a alma se renova,
Se enche de imortalidade
Enquanto o corpo, esquecido,
Vai descendo, cabisbaixo,
Os degraus da sepultura.

Há em mim dois rios fundos,
Um que corre para o mar,
Outro que corre ao contrário
Para a nascente alcançar.

No rio do corpo,
Nadam mortas as quimeras,
Bóiam desfeitos os sonhos,
As certezas, as ilusões.
No outro, no rio fundo da alma,
Somam-se pequenas vitórias,
Desvendam-se mil segredos,
Aprende-se a nada querer.

Sim, o cansaço abraça-me.
Não me espanto. Não me assusto.
Está cá, sereno, à espera,
De ver partir o que eu sou
Para fora do casulo,
Para dentro da eternidade.

Março 2001

Capítulo 69

Começo a acreditar que tudo é possível a quem não acredita em impossíveis.

Capítulo 70

Ser feliz não depende das circunstâncias. Depende da atitude que tomamos face às circunstâncias…

Capítulo 71

Engraçada esta certeza (provada, porque a vivi) que a única forma de não me afogar nos meus problemas, no meu cansaço, na minha dor, é esquecê-los no exacto momento em que penso nos problemas dos outros, no seu cansaço e na sua dor. Não conheço outro antídoto mais eficaz para minorar os sofrimentos do que este: colocá-los em segundo plano, distanciar-me deles, para estar disponível para servir quem precisa.
Acho que metade das soluções por encontrar estão aqui, neste segredo que se alimenta do amor incondicional e desinteressado que damos, só por dar, sem esperar ganho ou recompensa. É o que damos que nos enche, não o que procuramos amealhar duma forma egocêntrica e egoísta – nem que sejam as soluções dos nossos próprios problemas.

Capítulo 72

Descobri, na pele da alma, ou seja, bem fundo nos meus sentimentos, como custa fazermos o melhor que sabemos, darmos o que temos, conseguirmos com esse dar melhorar algo ou alguém e, depois, por esse mesmo motivo sermos rejeitados por terceiros como “intrusos” num esquema onde não temos lugar por direito.
É estranho o ser humano. Prende-se a miudezas, como o orgulho ferido a falsa capa dum código de valores pessoais e, a troca de nada, rejeita seres humanos validos e úteis, só porque estes lhe fazem sombra. Não queria tornar esta sensação pessoal. Não é o que eu sinto que conta, mas o que há de global no sentimento da injusta rejeição que me fez parar e pensar. Se alguém faz algo melhor do que eu, porque não lhe dou esse crédito? Se alguém tem ideias melhores do que as minhas, porque não as partilho e aprendo com elas em vez de as menosprezar e continuar ignorante? Porque temos a mania de ter um lugar só nosso, um posto que nos pertence, uma caverna pequena e fechada que não tem espaço para incluir valores novos e ideias diferentes, se estas, em termos práticos, são eficientes?
Falo, ainda por cima, de relações humanas, de pessoas, de almas a quem se educa.
Como é possível, em tantos espaços de formação moral, haver círculos fechados, mentalidades pequenas e viradas para o seu próprio mundo, quando só a união de esforços, metas e corações leva à evolução do ser humano?
Esta lição está a ser muito dura. Estou a aprender a engolir, com a dignidade possível, a rejeição de quem não aceita tudo o que tenho para dar. Como lidar com esta lição? Aprendendo a não fazer guerras, a não julgar, a não deixar que uma situação negativa atraia a minha negatividade. O que fazemos de bem tem um mérito por si mesmo. É isento de condições. Mesmo incompreendido brilha na consequência que gerou ou no amor que semeou. O bem faz-se, não para ter aplausos, mas para reparar um mal existente ou preencher uma lacuna que permanecia em aberto.
Se a rejeição é a resposta ao amor, teremos de aprender a valorizar o amor e não a rejeição. Aprender, também, a não fazer aos outros o que não gostávamos que nos fosse feito.
No mundo dos homens não triunfa sempre a justiça, não são facilmente reconhecidos os verdadeiros talentos, não são acarinhados com isenção os esforços mais nobres. O ser humano está em evolução e nesse processo uma das mais duras provas é o desapego. Saber deixar partir o que não pode ser nosso, dar o lugar a quem o desempenha melhor, partilhar os nossos dons e não guardá-los como um tesouro enterrado.
A evolução passa pelo não julgamento, a não apropriação e a justiça. Evoluir é aprender a amar, sem razões e sem prémios. Espero que esta mágoa estranha, esta sensação de dor que me perturba passa depressa. Espero aprender a lição que esta dor veio ensinar e espero ter a sabedoria e a atenção necessárias para nunca rejeitar, por orgulho, inveja ou ignorância quem, no meu lugar, faria melhor do que eu.

Capítulo 73
São tão curtos os verões e tão longos os Invernos. Chuva, uma morrinha constante, o ar empapado de névoas e humidade. Frio, vento, nuvens negras, cerradas, tapando o céu.
É como a vida. Entre o sol curto e fugaz da alegria – o nosso verão – passam-se longos dias de escuridão, de céu coberto, de solidão, frio e Inverno. Para lá das nuvens, porém, o sol brilha sem queixa. Nada perturba a permanência do sol, mesmo o facto de não o vermos, não significa que não seja omnipresente, quente e imenso.
Tal como a esperança e a alegria. Vem coberta por todas as agruras que cobrem a nossa missão de viver. Mas a dor é passageira. A alegria é eterna. Só isso conta.

Capítulo 74

Nem sempre os que estão mais próximos de nós fisicamente estão próximos interiormente. Viver ao lado de alguém pode ser uma solidão imensa, como um iceberg no mar.
Partilhar o nosso mundo interior é só para aqueles que conseguem sintonizar as suas emoções e pensamentos com os nossos. Só damos a alma a quem a segura e embala. É pena que nem sempre a possamos dar a quem queremos. Mas se calhar não se escolhe amar um espírito, mesmo que o corpo que o reveste nos seja inacessível. Entenda-se: partilhar o nosso corpo, reagir ao toque, ao som, ao sabor, ao calor dum abraço, à força dum beijo, é fácil.
Porém beijar outra alma, abraça-la sem a tocar, dar-lhe a nosso mundo e mergulhar no seu, é para energias compatíveis, está para lá de tudo o que é físico e imediato. É assim que amo quem parece estar distante de mim, tão perto e tão longe. Assim, com o pensamento, com o olhar, com a certeza da confiança, da amizade, dos silêncios partilhados. E está bem assim…

Capítulo 75

É pura perda de tempo tentar ensinar a amar. O amor aprende-se, sem ser ensinado. É, igualmente, inútil projectar a nossa imagem de Deus a quem não acredita Nele. Deus descobre-se, não se transmite.
Deus o transcendente, o início e o fim, o Deus que ultrapassa a dualidade e o dogma e é uno, imenso, indefinível. Deus descobre-se aos poucos, até se descobrir por inteiro. É inevitável chegar lá, mas o caminho é pessoal, longo e solitário. É, acima de tudo, necessário desejar conhecê-lo. Sem a procura, sem a noite da fé, sem a dúvida, não se alcança o ponto de partida.
A escalada espiritual é lenta e progressiva. Escalar uma montanha não se faz de ânimo leve. É preciso treino, preparação e coragem.
Só os loucos ou os temerários se aventuram a subir à mais alta das montanhas sem se prepararem. E quando a subida começa, à medida que a alma se aproxima do topo, a dificuldade aumenta. A solidão é opressiva. Total. Inultrapassável. Solidão. Silêncio. Nada. A alma fica entre o firmamento e a terra, num vazio cheio, num espanto imenso. Já perto do topo o despojamento é total. Nada mais importa, não há mais medo, perda, questão ou dúvida. Só o desejo de chegar, de atingir o cume e repousar no encontro.
Chegar ao cimo é atingir a compreensão total de quem somos, é perceber, finalmente, o pedaço de Deus que nos foi legado, fundi-lo no todo de que sempre fomos parte aceite. Mas como se pode ensinar o que só é experimentado de uma forma pessoal, única e intransmissível?

Capítulo 76

Há sempre um degrau inesperado na nossa escalada interior, um novo anseio, uma nova paixão inesperada, um desequilíbrio que surge rápido, certeiro, como um raio. E as certezas da nossa força interior são testadas uma e outra vez. São testados os limites da nossa consciência. Ficamos parados na subida com um pé a querer ir em frente e o outro a querer recuar. É uma mistura insuportável de emoções contraditórias a lutarem no nosso corpo e a desassossegarem a alma. São os momentos de provação. São o teste, a tentação, a humilhação de quem exige ser diferente.
A liberdade interior é uma aquisição caríssima que hipoteca toda a nossa força de vontade. Ser livre é aprender a prescindir de gratificação, é disciplinar a mente a culpa e o coração. É uma ferida latente, sempre pronta a abrir e a sarar, enquanto o caminho se for fazendo. Enquanto a vontade de crescer for mais forte que todo o prazer menor. E só assim se vence: com dor e sangue; mudando os desejos que nos inundam como marés insanas. No meio da batalha da vida, conquistar a paz, praticar o desapego, conseguir, dia a dia, manter a fidelidade ao juramento de sermos autênticos é a única forma de alguém ser um vencedor. Por um dia, por uma hora, por um minuto. Um de cada vez, como as lágrimas que não choram se limpam, uma a uma, sem que o carreiro que formam no coração se possa apagar. Linhas, como cicatrizes, bordando a paisagem do que somos e do que queremos ser.

Capítulo 77

Eis um pensamento que me descobriu nas páginas de um livro e faz um sentido imenso. Palavras sincronicamente coladas na página do meu destino, certamente para terem uma consequência. Refiro-me às seguintes palavras da Drª Kubler Ross que traduzi assim:
“Não podemos fazer qualquer tipo de bem a alguém se, para isso, tivermos de prejudicar uma outra pessoa”. Conquistar o bem exige não ceder ao mal.


Capítulo 78
Se uma vocação nos chama, se é uma vocação de serviço, de entrega aos outros, se nos rouba tempo, família e interesses pessoais, então preparemos a alma para um grande deserto: o da incompreensão, o da crítica velada ou aberta, o do cinismo, o da perda. Não parece haver retorno algum do que damos porque nos salta do peito, das mãos, do coração. Damos porque está lá entalada e tem de sair ou sufoca-nos a alma. O preço é terrível, terrível… mas eu acredito que as sementeiras dão sempre frutos, no final do Verão. Se a semente for boa, mesmo que alguma se perca, como poderá a colheita ser má?

Capítulo 79

Porque não consigo aprender a domar o tubarão que nada no meu peito? Porque o deixo morder, verter o sangue da ira e destroçar a paciência e paz? Porque ferve o mar dos meus sentimentos, como se um vulcão demente me corroesse as entranhas? Porque solto sempre estes vendavais irados, estas ondas impetuosas e tontas, que se desfazem com violência inútil contra os rochedos da vida?
Se eu não aprender a lição do auto-controle, sei que terei de prestar sempre provas e mais provas, até a conseguir aprender. Porque é tão difícil fazer o que sei que é certo? Porque é que na hora do teste falho outra e outra vez?
Como seria bom que o golfinho que nada do outro lado do meu peito fosse mais forte do que o tubarão. O golfinho acolhe, sorri sempre, mesmo na agonia e na dor. Não agride, não desespera, não mata.
Há um tubarão e um golfinho a nadarem no meu mar. Em direcções opostas, mas dentro do mesmo mar. Haverá espaço para os dois, ou um deles terá de morrer para o outro sobreviver?

Capítulo 80
Às vezes pergunto-me para onde foi a ânsia da minha juventude, aquele desejo desenfreado da aventura, de conhecer pessoas, de viver a noite e mergulhar na alucinação da música, barulho e gente.
Não fiz nada, conscientemente, para mudar. Nem sei exactamente quando começou a mudança. Sei apenas que tive de abraçar o sofrimento – ou melhor, ser abraçada por ele – para que as prioridades da minha vida dessem uma enorme cambalhota cósmica e me lançassem para outra dimensão da realidade. Hoje não anseio por nada. Não valorizo o barulho, a confusão e a aventura. Não sinto necessidade de conhecer muita gente, mas sim de conhecer pessoas que me ensinem algo. Não acho irresistivelmente atractiva a paixão, que hoje considero uma simples interrupção no rio da paz. É um teste dos mais difíceis de superar, o da paixão…
Penso que estou no meio da ponte do conhecimento e o caminho que escolhi me leva para a compreensão inequívoca que a minha melhor companhia, sou eu própria. É dentro de mim que existe um universo a explorar, é a minha energia por descobrir que me fascina, é o poder da minha alma, que anseio encontrar, que me cativa e prende.
Não há lugar para a procura do prazer, mas sim da alegria. Não me quero prender a nada, a ninguém, ao tempo, à vida ou à morte. Sinto o imenso desejo de me deixar boiar, de braços abertos, na imensidão do meu mar interior, onde, finalmente, sei que Deus habita. Sem resistir, sem duvidar, sem que me perturbe a dádiva ou a perda.
Não renuncio ao amor. Sei apenas que para o conquistar no que tem de mais profundo, de mais perfeito, de mais arrebatador, terei de entender quem sou. Depois viverei para me partilhar porque ninguém consegue viver com a fonte do amor a arder no peito, sem incendiar tudo ao seu redor. Sei isso agora, mas também sei que amanhã é outro dia e posso voltar a dar uma cambalhota cósmica…
Capítulo 81

É estranho como podemos viver, lado a lado, com quem não nos conhece. Podem existir abismos de palavras por dizer, de pensamentos, sensações e descobertas por partilhar. Mas nada acontece por acaso. Os encontros e os desencontros são apenas lições. Não cruzamos os caminhos de ninguém sem deixar pegadas na sua praia. Não podemos ficar com a nossa praia nua, se outras vidas a cruzarem.
Todos temos almas gémeas, mas elas podem viver longe ou não chegarem a cruzar o nosso caminho duma forma directa. Hoje, que posso direccionar a minha energia – a positiva e a negativa – sei que acabo sempre por atrair quem quero atrair, que cruzo o caminho de quem devo cruzar. É doloroso entender que alguém que já nos pareceu uma alma gémea, não passe dum degrau, dum pássaro que voou em nós e partiu. Fica sempre alguém para trás, porque nem todos caminhamos ao mesmo ritmo. Não nos deve causar tristeza, apenas compreensão e humildade. Ninguém é de ninguém. Nascemos e morremos totalmente sozinhos, mas crescemos em relação directa com os que fazem parte da nossa história.
Já nada me espanta ou sobressalta; nem as minhas iras nem as minhas atracções. No fundo sei que reajo ou simplesmente estou a inter-agir com outras energias que me atraem ou a quem atraio. Somos apenas isso, campos de energia em comunicação. Partilhar a nosso corpo é fácil, porém, partilhar a alma é algo que só almas compatíveis conseguem fazer, muito de vez em quando

Tuesday, October 23, 2007

«Estados de Alma»

Ganhei coragem...e vou publicar, aqui, um diário de alma que comecei a escrever há muito tempo. É uma obra incompleta...em construção permanente, como são todos os diários. Reli-o. Na essência continuo a acreditar em quase tudo o que escrevi, apesar de,hoje, manter uma abertura e humildade maiores perante as surpresas da vida. E elas surgem, sobretudo quando ao escalar a montanha da vida temos a ilusão, numa curva da escalada, que estamos a chegar ao cume...

Deixo aqui, com a alma nua, os primeiros 50 capítulos...

ESTADOS DE ALMA

Capítulo 1

Há coisas que se escrevem para serem lidas – outras não. Outras são pedaços de alma, sensações íntimas, coisas nossas.
Um diário da alma é uma coisa séria. Ridiculamente séria, porque espelha o que não ousamos confessar em voz alta.
É isso que eu quero. Falar-me. Dizer-me. Escutar-me. Não espero que me entendam. Prescindo do prazer narcísico de me dar, ao deixar que me leiam. Desta vez falo para mim, de mim, das minhas dúvidas, das minhas vontades, do que sinto e me pincela a vida. Vou deixar-me partir, aos bocadinhos. Vou admitir fraquezas, aos bocadinhos. Vou confessar pecados, aos bocadinhos. Hoje eu sei que pecar é um acto íntimo, é um viver, por dentro, o que posso ou não fazer, por fora.
Os meus conflitos são lutas eternas. Sei o que quero, mas não quero prescindir do que prescindo. Faço o que devo, mas não o que desejo. Sei o que é certo, mas não estou certa que o “certo” me cubra a alma e a tape. Às vezes parece que o “errado” me serve melhor, como um sapato de «Cinderela» que se ajusta à medida do meu pé. É tolice, eu sei, mas é assim.
Uma coisa boa nisto de falar assim, aos arranques, é que não há ninguém que nos julgue. Podemos ser o que somos, deixar a alma nua, sem defesas, desfiar o rosário confuso das nossas contrariedades, como quem se confessa só a Deus.
Afinal eu acredito que Deus está em nós, ou melhor, somos pedaços de Deus à descoberta. Não quer dizer que todos o saibam. Nada disso. Eu acho que noventa por cento das pessoas não sabe que são células de Deus. Mas não importa saber. Saber ou não saber, quero dizer. Importa apenas ser e isso é inevitável, quer o queiramos quer não.
Deus, para mim, funciona como o meu estímulo máximo à coerência. Quero ser tudo o que posso ser. Quero entender porque vivo e viver com um sentido. Quero ter o direito de errar e o privilégio de aprender. Quero soltar este cansaço de uma mente que não pára e de um coração absurdamente grande, como um salão de baile, onde cabe gente demais.
Depois, acima de tudo, quero amar sem me prender. Tenho medo de me deixar prender. Tenho medo de depender do afecto ou da presença de alguém, que terei de perder um dia. Afinal, todos perdemos todos os alguéns. É por isso que estudo com cuidado todos aqueles que encontro nas curvas do caminho. Há tanta gente que me cativa, tanta que quero cativar… onde está a linha que separa o que posso e o que não posso?
Como sei o que devo aos outros, o que devo a mim e o que devo a Deus?


Capítulo 2

Não me apetecia escrever por capítulos. Parece-me que esta organização não me deixa ser tão livre nem tão espontânea, como gostaria de ser. Mas como somos o que fazem de nós, já não sei ser inocentemente desorganizada. Preciso, para me guiar, de regras ferozes, de capítulos, de normas, de pontos finais e de vírgulas. Preciso de fronteiras e de semáforos. Luz verde, luz vermelha e luz amarela. Misturo o verde com o amarelo e tudo fica mais claro. Misturo o vermelho com o amarelo e tudo fica laranja. Lembra-me o pôr-do-sol, quando chega o fim do dia e o mar banha o astro-rei numa estranha mistura de opostos.
É assim que eu me sinto, quando piso o amarelo e o vermelho ao mesmo tempo: fico em estado de pôr-do-sol, bela, imensa e contraditória, mas a morrer.
Tudo o que é belo morre ao fim da tarde. A vida, também morre ao fim da tarde. A velhice é o fim da tarde, da juventude. É assim e pronto.
Um dia aprenderei a não ter medo de morrer, entenda-se, de perder a beleza, porque algo me diz, muito fundo, que ser belo é algo imortal e, como tal, invisível.
Parece um contra senso, a beleza ser invisível, mas é exactamente assim. O que eu acho belo em alguém, pode não ser belo para outra pessoa qualquer, logo a beleza é subjectiva, logo a subjectividade é interior, logo não se vê, logo, mesmo que morra ao fim da tarde não faz mal, porque morrer é apenas uma ilusão.
Mas eu estava a falar de regras. Das que tenho e das que me obrigo a suportar.
Às vezes eu gostava de poder ser “imune a regras”. Experimentar tudo o que não experimento, por dever, por preconceito ou por estupidez. Gostava de dizer a quem me atrai “Apetece-me estar aqui, perto de ti. Apetece-me esquecer as horas, apagar o mundo e inventar uma estrela, contigo”. Não o faço nunca. Habituei-me a embrulhar os meus sentimentos, mesmo os mais platónicos e inocentes, em coletes de força que os prendem vendados, na cave do meu coração. Não é decente amar assim a despropósito. Não é normal esquecer o tempo – que ninguém tem – e sentar-se ao lado de alguém que sintoniza a sua energia com a nossa e inventar estrelas. Se calhar é por isso que, quando à noite me lembro de olhar para o céu, só veja, de quando em quando, uma estrela cadente. Nunca vi uma estrela a nascer, mas tenho a esperança secreta de um dia ser tão isenta de regras postiças, que o meu sonho projecte uma estrela no céu.
Não peço muito: uma só estrela e sei que teria sido feliz e teria feito feliz alguém – uma só estrela para ocupar o lugar da estrela cadente que morreu bela e sozinha, no final da sua tarde. Todos nós morremos assim, belos e sozinhos, porque não se pode morrer de outra maneira antes de nascer outra vez.

Capítulo 3

Depois dos aplausos, o que resta a um actor?
O silêncio, em duplicado, e o vazio inatingível da solidão. Todos nós somos actores. Eu sou actriz: desempenho o meu papel, procuro que no drama ou na comédia brilhe o melhor que há em mim, por vezes recebo aplausos, outras, continuo simplesmente a representar, porque há cenas que são infindáveis e nunca serão aplaudidas. Quando me recolho na casca, fico sempre com uma sensação estranha, porque à minha volta – no meu louco coração – há sempre espaço demais. Fico com a sensação que me sobra espaço que acabará por apodrecer, como a fruta madura na árvore. Mas é só mesmo uma sensação, porque o que o coração sente não pode degradar-se. Pode ser mal usado, pode ser amordaçado, pode ser desencaminhado, mas um coração será sempre o ninho da alma, o centro do nosso ser e, como tal, o que lá guardamos é indestrutível.
Mas porque falo da solidão de quem ama? É que amar, dar-se, é um acto solitário, que nos vicia e nos obriga a escolher. Entre tu e eu, eu não me escolho. Escolho-te a ti, porque és tu que me fazes agir, rir ou chorar.
Eu só existo em relação aos outros, mas serei sempre eu, sozinha, a escolher o quanto quero dar da minha força vital.
Tenho um truque que descobri, há pouco tempo e pratico, conscientemente. Fecho os olhos, viro as palmas da mão uma para a outra, a uma certa distância, depois deixo fluir a minha energia vital até sentir que entre as mãos se cria uma força, um fluxo de energia que me faz sentir um formigueiro crescente nos dedos. Depois imagino que essa energia se enrola até formar uma bola poderosíssima feita de luz. Nesse momento penso em alguém que gostaria de ter perto de mim, alguém que gostaria de curar, de ajudar ou simplesmente de ver. Então lanço a bola de energia para o espaço e sei, sem qualquer dúvida, que o meu Eu irá atingir aquele ou aquela em que pensei.
Nós não somos seres carnais a aprenderem a ser espirituais. Nós somos espírito – energia – temporariamente vestidos de carne. O que me constitui, o que sou, não tem barreiras. A força do que sinto, do que penso e quero, depois de nascer é imparável.
É um poder imenso este de saber que podemos tudo o que sonhamos. Posso fazer-me amar ou odiar, simplesmente querendo. Eu, sozinha, se o desejar, poderei penetrar as camadas do esquecimento e recordar que sempre fui alma, milhares de vezes, eternamente alma e que a força do universo me habita.
É por isso que não me assusta a solidão. É ela que me alimenta, me injecta a força que depois partilho com quem me cerca. Eu amo as pessoas, mas só as amo porque amo ainda mais a minha solidão. Não posso dar o que não tenho, por isso amealho, entendo, desvendo, aprendo e uso.
Amar é usar a força da vida para representar, com vontade, a peça que nos foi destinada. Os aplausos, esses, só poderão ser um estímulo para querer, ainda mais, a liberdade da solidão.

Capítulo 4

É muito fácil confundir sentimentos quando nos misturamos, gulosamente, com os outros. Hoje o que me fascina já não são mais os corpos, mas “aquilo” que os habita. Fascina-me a mente, a alma, o pensamento. Dá-me um prazer mais forte do que todo o erotismo, desvendar o olhar de alguém, mergulhar no ser, no sentir, no viver de quem me deixa espreitar o seu olhar.
Há quem não consiga fixar um olhar de frente, porque há olhos que falam mais do que todas as palavras, por isso é natural que nem todos se sintam à vontade ao resvalar no olhar de alguém. No olhar eu posso ler o código do coração e é precisamente a conquista desse coração que me fascina. O corpo é um pormenor que às vezes só atrapalha. Tocar, fisicamente, é restringir a liberdade ilimitada do sonho, porque quando possuo um corpo, deixo de possuir a alma. Passo a pensar que a alma também é minha, por direito, mas a alma só se tem, não a tendo.
É muito difícil ignorar a atracção que alguém me desperta. É raro mas acontece, porque não mandamos nos nossos sentimentos. Posso – e sinto – muitas vezes o desejo de tocar um corpo e um coração mas sei que se tocar o corpo quebrarei a magia que alimenta a energia do coração. Opto sempre por este último em desfavor do primeiro. É só a alma que me perturba, é só ela que eu quero envolver, beijar, possuir, por isso desenho um círculo à minha volta e resisto, ferozmente, à linguagem fácil é óbvia do corpo. Não a subestimo. Sei o poder que tem o meu corpo e sei o poder que dois corpos unidos podem ter. Mas eu quero tanto, tanto, que só prescindindo das distracções consigo alcançar o prazer supremo: a certeza de comunicar a um nível divino, fora do tempo e do espaço, onde só o espírito fala e consegue entender o que é importante entender.

Capítulo 5

É possível amar sem pôr condições? Amar sem preocupações de receber, amar sem exigir, amar porque não se sabe e não se quer outra coisa senão amar assim?
Quando dou o coração, detesto que mo devolvam. Detesto ser traída e que me decepcionem. Detesto que não dêem valor ao que dou e faço e esse detestar é uma prova envergonhada de que eu ainda não sei amar sem condições.
Por vezes sou capaz de o fazer, num acto impulsivo de generosidade, que explode em mim, como a rolha numa garrafa de espumante. São momentos intensos, em que me esqueço de mim e só penso numa dor ou num cansaço que não são meus. Momentos em que não espero nem quero recompensas, porque a melhor recompensa é sentir que quem estava mal ficou menos mal, só porque eu existo.
Mas no dia a dia não é assim. É muito difícil amar quem temos sempre a nossa lado. É difícil amar na rotina, na impaciência, nos pormenores. O fascínio do novo não existe em quem temos ao nosso lado. Existem outras coisas melhores, mas a rotina revela os nossos sentimentos reais e o nosso próprio ser: sem grandes encantos e com muitos defeitos.
Porque será mais fácil vermos os defeitos do que as qualidades dos que convivem connosco, alma com alma?
Mas eu estava a falar de trair. Não no sentido conjugal – lá chegaremos – mas no sentido humano. Chamar a alguém “amigo” é receber o reflexo invertido dessa amizade, e ser traído por um amigo é uma das provas mais duras a que a vida nos sujeita.
Ser traído deixa-nos vazios, escorraçados, com o coração sem sangue, sem vida, sem nada. É por isso que eu sei que não sei amar sem condições, pois ainda me dói a traição, ainda afecta o meu sentir. Não sou imune à desilusão. Não continuo a amar da mesma forma, quem me amou menos do que esperava. Se calhar a vida serve para isso: para aprendermos que o verdadeiro amor não se altera, quer seja aplaudido quer seja destruído. O verdadeiro amor «é». Nada mais.




Capítulo 6

“Tudo é amor… Tudo é amor. Com o amor vem a compreensão. Com a compreensão, vem a paciência. E então o tempo pára. E tudo é agora”. Brian Weiss
Quando estas palavras tocaram piano, dentro de mim, a dúvida desvaneceu-se: Vive-se apenas, para aprender a amar.
Nem tudo o que os outros dizem ou escrevem me interessa, mas há palavras, como estas, que me recordam algo de primordial. Algo que soube, desde sempre, mas esqueci. Algo que tem significado para a minha vida e, como tal, me toca na ponta mais recôndita de mim mesma.
Para “aprender”, ou “reaprender”, não sei bem, mas sei isto: viver é um treino, um treino de esgrima de paciência, um soltar as velas à liberdade e um recolher das emoções negativas. A mim falta-me a paciência e, sem paciência, o amor surge aos soluços, sem sequência e sem compreensão. Eu sei que o amor é permanente – por isso o quero adoptar – e a raiva e a revolta são transitórias. Preciso apenas de o gravar, na minha rotina, para não resvalar constantemente nas mesmas imperfeições e cair na armadilha da incompreensão.
Compreender é voar acima de ofensas e não deixar que estas pousem na nossa paz. Compreender é aceitar o erro, sem o condenar. Até o nosso erro. Principalmente o nosso erro. Hoje eu já não me desespero tanto, quando tropeço no erro. Há emoções que eu não controlo, há sentires que me possuem a contra gosto, há raivas que me atraiçoam, à socapa.
A paciência também implica compreensão, com as nossas falhas, até que a alma aprenda a não precisar delas.
Compreender. Esperar. Aceitar. Amar.
E a roda da vida está completa e “tudo é agora”.


Capítulo 7

Se tudo é agora, porque tem o passado um peso tão absurdo na nossa existência? Porque lamentamos o que já foi? Porque temos saudade do que já não vive no nosso presente?
Recordar é viver, dizem alguns. Pode ser, mas recordar só cheira a rosas, se esquecermos os espinhos.
Se o recordar avivar a dor, se a espicaçar, então é espinho. Se, pelo contrário, nos ensinar a lembrar com alegria, mas sem apego, é rosa. Mas as rosas são rosas, porque são flor e espinho. E a vida?
A vida é um novelo que se vai desenrolando. O passado é a linha que conduz ao presente e o presente é a linha que conduz ao futuro. Mas, só existe presente…
Se este momento em que penso e sinto for posta fora, vivi um momento a menos. Aqui, agora, já, é tudo o que tenho, logo amar é sempre uma acção presente e eu estou sempre a esquecê-lo.
Não se deve adiar o amor. Pode ser tarde demais. Não se deve amar no passado. Pode perder-se o presente. Amo no tempo, sem tempo, que é o segredo em que respiro e tenho consciência que o estou a fazer. O presente é essa consciência clara de que penso, sinto e sou no instante em que estou a pensar a sentir ou a ser.
É por isso que o passado me ampara, mas não me prende, e o futuro me atrai, mas não me convence. O tempo é o que queremos fazer dele e só temos o presente para construir a vida.
Quando eu souber praticar o que sei, mas não pratico como quero, terei alcançado a compreensão e começado a viver realmente.


Capítulo 8

Às vezes é cansativo viver. É quase hilariante olhar a minha vida, ver-me imersa em guerrilhas alheias que tento conciliar, em desesperos alheios que tento acalmar; em sofrimentos que me cercam e que alcança só à superfície, por muito que os tente alcançar, no seu fundo. A paz é um objectivo sempre adiado. Procuro-a desesperadamente, mas, depois de uns instantes de tréguas, resvala em mim a vida real espicaçando a minha paz e expulsando-a, à força.
À minha volta, vou procurando que reine a harmonia. Às vezes chego a engolir a raiva, como fel amargo que me deixa em carne viva, só para que a paz se mantenha, à superfície da existência.
Escuto, estendo a mão, digo palavras, dou conselhos. E sabes que mais alma minha? Carrego a cruz de ser considerada uma pessoa forte, segura, sem direito a fraquezas. Como se enganam os que vêm o que me cobre, mas não medem a profundidade do meu sentir.
Se eles soubessem a fragilidade que me veste, as lutas interiores que tenho de travar, as tentações que me atacam…
Quero ter o direito de ser eu; de admitir que choro, que erro, que sinto raiva, que me dói a indiferença, a injustiça e a ingratidão. Quero ter o direito de dizer quem sou, tal como sou.
Sem o direito à fraqueza, nenhum ser humano pode aspirar ao ideal da fortaleza e da humildade.

Capítulo 9

Se não fossem estes instantes de solidão que roubo ao tempo, o meu equilíbrio jamais recuperaria a energia vital que o sustenta. Adoro este silêncio da noite, quando tudo dorme à minha volta e o som inaudível da paz me aconchega a alma.
A solidão e o silêncio escolhidos, são tesouros sem preço. Quando tudo se cala, começa o meu coração a falar, a confessar mágoas, a aceitar desafios, a percorrer a via-sacra dos meus sentimentos e a ordená-los, um a um. Percebo, então, que só posso ter força se a for buscar a algum lugar, sem esforço e sem tempo. E o silêncio tem outra coisa, permite-me namorar comigo mesma. Eu sei que quando faço as pazes comigo, encontro força para as fazer com os outros.
Respiro fundo. Expiro lentamente. Paro. Escrevo. Fecho os olhos.
Já está: o vazio afastou a confusão e preparou-me para ir acumular energia positiva. Rezar serve para isso mesmo, para acumular a energia anímica no exercício de viver.


Capítulo 10


Que gloriosa revelação essa de saber quem somos. Tenho a sensação que mais de metade da população mundial nasce, vive e morre sem ter percebido quem é, ou melhor, que “é”. Nós somos. Eu sou e, saber que sou, admitir com a consciência esse facto, é um gigantesco passo na arte de viver.
Se sou, passo a ter muito mais vontade para o ser “bem”, para não ser qualquer coisa ao acaso, começo a perceber a dimensão infinita do meu ser, começo a colocar questões, a admitir o gigantesco ponto de interrogação que é o meu início e o que está para além do fim do meu corpo.
Este ser que eu sou é imortal? Eu acredito que sim. Acho que me conheço desde sempre, sinto que sou uma molécula de Deus, um ponto de energia em expansão, como os universos e as estrelas. O que sou é o que espelha a minha alma e me permite senti-la vibrante e imensa dentro de mim. Eu sou alma revestida de um corpo. Sou um corpo que cobre a alma e lhe permite sentir, tocar, rir e chorar.
Acho que sempre fui e sempre serei. Repetidamente. Se tenho medo? Para quê, se o circulo mágico da vida não se altera um segundo com o meu temor?
Não. Não tenho medo. Curiosidade sim. Uma fome insaciável de ir ao encontro das certezas que ainda não tenho. Uma vontade crescente, como o fermento na massa, de expandir até ao limite o conhecimento que tenho de mim e dos outros. Também tenho saudades de Deus, de onde parti em forma de energia, para regressar transformada pela experiência.
No fundo só vivemos para perceber quem somos e que a raiz desse ser só atingirá a sua realização se a entender. Aliás, para que serve existir se não chegamos a reconhecer quem somos?

Capítulo 11

É estranho como já consigo entender as emoções de uma forma radicalmente diferente do que fazia há uns anos. Hoje já não deixo que as emoções e as paixões me controlem e orientem. Hoje sou eu que as observo, como se não fossem minhas e lhes nego o poder de me indicarem um caminho. Não todas, mas uma boa parte. E com esforço. Sempre com esforço.
Já não sofro tanto por não ter o que quero. Já não me angustio na esperança vã de chamar “meu” ou “minha” àquele ou àquela que amo e não tenho. Prescindo do direito de possuir. Não quero que o fluir da minha missão encalhe num amor impossível ou numa perda irrecuperável.
Já não posso ser domada pela beleza nem conquistada pelos instintos. Hoje quero misturar a minha essência com outras essências, quero emprestar a alma e pedir emprestadas as almas que me cativam, mas não quero possuir nenhuma nem deixar que me possuam. Percebi que dizer algo como “não posso viver sem ti” é um imenso engano. Todos teremos de aprender, mais tarde ou mais cedo, a viver sem aqueles que amamos ou desejamos. Por isso continuo a querer o que nem sempre posso ter, a sentir saudade e a sofrer mas faço-o sem que o meu núcleo interior se deteriore. Se tenho, tenho, se não tiver, não tenho. A vida é muito mais do que os nossos desejos e expectativas. Acho que teremos de aprender, a bem ou a mal, que a felicidade não depende do que possuímos, mas da nossa capacidade de aceitar ter, ou não ter, com a mesma liberdade interior.
Uns chamam-lhe desapego. Outros indiferença. Eu chamo-lhe sabedoria de sobrevivência, mas tudo vai dar ao mesmo.




Capítulo 12

O rancor… bem, o rancor é inútil e doloroso. Dói mais a quem o sente do que a quem o causou, logo é uma dupla “pedrada” contra a mesma pessoa que sofreu um mal, vindo de fora, e responde a este com um mal, vindo de dentro. E mal é mal, seja qual for a justificação que o mundo lhe queira dar.
O rancor torna a alma míope, mesquinha e ressentida. Por isso me questiono. Qual a sua utilidade? Servir o nosso orgulho? Dar força às nossas queixas? Defender-nos do sofrimento? Ao contrário, para o perdão encontro imensa utilidade. Falo de mim, claro, dos outros não posso falar. Para mim, perdoar é uma forma de libertação radical. Expulsa a raiva, dá lugar à paciência e à compreensão, permite reatar laços, ensina-me a lição de humildade e oferece-me a paz.
Cada um escolhe o que quer na vida e responde, inevitavelmente, por cada escolha que faz. Eu sei que escolho a paz, a imperturbável calma do meu lago interior, por muito que as tempestades rebentem contra o meu casco. Sou navio, sim, mas se o mar exterior me afundar, sei – porque o escolho – que o meu navio interior é indestrutível. Lá, o lado do rancor não pode enferrujar os momentos serenos do meu crescimento interior. Sei por onde navego e sou senhora do meu leme!

Capítulo 13

Que luta esta, alma minha! Que esgotante vazio é este desejo de ser livre e nunca o conseguir ser completamente.
Cada acto que conduzo é filtrado por mil precauções impostas: tenho de saber ser amiga, mas com cautela, admitir perto do meu coração afectos diversos, mas não deixar que evoluam para emoções proibidas; tenho de marcar fronteiras, quando interiormente não as tenho; não posso abraçar quem quero, porque a inocência do meu sentir jamais seria entendida; não posso dizer sempre o que penso e sinto, com o risco de ser mal interpretada. E o pior é que cada vez é mais difícil calar o que quero dizer…
Quantos seres humanos terão a coragem de serem integralmente quem são? Porque há tantos tabus e preconceitos? Porque tem de ser “mal” o que não é mal dentro de mim?
Viver é uma grande confusão dualista: ou se ama demais ou de menos, ou se dá demasiado ou de menos. Tudo é demais ou de menos e eu não percebo porque não pode ser tudo equilibradamente central: para mim só é excessivo o que eu sinto que ultrapassa os meus limites. Não o que os outros decidem considerar um limite.
Só eu sei as minhas fronteiras. Só eu sei a verdade dos meus gestos e palavras, por isso abomino a hipocrisia das convenções. Não é por não agir de uma certa forma que uma alma se pode rotular de virtuosa ou pecadora. O pecado pode habitar invisível o coração de quem age virtuosamente. Eu posso sentir um poço de tentações sem actualizar nenhuma. Posso até dissimular os meus mais secretos desejos. Pergunto: só porque não se vêem, só porque não são conhecidos, serão os meus pecados interiores menos pecado?
Quando iremos todos entender a inutilidade de julgar as aparências e compreender que se nem os mais ínfimos pensamentos alheios somos capazes de desvendar, é pateticamente inútil a presunção de os julgar?
O preço da liberdade é a incompreensão. Só não sei se já estou preparada para o pagar…

Capítulo 14

As decepções. Como pesam… Projectos adiados, expectativas que caem, como folhas secas de Outono. Tristes, em câmara lenta, num adeus derradeiro à seiva do sonho.
E depois tudo se repete, maniacamente: novos sonhos, teimosos, insistentes, novas esperas, novas agonias, novas decepções e, de vez em quando, um triunfo entre mil derrotas.
Lutas, mil lutas contra o tempo e os contratempos. Desafios, como facas finas e certeiras, lascando a alma e deixando cicatrizes por cada derrota sofrida.
Mas não será isto viver? Esta tensão viciosa e infindável entre o nascer de um sonho e a sua morte certa? Ou será que viver é teimar em sonhar, mais do que temer a morte do sonho?
A balança dos vencedores, será para mim aquela em que as derrotas pesaram tanto ou mais do que as vitórias, mas não conseguiram, apesar de tudo, estrangular a nascente do sonho. Essa capacidade inata, indestrutível, de olhar cada perda como um contratempo e um estímulo ao recomeço. Sonhar é recomeçar do nada a construir o tudo. É construir um puzzle de mil peças e acreditar que a persistência, a força da alma e a coragem serão a bússola que indica o passo que se segue. Há sempre um passo que se segue. As decepções doem, sim. Doem muito. Mas desistir de sonhar é a decepção suprema, a derrota sem retorno, a única derrota que nunca admitirei assumir. Nunca!


Capítulo 15

Porque me assaltam pensamentos que não foram convidados e me deleito, inutilmente, com desejos que jamais deixarei sobreviver? Olho-me, sem culpa. Para quê a culpa, se o crescimento não se faz sem erros assumidos? Estranhamente não me culpo por sentir estes vendavais loucos, a uivarem na planície da minha alma. Sei que são miragens. Loucas tentações em forma de fantasma, filtrados pela minha consciência subsiste apenas esta curiosidade sem resposta, ao porquê desses assaltos à minha calma coerência. Como posso, de repente, desejar o que condeno? Como posso sentir esta ânsia esta forma insaciável do proibido que não aceitarei viver? Já sei: terei de tratar estes pensamentos loucos que me habitam, como pedaços de nuvens negras a taparem, momentaneamente o meu sol.
Não deixo que me atormentem. Não lhes dou essa confiança. Hoje mordiscam-me a alma. Às vezes arranham-na, eu sei. Mas não a aprisionam, porque não os solto na vida nem os deixo assumirem o comando das minhas acções.
As nuvens podem pairar no céu por muito tempo, mas não são capazes de esconder o sol para sempre…

Capítulo 16

Sou consciência. Cada vez mais consciência. Olho-me, de dentro para fora e meço emoções, assisto a mudanças, deixo que se desenrole o filme da minha existência enquanto vou navegando por entre escombros, perdas e conquistas.
Descobri, entretanto, que a consciência só se tem, quando sabemos que a temos. Quando estou a agir conscientemente, estou a ser senhora da minha direcção. Não são os instintos, o acaso ou a preguiça que me governam.
Sei que crescer interiormente é um acto de consciência… sou eu que, voluntariamente, procuro conhecer, busco a sabedoria, desvendo os mistérios que ninguém me pode desvendar. Aprendo o que não se ensina, porque a sabedoria encontra-se no acto de a buscar, mas só se enraíza naqueles que a querem encontrar.
A consciência de quem sou, do caminho que desejo seguir, das renúncias que escolho fazer, da sede de conhecimento que não deixo apagar, são os passos que me permitem ser senhora do meu destino. Ninguém mos dá, embora os estimulem. Não sou nada sem os outros, mas, e isso é o principal, não sou nada sem a consciência assumida e adulta de mim mesma.

Capítulo 17

Ainda bem que ninguém me pode ler facilmente. No sentido literal e no sentido figurativo. O que escrevo, estes arranques de vivências, são fragmentos meus que só eu tenho de entender. Sou eu que me espelho em mim mesma e vejo, microscopicamente, o tecido de que sou feita. Os outros vêm o que deixo que vejam. Mais nada…
Figurativamente não sou legível porque já me esqueci de ser criança e aprendi a tapar muitas das minhas emoções. Melhor ainda, cada vez mais consigo filtrar o que quero mostrar de mim mesma. Só deixo que me leiam a alma, aqueles que amo muito, ou aqueles por quem sinto uma empatia tão forte que não resisto à provocação de mergulhar nas suas almas.
É claro que é um risco, porque quando mergulho em alguém, a minha alma deixa, por momentos de estar na minha posse. Transfere-se para o corpo de alguém e, como dizem as leis da física, nenhum corpo pode tocar outro sem lá deixar as suas marcas.
As almas são corpos invisíveis, mas nem por isso menos fortes. A energia espiritual é a mais poderosa que existe, por isso ultrapassa em poder e mistério qualquer poder físico, palpável e visível.
E porque digo “ainda bem que nem todos me podem ler a alma?” – Por medo? Por fraqueza?
Não. Por pudor. Há pedaços de mim que são tão íntimos, que revelá-los a despropósito seria apresentar a minha alma nua, ao mundo que me rodeia.
O que somos, de bom e de mau, só é aceite incondicionalmente por aqueles que nos amam. Quem não nos ama não nos sabe interpretar, brinca com o que temos de mais sagrado e considerar aquilo que mais nos apaixona, como mera curiosidade.
Por isso ando a aprender a resguardar a alma. Dou-a, sim, mas não a dou à toa, porque “as pérolas não se dão a porcos” que as despedaçariam. A alma, quero dá-la apenas a quem sabe acolher e beber dela a força, e a energia do infinito que me habita. E, se assim for, então, dá-la-ei sem limites…







Capítulo 18

Ver sofrer quem amo, é a maior tortura que conheço. Não é o meu sofrimento, ou a minha doença, ou os meus temores que me afligem. Esses penso que dominarei sempre, enquanto mantiver a teimosa certeza que nada me pode destruir a alma, enquanto a entregar a Deus.
Já a dor dos que amo, é inatingível. O sofrimento físico e espiritual, as decepções, as traições e as injustiças que esmagam os que mais amo, são colapsos que me reduzem a um grão, mais pequeno que o grão de areia.
Posso rezar, posso chorar, posso enviar todas as minhas “bolas” de energia mental para quem veja triste ou derrotado, mas não posso trocar de lugar com quem sofre, sem sequer sei medir com rigor a profundidade desse lago negro.
Olho essa dor nas manifestações visíveis que a transcrevem, mas esse é o ponto do iceberg, porque a parte que não vejo é infinitamente maior do que a que enxergo.
Ver sofrer é um teste supremo de resistência que põe à prova todos os meus alicerces. E eu sei – porque sei – que se até essa prova de fogo servir para me treinar para o desapego, não será em vão. Nada é em vão. Nada acontece por acaso. Tudo tem um sentido, mesmo que escondido na atroz certeza que já só resta a dor.

Capítulo 19

E por falar em desapego – outra vez em desapego – esta é uma luta que tenho de vencer até ao fim dos meus dias.
Ainda há tantas emoções que me querem agarrar, como algas, no fundo dum rio, tantas vontades que teimo em domar, tantos desejos que bailam, à deriva, ma minha louca loucura. Um apego é uma prisão consentida. Pode até ser uma prisão saborosa ou desejada. Não importa, é prisão e, como tal, o portal da angústia, do desespero, da perda inevitável e da carência da liberdade.
Se não sei viver sem alguém, é porque não aprendi que só amo, quando não prendo nem quero ser presa. Posso desejar, posso sentir paixão, mas todos os desejos e todas as paixões são estados de euforia temporária. Até os desejos insaciáveis morrem. Só não morre a liberdade do amor.
Amar é olhar alguém e deixá-lo partir. Presente ou ausente, nada altera a força desse sentimento. Ama-se de igual modo quem temos ao nosso lado, como quem morre, porque o amor é intemporal, logo não está dependente de presenças ou ausências. Renova-se na dor gratuita, que não espero retornos. O apego não.
O apego exige, desconfia, tortura e desinquieta. Se um dia eu souber viver sem apegos, ganharei as minhas asas. E, então, voarei ao sabor dos sonhos, amarei a todos e não me acorrentarão ansiedades nem perdas, porque já nada mais poderei perder. No fundo, o desapego, é o antídoto que me permite matar a perda, antes que ela me mate a alma.

Capítulo 20

Já terei falado da raiva? Não sei o que já escrevi, porque a escrita só me prende no sentido ascendente. Não releio, não me deleito a espicaçar as feridas que a alma vai curando.
É por isso que me repito. Tudo o que é importante se repete, uma e outra vez.
A raiva perturba-me, porque é instintiva. É o atalho mais curto para se chegar a uma resposta. É pena que a resposta nunca me sacie, mas me esgote até ao limite do infinito.
A raiva pendura-me a alma, com pregadeiras, à corda das emoções. Deixa-me a bailar à deriva, ao vento da dor ou de imprevisto e obriga-me a por correntes à língua e ao pensamento.
Rouba-me a paz, desinquieta e espicaça os meus demónios, faz-me esquecer o amor e o perdão. E é nesse preciso momento que o amor me abandona, que me sinto impotente à força da raiva.
Porém, estranhamente, a raiva passa sempre. É uma emoção transitória, um furacão que se extingue, um uivo que se cala. O amor não. O amor é eterno e imortal, assim, entre os dois, não escolho o que é transitório.
Dobrar a raiva, vencê-la, conseguir elevar-me tão alto que as ofensas não ofendam, que as injustiças não doam, que as traições não ridicularizam a alegria é o objectivo primeiro e último que me proponho. Se atingir o topo deste sonho, terei dobrado as tormentas das emoções e ficarei imune à corrente da dor. Não da dor útil, que me alimenta e me faz crescer, mas à dor inútil e pobre que a raiva finge vestir de vitória.








Capítulo 21

Quantos centímetros de alma crescemos numa vida? Quantas vidas temos de viver até atingir a nossa real estatura?
Não quero respostas. Quero apenas o direito à pergunta. Se a pergunta persistir, com o empenho necessário, a resposta virá sem esforço, como a flor chega depois do botão. É tudo uma questão de paciência e de vontade. Eu sei.

Capítulo 22

Tenho de tentar entender a paixão. Não sei viver sem entender as coisas, os sentimentos, os ventos e as flores.
A paixão ultrapassa-me, engana-me, apanha-me desprevenida, nas esquinas das minhas convicções e apunhala de mansinho, a paz da minha alma.
É uma dor consentida mas desejada. É um desassossego sem tréguas, que me abraça dia e noite, noite e dia.
Como surge, assim de repente? Como pode um simples olhar desplotar uma explosão de energia tão forte que neutralize, como veneno de cobra, o poder de decisão, concentração e até a consciência?
A única consolação a que me agarro, como náufrago, é a certeza do seu carácter ilusório: por muito forte que seja, a paixão morre, como um tornado morre, no final da tempestade. Morre, sem glória. Morre sem história, tal como nasce sem história.
Durante a vida, quantas paixões congelamos por fora, enquanto nos queimam por dentro até às cinzas da alma?
Esta agonia de querer o que não se pode; de desejar até à dor física o que se rejeita conscientemente, é uma tortura indizível.
Paixão não é amor. Paixão é dor, é apego, é prisão. Reconheço-a, quando chega, invadindo todos os espaços, poderosa e arrogante, mas não sei como evitar. A paixão impõe-se, calca a razão, ignora todos os perigos. É doce, como vinho novo e, enquanto retalha a alma, injecta-lhe a anestesia do prazer.
A paixão não se deixa combater frontalmente. Não lhe posso dizer: “Vai-te embora. Não te quero”. Posso, sim, fechar-lhe todas as portas, encerrá-la dentro de mim, ignorá-la ou fingir que não a sinto, mas não posso evitar que apareça, como a chuva inesperada, numa noite de verão.
É o meu tormento silencioso, a que não dou voz nem asas, mas que esvoaça, encurralada e cega, contra as paredes do meu próprio coração. Deixo-a debater-se enquanto me rasga, até morrer de exaustão. Ela e eu, porque eu também morro sempre um pouco, quando uma paixão morre comigo.
Não a entendo. Não sei evitá-la mas sinto-a até a última gota de sangue. Sinto-a na pele, sinto-a nos cheiros, sinto-a em cada poro da vida. Vejo-a espelhada no fundo dos olhos que me enfeitiçam, apalpo-a na energia que se solta de mim, em ondas furiosas e inúteis. Só não a deixo vencer-me. Não sucumbo às suas exigências, não a deixo ser tão forte do que a minha força interior e nego-lhe o que mais quer: revelar-se ao mundo e transforma-se em acção.
As minhas paixões tornam-se eclosões, não explosões. Podem ser devastadoras mas só eu as conheço. Por fora, estranhamente, tudo parece normal. O meu ritmo, as minhas palavras, o meu sorriso, nada se altera. Por fora, não se lê, porque aprendi a escondê-la até do objecto que a causa.
As paixões, como as emoções, escapam à vigilância da consciência mas só se tornam reais se lhes dermos espaço para agirem. Aprendi que o sofrimento que causam é sempre maior do que o prazer que prometem. Se sou obrigada a senti-las, não sou obrigada a deixá-las controlar as minhas acções. Ao menos essa escolha é minha. A tentação vence-se só depois de ser reconhecida, por isso assumo essa tentação da paixão, como uma adversária do amor e, como a vida é feita de prioridades, escolho, desde já e para sempre, manter vivo o amor.
Mas o sofrimento, ah, como é impiedoso este sofrimento da luta. Mas não será a vida o meu teste de sofrimento contínuo?
Desconfio, já sem espanto, que sim…

Capítulo 23

Quando o corpo pára e o repouso o invade, quando o tempo não é medido ao segundo, mal resvala preguiçoso e sem pressa pelas horas que não obrigam a nada, fica esta sensação estranha de monotonia a pairar no meu descanso.
As férias são uma paragem repentina no ritmo frenético da minha vida e, estranhamente, deixam-me vazia, como se o descanso deixasse o corpo, a mente e o coração em ponto morto.
Tudo é mais lento, as emoções mais serenas, as paixões e as raivas (não serão as duas ramos da mesma árvore?) perdem o seu ímpeto e bóiam sem alvoroço nas ondas mansas do meu mar interior.
Estes momentos não me descrevem, tal como sou. A paz que procuro, não se encontra no tempo nem nos lugares nem na monotonia. A paz que persigo habita o meu lago inacessível, mesmo durante as lutas diárias. Amo a agitação que me impele e me obriga a dar sempre mais um passo, um passo mais além. Agora hiberno ao sol. É curioso que seja ao sol e não com o frio, mas é exactamente assim.
Rodeia-me o branco da areia, o sol, quente e anestesiante, o sussurro interminável das pequenas ondas mediterrânicas. Tudo parece quieto, imerso numa ausência irreal de conflitos.
Tudo é morno, suave e temporário.
Aliás, vejo nuvens no horizonte…


Capítulo 24

Volto a insistir: Quantas vidas terei de viver até aprender todas as lições? Será que uma vida chega?
Se uns morrem com cem anos e outros com um dia, que critério de justiça tem a vida? Onde estão as oportunidades iguais, se todas, estou certa disso, um dia teremos de chegar ao mesmo destino?
Céu ou inferno?
O que eu sinto instintivamente, o que me sossega e responde, é uma realidade que a maioria nega como heresia: eu sinto que viverei uma ou mil vidas, mas terei de aprender todas as lições. Sei, igualmente, que todas as lições se reduzem a uma única lei, a lei que todas as religiões defendem, embora com normas diferentes e em nome de diferentes Deuses.
A lei é o amor. O amor não é um sentimento liso, sem percalços. O amor é feito de mil ângulos e cada um desses ângulos representa uma característica que o define. O amor não é só doação, também é partilha, não é só paciência, também é exigência. Não é só serviço, também é poder. Saber conjugar, na medida certa, todos estes sentimentos, opções, certezas e caminhos conduzirá à descoberta do amor. Nesse momento, a missão terá sido cumprida e a roda da vida poderá parar de girar.
Não posso falar dos outros. Sei que cada um cresce ao seu ritmo e que não é útil nem lícito julgar esse ritmo. Cabe-me mudar tudo aquilo que sinto que não me ajuda a crescer, mas não me compete mudar os outros.
A única certeza que tenho é que não serei capaz de aprender todas as lições no espaço de uma vida. É esse o meu desafio e o meu grande desejo, mas só no final saberei até que ponto cumpri a missão que me foi destinada.
Creio, firmemente, que duma ou doutra forma nos será revelado o mapa da nossa vida no preciso instante que cruzamos o portal da morte. Ao menos já sei que a morte não é o fim e essa certeza é um dos grandes trunfos que me amparam na batalha da vida.
Não perco ninguém, não sou de ninguém, não preciso de ter medo de nada. Preciso, unicamente de amar o amor.
Se o fizer, terei vivido.

Capítulo 25

O que ainda não sei fazer?
Ter paciência. Amar com desapego. Ignorar a paixão. Prescindir do direito de ter sempre razão. Escutar o que não quero sem me perturbar. Esquecer o que perdoo. Ser fiel aos meus ideais.

Capítulo 26

O que sei fazer?
Alimentar a minha fome de crescer por dentro. Dar o melhor que tenho. Saber que nada é meu e aceitar essa verdade.
Olhar a morte sem medo. Ter fé no lado belo de tudo, a que chamo Deus. Agradecer o amor que recebo como uma prenda do mesmo valor.
Acreditar na força transformadora do optimismo e da esperança. Não desistir nunca de ser feliz.






Capítulo 27

A fé, gostaria de saber, é uma bênção, um privilégio ou um dom?
Se nasce sem parto, se é fácil, evidente, é um dom. Se chega com a maré-cheia, inundando sem licença todos os espaços, é uma bênção. Se não se quer nem se procura mas surge explicando ou consolando as jornadas da vida, é um privilégio.
Depois, há os que não a têm. Os que a procuram, a invocam, a insultam na esperança de uma resposta que não vem. Ter fé ou não ter fé não me parece uma escolha consciente. Não se pode crer no que não se acredita, e ter fé é ter certezas sem provas. É aceitar um aconchego que não se vê, e sentir força onde ela não pode existir, é sentir calma no meio da tempestade e prescindir da defesa do medo.
A minha fé é dom. Nasceu comigo. Não tenho mérito algum em a possuir, porque não a conquistei. Limito-me a agradecê-la, como um brasão de fogo e calar, no meio da tempestade da vida e espero – isso sim – poder usá-la para acender outras fogueiras e levar calor a outros corações.

Capítulo 28

É tudo tão efémero, tão curto…
O prazer, por exemplo, é sempre algo de escorregadio que nos sai dos dedos antes de o podermos agarrar. É intenso e curto. Passa. Repete-se (às vezes) e volta a passar.
O entretanto é a procura de o obter ou de saber viver sem ele.
Por prazer entendo tudo o que causa alegria: o amor, as ocasiões de festa, as férias e a companhia dos que mais queremos a nosso lado. Todo o prazer é feito de momentos. Momentos inesquecíveis, momentos únicos, momentos de euforia, mas apenas momentos.
A lição para mim é evidente: se a vida se compõe de desertos imensos, interrompido por oásis (os momentos) não nos podemos permitir perder nenhum deles.
Se amo alguém, amo-o o mais que posso, no momento que está a cruzar a minha vida. Se a alegria me visita, agradeço-lhe e convido-a a morar comigo. Se a companhia de um amigo enche de sol o meu dia, fico com ele até ao pôr-do-sol. Não adio a felicidade, só porque não a posso ter a tempo inteiro.
A felicidade é-nos dada, aos pedacinhos, para que saibamos dar-lhe o devido valor e não a engulamos de um trago. Depois, quando o sofrimento me visita, recordo-me que também ele é temporário, que as dores sucumbem, como as alegrias, ao ritmo lento mas seguro do tempo e que nada é eterno, a não ser a alma.
Tudo passa, tudo morre, mas tudo deixa impressões. A alma é o livro onde se vão registando todas as experiências, todos os momentos felizes, todas as lições aprendidas e todas as dores compreendidas.
Morrer é apenas escrever o capítulo final antes de entrar no momento eterno. É aí que espero poder chegar, sorrindo.

Capítulo 29

Fugir para onde, se a alma vem comigo? Onde acostar neste mar onde naufrago, por dentro?
Sinto a cabeça apertada, latejando ao som da trovoada que rasga o céu nesta tarde de Verão. O mar está demasiado sereno, pautado de verdes e azuis. O céu está negro, com uma energia contida que rebenta, de repente, num ponto incontido.
É estranha a chuva de verão. Cai grossa, real, mas ao mesmo tempo parece uma ilusão a mascarar o calor de Agosto.
Ás vezes sou assim: Uma tarde quente de Verão que se deixa disfarçar, por instantes, por uma tempestade. Fustigo as areias dos meus sonhos, corro por entre as vagas, deixo-me cair, de braços abertos, na terra húmida das emoções e planto, aí, nesse instante, os meus desejos insanos. Não como uma semente, mas como um velório.
Há sonhos que nascem para serem vividos. Outros nascem para serem enterrados. Esses sonhos, de que não consigo fugir, mesmo fugindo para milhas e milhas de distância. É este o meu destino: carregar a minha alma e todos os seus pesos na bagagem do meu crescimento. Carregá-la pelos dias e adormecê-la à força, nas noites de insónia.
Embalá-la, de mansinho, até que morram as tormentas, até que se calem os ventos, até que reste apenas o cansaço de uma luta vencida, como uma praia deserta e limpa, depois de vencida a tempestade. Ao longe vejo o azul do céu por entre uma nesga de escuro e sei então, que o azul vencerá sempre o negrume das nuvens, tal como o sol nasce sempre depois duma noite escura, tal como o sofrimento sucumbe sempre na alvorada da esperança.




Capítulo 30

Cada vez mais tenho esta sensação esquisita de ter milhares de anos. Não a digo num sentido negativo, mas constatando que me sabe bem, que me completa a sabedoria dos que já viveram muito. Não me conformo com o que não posso mudar, mas já não me revolto por isso. Não julgo os outros, simplesmente porque me é claro que, dadas as circunstâncias e as oportunidades, nenhum ser humano (a começar por mim) é isento de erros e pecados. Não me aterroriza a ignorância, a falta de fé, a pobreza interior, porque sei que cada um cresce a um ritmo diferente, mas terá, inevitavelmente de crescer.
Dói-me a injustiça, a crueldade, a estupidez, mas todo o mal que os homens fazem não consegue obscurecer a muita certeza do bem e do seu início que é Deus.
É por isso que, interiormente, me sinto com milénios de existência e quero, cada vez mais, entrar nesse sentimento cósmico, unitário, integrante, que é a certeza de que todos caminhamos para um mesmo fim.
O que hoje não entendo, amanhã fará sentido. O que hoje me revolta, amanhã será uma lição. O que hoje perdi, amanhã será a bússola que me permite estabelecer prioridades de amor. Os meus erros, os meus desejos, as minhas quedas assumidas ou evitadas – felizmente muitas são evitadas – serão trampolins de crescimento interior, serão coordenadas que me permitem orientar as minhas emoções e os meus sentimentos.
Vivemos apenas para aprender. Não ensinamos ninguém. São estas as duas verdades que já alcancei e ninguém me poderá roubar. Crescer por dentro e somar anos não é necessariamente envelhecer. Se os anos trouxerem luz à ignorância e à instabilidade então são fontes de juventude. Ser jovem como pensam muitos, não tem valor se se limitar o conceito à agilidade física, à beleza ou à irreverência e irresponsabilidade. O que me atrai na juventude é a paixão dos ideais, a pureza e a inocência de cada escolha que se assume – se ser jovem não representa a abertura ao novo desafio e criatividade, então, mesmo que o corpo fale de juventude, a alma está senil.
Só a força fortalecida de uma alma lhe confere juventude. Só as lutas que levam à sua descoberta e a procura de um sentido no caos da vida lhe conferem a grandeza. Ser grande não é, necessariamente, um acto exterior. É, sobretudo, um processo sereno, que aceita, que entende, que procura, que não se conforma, que resiste ao derrotismo, que combate o pessimismo, que é magia, alegria, encanto, para dentro, sem aplausos, sem espectadores.
Sobretudo, ao olhar o puzzle que representa a vida, começa a sentir que muitos peças se encaixam, como por acaso (e não há acasos!) mas espaços vazios de outrora. Hoje tudo parece ter mais sentido, mesmo a falta de sentido, as crises de fé ou de coerência.
Não tenho nada. Aceito os desafios. Acredito que em mim reside o poder para os vencer. É então que encontro Deus, não fora de mim, mas no meu centro, aninhado e moldado na forma da minha alma.
Então percebo que sou única, que a minha missão é só minha e que serei o que escolher ser.
Não o posso transmitir claramente aos outros. Há sentimentos que não se transmitem, porque as palavras não os abarcam na sua totalidade. Há lições que só se aprendem vivendo-as experimentalmente. Falar de mal, de amor, de sofrimento, de alegria, de morte ou de renascimento, só é uma linguagem inteligível para quem os experimentou.
Assim, não devemos lamentar nada, mas devemos procurar aprender com todas as situações da vida. As boas e as más. E agradecer, sobretudo agradecer, porque uma alma que cresce e sente que o está a fazer, não pode fazer outra coisa. Não pode ser indiferente e a indiferença, afirmo-o, é a raiz de todo o mal, é o sustentáculo da ignorância e o adubo de todas as prepotências, fundamentalismos e faltas de amor.
Aceito tudo, menos a tranquilidade das indiferenças.

Capítulo 31

Quando me pergunto – e chega sempre a altura de perguntar: o que queres Tu de mim, meu Deus? Que esperas do meu nada, das minhas dúvidas, das minhas infidelidades?
A resposta fica sempre pendurada num vazio que não é vazio, num sentido que não entendo, mas posso vencer se disser: “Faz de mim o que quiseres”.
Não é fácil entender Deus, ou melhor, só se pode entender Deus no mistério, renunciando a defini-lo ou aprisioná-lo num conceito restritivo. Deus não é – não pode ser – o que os homens dizem dele. Há demasiadas tentativas patéticas – algumas tristes e até cruéis – de o prender a um conceito.
Deus é. Nada mais. Eu dizia que não é fácil entender Deus, mas não é menos difícil entender o que somos e o que é esperado de nós. Se a nossa missão é amar, logo viver é um exercício, a todos os níveis, de desvendar o amor. E como praticar o que não conhecemos? Como ensinar o que não sabemos? Olho à minha volta. Sinto o sol quente nos meus ombros. Ouça o arrulhar do mar, como mil pombas ao anoitecer. O céu funde-se com o mar num azul contínuo, mas desigual e tudo é paz.
Mas eu sei que a paz que me rodeia não habita todos os lugares, tal como o azul não é dum só cambiante. Os momentos, as circunstâncias, os homens, tudo constitui a roda que tece a história triste ou alegre da humanidade.
No meio deste imenso tapete eu sou um ponto minúsculo. Ninguém me vê, mas estou lá e é importante que eu saiba que só eu ocupo o lugar que ocupo.
Se o meu ponto se quebrar, poderá dar origem a um buraco no tapete. Os homens terão de aprender que somos um todo e que toda a nossa individualidade é aparente. O que penso, o que digo e o que faço, tece a contextura dos outros pontos que me rodeiam. Mais importante ainda: eu dou origem a outros pontos que partem de mim tal como eu parti dum ponto anterior.
Talvez a minha missão seja permanecer fiel a essa certeza e procurar transmiti-la aos que me rodeiam: não somos seres aleatoriamente lançados à vida. Somos parte de um esquema cujo início não conhecemos e cujo fim não adivinhamos. Nós somos sempre o centro da história, o presente que a tece e dirige.
E será preciso mais? Não bastará a certeza dessa missão e a procura de a viver com coerência? É isso que queres de mim, meus Deus?
Esperas que eu entenda e aceite e diga sim? Só te posso prometer que vou tentar. Direi sim sempre que o coração me permitir e, nas vezes que disser não, permite-me acreditar que terás a paciência de esperar que eu volte a dizer sim.
Se Tu, que és Deus, conheces o barro imperfeito de que sou feita, não tiveres a misericórdia paciente do perdão para me oferecer, o que poderás esperar que eu ofereça a quem me rodeia?

Capítulo 32

Não convencemos ninguém pelo que dizemos. Damos origem a acções, pelo que fazemos. Vou dar um exemplo. Vi um dia um exímio escultor de areia a construir um castelo. Não era um castelo qualquer, mas uma obra-prima de pormenor e beleza.
À sua volta as pessoas agrupavam-se, maravilhadas com a perfeição da sua obra. A beleza, como todos sabemos, atrai como a chama atrai a borboleta. Muito depois da obra terminar e do artista ter partido, a obra manteve a sua posição. Os adultos contornavam-no com respeito e até as crianças que gostam de tocar para ver (literalmente) sentiam um pudor instintivo que não lhes permitia estragar a pequena grande obra.
No dia seguinte uma criança tentou construir um castelo igual. Imperfeito, é certo, mas parecido, uma imitação esforçada de copiar o original. Mais à frente uma outra criança fez uma tentativa semelhante. Enquanto observo essa realidade, constato que o que fazemos leva sempre a uma resposta.
Podemos não ter intenção de a provocar, mas ela surge inevitavelmente tal como as ondas dão origem a outra onda. Nada é inútil; nenhuma acção é invisível, nada do que façamos de bom ou de belo pode evitar a cadeia de reacções que irão gerar outras obras belas ou boas.
É por isso que sou optimista. Acredito sempre na capacidade da ser humano de se superar e procurar construir castelos perfeitos mesmo que pareçam efémeros.
A vida também pode parecer efémera por ser curta, mas se cumprir a sua missão, se levar outras vidas a sentirem entusiasmo, fé ou alegria não terá sido em vão, tal como o castelo de areia não foi em vão, ao levar uma criança a reparar na sua beleza e na paciência da sua concepção e, assim ter sentido a motivação de repetir a experiência de criar.

Capítulo 33

Todos temos os nossos demónios que nos assaltam, implacavelmente, quando menos contamos. Os meus são sempre os mesmos ultimamente. Sim, porque é preciso deixar claro que quando vencemos uns, apresentam-se outros. Cada idade tem os seus demónios próprios e cada alma atrai uns, mais do que outras.
Uns sei vencer, com a força das convicções, com a consciência ao auto-demónio. Outros visitam-me em sonhos, abraçam-me pelas costas, enquanto me apunhalam a alma e a anestesiam.
Não gosto de falar deles, porque me deixam vulnerável. Fazem-me perceber que não domino toda a minha interioridade, que não controlo todos os meus desejos, porque não oriento todas as minhas emoções.
É muito estranho, mas muito real. Um desses demónios é alimentado pela vaidade e faz-me sentir num impulso quase incontrolável para cativar, como a aranha, os que me rodeiam.
A necessidade de apreço é um demónio que leva a muitos abismos: à sensualidade, ao desejo de aventura, à procura constante de ganhar terreno, conquistar espaços e corações.
Não importa que eu não chegue a concretizar nenhum – ou poucos – dos meus desejos menos lícitos, mas a vontade permanece e é ela que me assusta.
É por isso que considero a paixão um adversário. O pior de todos e porque desafia e quebra todas as minhas bem montadas defesas e penetra insidiosamente o meu pensamento. Sei que sou muito mais frágil do que aparento ser. Sei que preciso de travar uma luta estóica e diária contra cada um dos meus demónios escondidos, porque só assim evito que ganhem espaço e se instalem nas minhas acções.
Penso que a loucura é a invasão permanente de todos os demónios reunidos na mente de alguém. O pior é que não há a esperar nada de bom de qualquer um deles. Nada. Prometem, mas exigem um preço impagável por qualquer das suas concessões.
E a minha luta solitária continua, porque só eu me conheço – e não totalmente – e só eu posso escolher combater ou sucumbir às minhas limitações. Só eu, orientada pela fé, pelos outros, pelo amor, posso escolher o meu caminho. Se ao menos não existissem tantos demónios… se ao menos eu soubesse voar, como as andorinhas para longe do frio e do Inverno, para uma Primavera eterna de liberdade e de luz!...
E, no entanto…o que seria viver sem paixões?

Capítulo 34

“Non foras ire: in interiore homine habitat veritas… a verdade habita dentro de um homem. Ele não precisa sair para encontrá-la”. Esta é uma das tais frases que, ao embater na minha interioridade desperta mil sinos que não param de tocar. Cá dentro mora a verdade. É por isso que fugir, mudar cenários, ausentar-se da dor ou do medo, não muda a paisagem da nossa alma, antes a encobre, como as nuvens de tempestade encobrem, temporariamente o sol.
Cristo dizia que não deveríamos procurar o Reino de Deus aqui ou acolá, porque esse Reino está dentro de nós.
Se a verdade nos habita, se Deus é a verdade, logo somos habitados pela verdade de Deus e convidados a compreendê-la e a encontrá-la. É claro que por vezes me parece ridículo olhar para o meu interior e tentar descortinar essa verdade. Qual é a verdade? Os meus sentimentos ou a minha razão? Os meus desejos ou a minha consciência treinada e os meus códigos de comportamento? E, contudo, sei que a resposta não me poderá ser dada, mas apenas encontrada. A verdade já existe, tapada, defraudada, esquecida, talvez, mas viva dentro de mim. Então viver torna-se um percurso de retorno à minha verdade esquecida, um longo e suado caminho de peregrino que se dispôs ao risco de procurar, renunciando à segurança de saber o que vai encontrar no final da jornada.



Capítulo 35

Se alguém um dia me lesse, abanaria a cabeça e diria, provavelmente, que sou um amontoado incoerente de emoções contraditórias. E, contudo, sinto que esta aparente incoerência é isso mesmo: aparente. Tudo fará sentido, mais tarde ou mais cedo.
Sem correntes contrárias a empurrá-lo, como pode um navio testar a sua resistência?
Hoje acredito que as grandes almas não viveram pacificamente, mas foram testadas com todos os tormentos. Passaram da noite, para o dia, testando o medo, questionando a fé, delineando os seus limites e chorando com raiva as suas perdas e culpas.
O percurso de uma alma inteira só se faz fragmentando a vida. Não vivemos numa planície verdejante, onde os caminhos são direitos e as veredas limpas. Vivemos no fio da navalha, rodeados de precipícios, de crateras fundas e negras, tapadas por nuvens fofas e enganosas.
Viver é saber sobreviver às nossas maiores loucuras.
É encontrar um fio de razão e luz no meio do confuso emaranhado de outros fios negros e escorregadios.
É ousar ir mais longe do que a promessa fugidia do prazer e da adulação.
É dizer não quando o nosso corpo grita que sim.
É insistir em amar, quando só resta vazio e cansaço.
É vencer a indiferença inventando pormenores de alegria.
É olhar um sonho triste e transformá-lo em algo maior.
É decifrar a dor por trás da tentação fácil.
É renunciar à paixão, estupidamente ou corajosamente – não sei – em nome da liberdade que nem sempre se quer ter.
É tudo isto, e muito mais do que sei ou posso dizer.
Afinal, ainda estou no início da minha jornada para escalar a montanha da minha vida e o pico está longe, muito longe, ao alcance da minha fé, mas fora da minha vista.

Capítulo 36

Estados de alma não se têm sempre. Tem-se, às vezes, quando a alma se palpa, quando está presente, quando espreita para fora da superfície estagnada da nossa rotina e presta atenção a um pormenor.
As almas adoram pormenores. Vibram com um sorriso, aninham-se como gatos, no colo do carinho, espreguiçam-se gostosamente ao som de uma música com sons eternos, comovem-se com o pôr-do-sol; enchem-se de luz quando encontram na presença de um amigo ou de um grande amor.
As almas são mimalhas é bom de ver. O seu berço é o amor, pois foi aí que foram concebidas. É por isso que, quando nascemos, todos somos pedaços perfeitos de Deus. Depois esquecemo-nos. Aprendemos a cobrir a alma com capas de medo, de raiva, de dúvidas, de inseguranças. E a alma hiberna, porque se não pode ser ela mesma, não pode ser nada.
Hoje a minha alma está a sorrir. Meditei, deixei que a energia superior de Deus invadisse cada poro do meu corpo e, depois, submergisse a alma. Tudo é paz, harmonia e bem-estar. As conquistas são sempre estados de alma. A alegria, a felicidade, o amor, a paz não nos são dadas de fora. São descobertas, ou reencontradas – para ser mais clara – a partir de dentro. Tudo o que é essencial existe programado em nós desde o princípio do universo.
As premissas da evolução, os segredos mais profundos, o poder de conduzir toda a energia, estão codificados e guardados na alma à espera de serem descobertas.
Uns vivem uma vida inteira sem usarem o depósito do poder que os habita. Outros despertam para essa dimensão numa determinada altura da vida, quando são postas em causa as suas seguranças, e outros procuram, com uma sede que não se apaga, a sabedoria interior que nos leva de volta à alma, a Deus e à verdade que existe em estado latente nos pormenores da vida.
Tudo são estados de alma para quem sabe que tem uma. Para os outros – os que a têm e não sabem – tudo são conquistas, ganhas ou perdidas, vitórias ou derrotas. A alma, essa, sabe que tudo são experiências, que não existe certo ou errado, possuído ou possuidor, porque todos os binómios são caminhos de aprendizagem. No final a alma está sempre só. Vai e vem, tantas vezes quantas precisar, pelas experiências do crescimento até atingir a maturidade.
Quando aprender a conhecer-se profundamente, o ser humano chegará à conclusão que tudo é alma. Tudo conduz a ela, tudo a justifica, tudo a engloba.

Capítulo 37

Hoje aprendi que deixar partir quem amamos, não me priva da sua presença. Curiosamente a ausência de quem amo fala ainda mais alto do que a sua presença física. O amor vive cá dentro, onde as memórias se guardam e se agigantam no momento do adeus.
Quando parte um amor, fica a sua alma colada à nossa, fica um fantasma que não se pode exorcizar, fica o desejo do reencontro, fica a urgência insaciável de remoer lembranças e alimentar memórias. Fica a saudade também e é ela que guarda a chave do coração que parte. É ela que se encarrega de aparecer, nos momentos mais impróprios, exigindo atenção.
O maior poder que alguém pode ter sobre o nosso coração é fazê-lo sentir saudade. Eu sei que é assim, porque é isso que estou a sentir…

Capítulo 38

Ser feliz é olhar a nossa vida, sem vergonha dos erros, aprendendo lições e tendo um objectivo. Ser feliz é olhar tudo o que fomos e somos e sentir que nada foi inútil, que o investimento no amor cresceu e deu frutos eternos. Ser feliz é estar tão cheio, por dentro, que já não assusta morrer…

Capítulo 39

Não gosto de me sentir assim – insegura, com um bater de asas louco e assustador dentro de mim. Não sei se é angústia, se é inquietação. Não sei sequer o porquê, mas adivinho-o na ausência do silêncio que me cerca. Todos falam. Há muito barulho, palavras a mais, sons que ecoam outros sons. Que saudade da solidão, do meu espaço não invadido, da paz interior que me isola de tudo e de todos.
Não me sinto perdida, apenas inquieta. Sei que este sentimento é temporário, que tudo na vida é temporário. A raiva acaba, a angústia desfaz-se como o fumo, as lágrimas secam, o desânimo cicatriza.
Tudo passa embora doa até esgotar as últimas gotas de sofrimento. Mas não agora. Não neste momento em que me sinto encolhida contra um muro de asas pretas que esvoaçam como morcegos e me bebem o sangue da alma.

Capítulo 40

Se um amigo não aceita que não concordemos com ele, que lhe apontemos um erro, que lhe digamos “não”, o seu coração não é tão ligado ao nosso como parece, porque está centrado sobre si mesmo e não aceita invasões.
Para mim um amigo pode dizer tudo porque, se for amigo de verdade, não diz nada a mais e nada a menos. Diz o necessário, da forma como é capaz. Di-lo com o coração, sem desejo de ofensa. Diz a verdade, mesmo que doa e prefere ser mal compreendido do que omisso.
Sofro muito quando um amigo me vira as costas ou vê veneno nas minhas atitudes. Por um amigo dou sangue e lágrimas, dou riso e tempo. Dou tudo o que posso e sei. Como aceitar sem mágoa, que essa oferta de mim mesma seja calcada ou travada?
Dum inimigo aceitamos as piores ofensas sem espanto. Podemos sentir raiva ou ódio, mas não esta dor mansa e certeira que um amigo nos pode causar.
Só os que amamos têm o poder de nos atingir, porque só eles moram no nosso mundo interior como hóspedes permanentes. Talvez eu tenha de treinar mais o desapego, até ser capaz de não me perturbar nem mesmo com o adeus de um amigo.

Capítulo 41

Cada vez mais sinto esta certeza fininha, este sopro estranho e bom, que me diz que é cá dentro, no santuário do meu espírito que se encontra o tesouro da realização. Sou feliz desde sempre, posso apenas esquecê-la, mas não ignorá-la.
É por isso que as únicas relações não condenadas à desilusão são as relações entre espíritos. O amor da carne, o apego, a paixão ou o desejo não saciam a fome da alma que quer mais do que um simples preenchimento momentâneo. Sim, amar com o corpo é uma forma sublime de dar a nossa energia e de receber energia de alguém. O que há de mais próximo da perfeição. Mas não chega. Sozinha, essa entrega, não chega.
Eu quero a alma, quero beber dela, deixar noutra alma a minha impressão digital, semear memórias, ser um marco, abraçar sonhos e alimentar outros sonhos que não são meus.
Quero tecer laços indestrutíveis, invisíveis e eternos.
É por isso que, quando amo, prefiro amar um amigo. Alguém que não exija o meu tempo ou o meu espaço, porque já o tem. Alguém que não me prenda nem me faça sentir desespero, angústia ou ciúme.
Quero amar sem amarras, quero pensar em alguém, mesmo que não esteja presente e sorrir nesse pensamento. Quero partilhar a alma, dar sangue do meu viver, entregar as chaves do meu afecto e não exigir retorno.
A vida não tem sentido se se pautar por obsessões ou amores doentios. Não quero chorar por não poder ter quem quero a meu lado. Não quero a tortura de amar quem não pode ser meu. Limito-me a purificar esse amor e aceitá-lo, como aceito o sol e a chuva, a terra e o mar. Procuro que o meu interior faça parte do quadro de alguém e que algumas pinceladas sejam marcas, sinais, pontos e beijos que ofereço sem esperar colher proveitos.
Cada vez mais sinto este apelo a viver para dentro, a entrar nesse universo fascinante da minha mente e perceber que tudo o que é importante mora lá. Não exijo exclusividade de mais nenhum coração. Não possuo nem sou possuída. Dou e não ponho condições.
Sinto que é este o caminho inebriante da liberdade e rio e salto, feliz como uma gaivota a sobrevoar o mar. Sei que o mar é meu, que está ao meu alcance, mas não preciso de provar que sei voar e que sei mergulhar. Basta sabê-lo e possuirei todo o poder do universo, mesmo que só o silêncio ou a solidão pareçam habitar-me.


Capítulo 42

Não se pode crescer à pressa. Há um momento para tudo, até para acordar para dentro.
Rodeiam-me pessoas que só vêm as capas de existência e esquecem o seu âmago. Há quem viva sem saber – ou sem querer saber – que é habitado pela eternidade.
Mas não tem importância, pois cada um chegará ao destino comum por seus próprios pés.
Todos cruzamos vidas alheias e deixamos lá as nossas pegadas. Pode não parecer, mas todas as nossas acções e pensamentos, todas as palavras de amor ou de ódio atingem um alvo. Assim não adianta lamentar o aparente fracasso das nossas bem intencionadas palavras. Um dia farão sentido e darão os seus frutos, mesmo que já não estejamos deste lado da vida para o constatarmos.
Cada um cresce ao seu ritmo e não vale a pena querer apressar o ritmo de uma alma que quer ser caracol. A seu tempo tudo fará sentido.

Capítulo 43

Outra vez esta raiva inútil, este galgar desenfreado da alma contra muros de apertos, desencantos, gritos oclusos e uma impaciência profunda e venenosa que me engole a alegria.
Detesto sentir-me assim, sem paz, inquieta, olhando o mundo de soslaio, desconfiada e triste.
O convívio pacífico com aqueles que nos rodeiam no trabalho e em casa é dos mais difíceis que existem. O confronto só surge quando todas as capas foram retiradas e não temos vergonha de ser quem somos.
Com aqueles que nos conhecem., somos mais facilmente agressivos, antipáticos e desdenhosos. Criticamos, voltamos costas, cobramos, sentimos ira.
Curiosamente só nos conhece bem quem vive ao nosso lado ou partilha o ar que respiramos. Para os outros somos paisagem, um arvoredo verde e camuflado que quer esconder as manchas interiores e só revela o lado belo e simpático da alma, não o feio e contorcido.
Hoje estou num dia não. Senti-me apertada, penso que fui injustamente atacada e o meu coração indomado revolta-se porque ainda não é maduro o suficiente para ser imune a desilusões.
Eu sei qual é o caminho para a paz, mas não me decido a segui-lo. O desapego, a ausência de rancor, o ceder terreno e prescindir de justas exigências só é acessível às almas de calibre superior. Aquelas que aprenderam a ser pacientes, humildes e serenas, como eu gostaria de ser, mas ainda não sou.
Acho que vai ser a luta da minha vida , esta de vencer a minha própria natureza e pôr-lhe freio. Detesto que me contrariem, que orientem os meus passos à força, que subam degraus calcando a minha cabeça.
Se me provocam continuo a reagir sem um controle superior de todas as emoções negativas. Quando as expulso, através deste escrita furiosa que me sai com a sofreguidão das ondas num dia de tempestade, acalmo um pouco o espírito e relaxo. Deixo que o pensamento se aquiete e olho com um pouco de lógica o meu lado irrazoável.
Afinal as crises e os desafios só servem para testarmos a evolução do nosso crescimento interior e para delinear os nossos limites.
Tenho ainda muito para aprender. A montanha da vida, cujo cume anseio por atingir, realmente ainda está muito longe do meu alcance. Felizmente sei que está lá e me espera paciente. A vida vai esperando por nós e Deus não desiste de o fazer nunca…
É reconfortante sabe-lo. Ainda assim, é bom saber que amanhã outro dia nascerá.

Capítulo 44

O segredo da vida, o único segredo que abre as portas da luz, que nos dá asas para voar até ao coração de Deus e da eternidade é saber ver. Só as coisas simples, as vivências normais, os pensamentos, desejos, afectos e escolhas que fazemos e que nos fazem interagir com o mundo dos outros nos levam à compreensão.
Ver é compreender. È não rotular nada como certo ou errado, é aceitar que não há castigo nem recompensa, apenas consequências.
Hoje a minha alma está presa a afectos que não compreende. Por isso sofre.
Para mim a incompreensão é um caminho de sofrimento, é um tropeçar às cegas, por entre vivências e escolhas. Há sentimentos que nascem em nós sem serem entendidos e nos escravizam como o desejo, o apego, a paixão, a obsessão, o ódio. Cada um deles é um tormento, uma prisão.
Hoje sinto a alma encurralada. Não sei para que lado fugir, não sei como me libertar desta ânsia, deste mundo profundo e envolvente dum afecto que me roubou a paz. Pensar obsessivamente em alguém, deixá-lo morar em nós como hóspede permanente, é perder a neutralidade e deixar que o terreno sagrado da nossa paz interior seja invadido.
Estou cansada, mas é preciso ver, desmistificar esta emoção, reduzi-la à sua real importância e deixá-la nua de trunfos.
Não me apetece chorar. Não sinto tristeza, apenas nostalgia, saudade e uma inquietação miudinha que me faz desejar o que não tenho nem posso ter.
As lutas, as maiores lutas, são sempre batalhas internas e invisíveis com a nossa consciência. Ver também é isto; identificar a causa da nossa perturbação e aceitá-la até que morra de tédio. Não se pode combater uma emoção, porque reprimida só ganha força.
O melhor é olhá-la de frente, entender a sua força, deixar que nos atravesse o nosso ser, tal como uma onda imensa onde se deve mergulhar e da qual não é sensato fugir.
Olhar e ver. Ver e compreender. Compreender e alcançar a liberdade. É este o caminho…

Capítulo 45

A vida, este sopro momentâneo, é sempre curto e longo demais. Longo no sofrimento, na espera da dor e na impotência, mas curto, fugaz, nos momentos de exaltação e pura felicidade.
Tudo são momentos, mas uns – os dolorosos – parecem mais longos do que os outros – os felizes. Eu sei que é ilusão. Sei que até o sofrimento é uma escolha assumida, mas nada nos preparar para amar a dor da perda, da morte e da caducidade.
Não tenho medo de morrer. Já o afirmei e volto a afirmar, mas não consigo ficar sabiamente serena perante a morte dos que amo ou, simplesmente, perante a ameaça de os ver doentes ou a sofrer.
Disse alguém que “amar é dar a alguém o poder de nos causar sofrimento”. Amar tem sempre de ser assim tão doloroso? Eu sei que amar é garantir a alguém que terá um estatuto permanente no nosso coração, mas como abraçar também a ausência? Como olhar quem não foca nem devolve o nosso olhar? Como falar para o vento e chorar sem que nos deixem as lágrimas? Amar, acredito, só é possível por uma questão de fé e de loucura.
Mas, quem não ama, mesmo que seja durante o sopro duma existência, será que vive de verdade?

Capítulo 46

Tantas lutas, tanta dor,
tantas perdas magoadas,
tantas lágrimas entaladas,
perdidas, inutilizadas
a chover dentro de mim!

Às vezes, paro e escuto.
Ouço memórias felizes,
segredos que me contaram,
relembro risos, abraços,
pressinto o som de passos
nas raízes do meu ser.

Crescer é deixar partir,
é perder e é ganhar,
é guardar o que é bom
e nas horas mais sofridas
aprender a confiar

E na hora da partida,
quando a morte chegar
espero só gritar à vida
que não temo nem lamento
pois vivi só para amar


Capítulo 47

Hoje sinto saudade, essa palavra portuguesa, que só os portugueses sabem dizer.
Saudade é uma dor serena, consentida, amada.
Saudade sente-se porque quem parte, por uma recordação, por alguém.
Dói cá dentro, aperta a alma, cria ilusões visíveis de algo que não se tem.
E por isso é bendita.
Com ela quem morre revive, entre lágrimas e sorrisos à mistura.
Memórias serenas, sons, cheiros, são invocadas do fundo da nossa mente e renascem inteiras, no palco da vida.
Que saudade sinto da minha avó e do tempo em que me sentia segura ao olhar para os meus pais, considerando-os imortais. Tenho saudades da infância, das horas longas, sem fim, que somavam os meus dias. Saudades do entardecer com a família reunida à volta da mesa, do barulho feliz, mesmo nas zangas, dos hábitos vulgares e amados duma casa, igual às outras, mas que será sempre diferente, porque era a minha casa.
Saudades do tempo que eu queria crescer e ser “grande”, de tantos sonhos idiotas, de ser criança a valer.
Hoje, nada é assim. Não é pior mas é diferente. Já não olho as seguranças considerando-as seguras. Sei que perder é uma lei incontornável, aprendi que até a dor mais triste – a da morte dos que amamos – terá de ser aceite sem revolta, porque viver bem não é possuir, é prescindir de se sentir preso.
Mesmo assim abençoo a saudade. É através dela que construo a minha história, que adubo as minhas raízes, que não deixa partir de vez quem parte. E há outra coisa que só pode entender quem a sentir: só começamos a medir com exactidão a presença de alguém, quando a sua ausência nos cerca. Se, por estar ausente, se torna mais forte e persistente o pensamento que nos liga a uma certa pessoa, amamo-la com saudade.
A conclusão é simples: só sabemos o quanto amamos pela saudade que sentimos.
Abençoo-a sim, porque amaldiçoa-la seria condenar ao esquecimento os bocados de vida que permanecem acesos dentro de mim, muito depois de se ter apagado a luz que lhes deu origem.




Capítulo 48

Sabes como me sinto hoje, alma? Como se tivesse sido varrida pelas ondas do mar e ficasse sem pegadas na areia. Semeei pequenos búzios no areal, construí castelos de areia, fiz ruinhas com pedras brancas e, depois, convidei os que me rodeiam a brincar na minha praia. Uns não puderam vir, outros não gostam de brincar, outros olharam, lá do alto, a praia da minha alma e abanaram a cabeça com desdém.
Há gente grande que não sabe brincar e pensa que as coisas muito sérias só podem ser ditas de uma forma muito séria. Por isso não gostam de histórias, nem de palavras simples, nem de coisas tontas, nem de ideias novas.
Sentei-me sozinha na praia, encostei a cabeça nos meus joelhos, abracei as minhas pernas nuas e chorei.
Foi então que o mar, cansado de me ver ali sentada, com a alma enfeitada mas não partilhada, enrolou uma enorme onda que lambeu os castelos, os búzios e as pedras brancas.
Limpou também os meus passos, os meus pensamentos, as minhas expectativas. Varreu tudo até que a areia voltou a ficar lisa e colada, sem histórias para contar.
É assim que está a minha alma, hoje. Nua, sem história, cansada e dormente.
Mas é só hoje, porque amanhã sei que voltarei a construir mais castelos, a procurar mais búzios e a semear mais pedras brancas na praia que me habita. Amanhã…


Capítulo 49

Estranho este olhar o mundo e sentir, claramente que tudo são momentos. Passos, caras, burburinho. Momentos. O céu escuro, onde a chuva está presente, sem se manifestar ainda. O céu da noite, segundo a segundo, numa inevitabilidade sem pressa. Os meus pés a pisarem as pedras da calçada, num ritmo certo e cadente. O balançar do meu corpo esconde apenas a minha alma. Tudo são momentos: as alegrias, as dores, as vitórias, as desilusões. Tudo, menos o amor.
Olho o céu da noite uma vez mais e sei que todos os esforços do mundo unidos, não seriam suficientes para trazer de volta a manhã que já passou. E, contudo, para quê procurar a manhã que já não existe, se a noite dará lugar, de novo, a outra manhã?
Este rodar sereno e inevitável da eternidade escreve apenas os nossos passos em direcção ao amor. É por isso que a alma se reveste de carne. É só por isso que despe e veste vidas até aprender o que é importante saber.
Tudo, a seu tempo, fará sentido. Os erros, as revoltas, as injustiças. Tudo são lições, reservatórios de experiências que codificam a alma no caminho da verdade. No fim de todos os momentos está o cume do tempo, o resumo e explicações de todos os pedaços e horas de risos e lágrimas. No fim de tudo está Deus, que espera. Todos nós somos movimentos ascendentes de energia que peregrinam para Deus. Para Deus que nos habita no único lugar onde raramente vamos: o centro do nosso coração.

Capítulo 50

Entupi-me nas palavras. Sinto-as perto e tão longe, que só o pensamento as alcança. Quando estou assim, sinto a alma atafulhada e entupida de palavras, e sinto uma inquietação estranha, um formigueiro que me percorre e me atormenta a alma.
Penso na vida e sinto-me cada vez mais desligada das suas rotinas. Existo, como, durmo, trabalho. Encontro pessoas, rio e choro, mas parece-me que nada é muito real.
Não levo a sério o excessivo envolvimento com os assuntos do mundo. Tenho de conviver em terras pacíficas com o mundo das coisas e das pessoas, mas sei que tudo é um sopro, uma ilusão. Sei que este tempo, a que chamamos vida, é uma mera interrupção na minha eternidade.
A morte já não me choca, apenas me dói porque não sei controlar a saudade. Não me assusta morrer, nem me destrói ver morrer.
A minha eternidade, que as palavras entupidas não explicam, é algo de imenso, muito maior do que a interrupção a que chamamos vida. Tudo são momentos, fugazes sensações, emoções que vão e retornam. Tentações que venço ou me vencem. Alegria. Dor. Perda. Desapego. Um circulo vicioso errante e efémero que parará, um dia, às portas da vida eterna. A vida só começa depois da morte, por isso, nascer é morrer momentaneamente para a vida eterna e morrer é começar, de facto, a viver.