Tuesday, October 23, 2007

«Estados de Alma»

Ganhei coragem...e vou publicar, aqui, um diário de alma que comecei a escrever há muito tempo. É uma obra incompleta...em construção permanente, como são todos os diários. Reli-o. Na essência continuo a acreditar em quase tudo o que escrevi, apesar de,hoje, manter uma abertura e humildade maiores perante as surpresas da vida. E elas surgem, sobretudo quando ao escalar a montanha da vida temos a ilusão, numa curva da escalada, que estamos a chegar ao cume...

Deixo aqui, com a alma nua, os primeiros 50 capítulos...

ESTADOS DE ALMA

Capítulo 1

Há coisas que se escrevem para serem lidas – outras não. Outras são pedaços de alma, sensações íntimas, coisas nossas.
Um diário da alma é uma coisa séria. Ridiculamente séria, porque espelha o que não ousamos confessar em voz alta.
É isso que eu quero. Falar-me. Dizer-me. Escutar-me. Não espero que me entendam. Prescindo do prazer narcísico de me dar, ao deixar que me leiam. Desta vez falo para mim, de mim, das minhas dúvidas, das minhas vontades, do que sinto e me pincela a vida. Vou deixar-me partir, aos bocadinhos. Vou admitir fraquezas, aos bocadinhos. Vou confessar pecados, aos bocadinhos. Hoje eu sei que pecar é um acto íntimo, é um viver, por dentro, o que posso ou não fazer, por fora.
Os meus conflitos são lutas eternas. Sei o que quero, mas não quero prescindir do que prescindo. Faço o que devo, mas não o que desejo. Sei o que é certo, mas não estou certa que o “certo” me cubra a alma e a tape. Às vezes parece que o “errado” me serve melhor, como um sapato de «Cinderela» que se ajusta à medida do meu pé. É tolice, eu sei, mas é assim.
Uma coisa boa nisto de falar assim, aos arranques, é que não há ninguém que nos julgue. Podemos ser o que somos, deixar a alma nua, sem defesas, desfiar o rosário confuso das nossas contrariedades, como quem se confessa só a Deus.
Afinal eu acredito que Deus está em nós, ou melhor, somos pedaços de Deus à descoberta. Não quer dizer que todos o saibam. Nada disso. Eu acho que noventa por cento das pessoas não sabe que são células de Deus. Mas não importa saber. Saber ou não saber, quero dizer. Importa apenas ser e isso é inevitável, quer o queiramos quer não.
Deus, para mim, funciona como o meu estímulo máximo à coerência. Quero ser tudo o que posso ser. Quero entender porque vivo e viver com um sentido. Quero ter o direito de errar e o privilégio de aprender. Quero soltar este cansaço de uma mente que não pára e de um coração absurdamente grande, como um salão de baile, onde cabe gente demais.
Depois, acima de tudo, quero amar sem me prender. Tenho medo de me deixar prender. Tenho medo de depender do afecto ou da presença de alguém, que terei de perder um dia. Afinal, todos perdemos todos os alguéns. É por isso que estudo com cuidado todos aqueles que encontro nas curvas do caminho. Há tanta gente que me cativa, tanta que quero cativar… onde está a linha que separa o que posso e o que não posso?
Como sei o que devo aos outros, o que devo a mim e o que devo a Deus?


Capítulo 2

Não me apetecia escrever por capítulos. Parece-me que esta organização não me deixa ser tão livre nem tão espontânea, como gostaria de ser. Mas como somos o que fazem de nós, já não sei ser inocentemente desorganizada. Preciso, para me guiar, de regras ferozes, de capítulos, de normas, de pontos finais e de vírgulas. Preciso de fronteiras e de semáforos. Luz verde, luz vermelha e luz amarela. Misturo o verde com o amarelo e tudo fica mais claro. Misturo o vermelho com o amarelo e tudo fica laranja. Lembra-me o pôr-do-sol, quando chega o fim do dia e o mar banha o astro-rei numa estranha mistura de opostos.
É assim que eu me sinto, quando piso o amarelo e o vermelho ao mesmo tempo: fico em estado de pôr-do-sol, bela, imensa e contraditória, mas a morrer.
Tudo o que é belo morre ao fim da tarde. A vida, também morre ao fim da tarde. A velhice é o fim da tarde, da juventude. É assim e pronto.
Um dia aprenderei a não ter medo de morrer, entenda-se, de perder a beleza, porque algo me diz, muito fundo, que ser belo é algo imortal e, como tal, invisível.
Parece um contra senso, a beleza ser invisível, mas é exactamente assim. O que eu acho belo em alguém, pode não ser belo para outra pessoa qualquer, logo a beleza é subjectiva, logo a subjectividade é interior, logo não se vê, logo, mesmo que morra ao fim da tarde não faz mal, porque morrer é apenas uma ilusão.
Mas eu estava a falar de regras. Das que tenho e das que me obrigo a suportar.
Às vezes eu gostava de poder ser “imune a regras”. Experimentar tudo o que não experimento, por dever, por preconceito ou por estupidez. Gostava de dizer a quem me atrai “Apetece-me estar aqui, perto de ti. Apetece-me esquecer as horas, apagar o mundo e inventar uma estrela, contigo”. Não o faço nunca. Habituei-me a embrulhar os meus sentimentos, mesmo os mais platónicos e inocentes, em coletes de força que os prendem vendados, na cave do meu coração. Não é decente amar assim a despropósito. Não é normal esquecer o tempo – que ninguém tem – e sentar-se ao lado de alguém que sintoniza a sua energia com a nossa e inventar estrelas. Se calhar é por isso que, quando à noite me lembro de olhar para o céu, só veja, de quando em quando, uma estrela cadente. Nunca vi uma estrela a nascer, mas tenho a esperança secreta de um dia ser tão isenta de regras postiças, que o meu sonho projecte uma estrela no céu.
Não peço muito: uma só estrela e sei que teria sido feliz e teria feito feliz alguém – uma só estrela para ocupar o lugar da estrela cadente que morreu bela e sozinha, no final da sua tarde. Todos nós morremos assim, belos e sozinhos, porque não se pode morrer de outra maneira antes de nascer outra vez.

Capítulo 3

Depois dos aplausos, o que resta a um actor?
O silêncio, em duplicado, e o vazio inatingível da solidão. Todos nós somos actores. Eu sou actriz: desempenho o meu papel, procuro que no drama ou na comédia brilhe o melhor que há em mim, por vezes recebo aplausos, outras, continuo simplesmente a representar, porque há cenas que são infindáveis e nunca serão aplaudidas. Quando me recolho na casca, fico sempre com uma sensação estranha, porque à minha volta – no meu louco coração – há sempre espaço demais. Fico com a sensação que me sobra espaço que acabará por apodrecer, como a fruta madura na árvore. Mas é só mesmo uma sensação, porque o que o coração sente não pode degradar-se. Pode ser mal usado, pode ser amordaçado, pode ser desencaminhado, mas um coração será sempre o ninho da alma, o centro do nosso ser e, como tal, o que lá guardamos é indestrutível.
Mas porque falo da solidão de quem ama? É que amar, dar-se, é um acto solitário, que nos vicia e nos obriga a escolher. Entre tu e eu, eu não me escolho. Escolho-te a ti, porque és tu que me fazes agir, rir ou chorar.
Eu só existo em relação aos outros, mas serei sempre eu, sozinha, a escolher o quanto quero dar da minha força vital.
Tenho um truque que descobri, há pouco tempo e pratico, conscientemente. Fecho os olhos, viro as palmas da mão uma para a outra, a uma certa distância, depois deixo fluir a minha energia vital até sentir que entre as mãos se cria uma força, um fluxo de energia que me faz sentir um formigueiro crescente nos dedos. Depois imagino que essa energia se enrola até formar uma bola poderosíssima feita de luz. Nesse momento penso em alguém que gostaria de ter perto de mim, alguém que gostaria de curar, de ajudar ou simplesmente de ver. Então lanço a bola de energia para o espaço e sei, sem qualquer dúvida, que o meu Eu irá atingir aquele ou aquela em que pensei.
Nós não somos seres carnais a aprenderem a ser espirituais. Nós somos espírito – energia – temporariamente vestidos de carne. O que me constitui, o que sou, não tem barreiras. A força do que sinto, do que penso e quero, depois de nascer é imparável.
É um poder imenso este de saber que podemos tudo o que sonhamos. Posso fazer-me amar ou odiar, simplesmente querendo. Eu, sozinha, se o desejar, poderei penetrar as camadas do esquecimento e recordar que sempre fui alma, milhares de vezes, eternamente alma e que a força do universo me habita.
É por isso que não me assusta a solidão. É ela que me alimenta, me injecta a força que depois partilho com quem me cerca. Eu amo as pessoas, mas só as amo porque amo ainda mais a minha solidão. Não posso dar o que não tenho, por isso amealho, entendo, desvendo, aprendo e uso.
Amar é usar a força da vida para representar, com vontade, a peça que nos foi destinada. Os aplausos, esses, só poderão ser um estímulo para querer, ainda mais, a liberdade da solidão.

Capítulo 4

É muito fácil confundir sentimentos quando nos misturamos, gulosamente, com os outros. Hoje o que me fascina já não são mais os corpos, mas “aquilo” que os habita. Fascina-me a mente, a alma, o pensamento. Dá-me um prazer mais forte do que todo o erotismo, desvendar o olhar de alguém, mergulhar no ser, no sentir, no viver de quem me deixa espreitar o seu olhar.
Há quem não consiga fixar um olhar de frente, porque há olhos que falam mais do que todas as palavras, por isso é natural que nem todos se sintam à vontade ao resvalar no olhar de alguém. No olhar eu posso ler o código do coração e é precisamente a conquista desse coração que me fascina. O corpo é um pormenor que às vezes só atrapalha. Tocar, fisicamente, é restringir a liberdade ilimitada do sonho, porque quando possuo um corpo, deixo de possuir a alma. Passo a pensar que a alma também é minha, por direito, mas a alma só se tem, não a tendo.
É muito difícil ignorar a atracção que alguém me desperta. É raro mas acontece, porque não mandamos nos nossos sentimentos. Posso – e sinto – muitas vezes o desejo de tocar um corpo e um coração mas sei que se tocar o corpo quebrarei a magia que alimenta a energia do coração. Opto sempre por este último em desfavor do primeiro. É só a alma que me perturba, é só ela que eu quero envolver, beijar, possuir, por isso desenho um círculo à minha volta e resisto, ferozmente, à linguagem fácil é óbvia do corpo. Não a subestimo. Sei o poder que tem o meu corpo e sei o poder que dois corpos unidos podem ter. Mas eu quero tanto, tanto, que só prescindindo das distracções consigo alcançar o prazer supremo: a certeza de comunicar a um nível divino, fora do tempo e do espaço, onde só o espírito fala e consegue entender o que é importante entender.

Capítulo 5

É possível amar sem pôr condições? Amar sem preocupações de receber, amar sem exigir, amar porque não se sabe e não se quer outra coisa senão amar assim?
Quando dou o coração, detesto que mo devolvam. Detesto ser traída e que me decepcionem. Detesto que não dêem valor ao que dou e faço e esse detestar é uma prova envergonhada de que eu ainda não sei amar sem condições.
Por vezes sou capaz de o fazer, num acto impulsivo de generosidade, que explode em mim, como a rolha numa garrafa de espumante. São momentos intensos, em que me esqueço de mim e só penso numa dor ou num cansaço que não são meus. Momentos em que não espero nem quero recompensas, porque a melhor recompensa é sentir que quem estava mal ficou menos mal, só porque eu existo.
Mas no dia a dia não é assim. É muito difícil amar quem temos sempre a nossa lado. É difícil amar na rotina, na impaciência, nos pormenores. O fascínio do novo não existe em quem temos ao nosso lado. Existem outras coisas melhores, mas a rotina revela os nossos sentimentos reais e o nosso próprio ser: sem grandes encantos e com muitos defeitos.
Porque será mais fácil vermos os defeitos do que as qualidades dos que convivem connosco, alma com alma?
Mas eu estava a falar de trair. Não no sentido conjugal – lá chegaremos – mas no sentido humano. Chamar a alguém “amigo” é receber o reflexo invertido dessa amizade, e ser traído por um amigo é uma das provas mais duras a que a vida nos sujeita.
Ser traído deixa-nos vazios, escorraçados, com o coração sem sangue, sem vida, sem nada. É por isso que eu sei que não sei amar sem condições, pois ainda me dói a traição, ainda afecta o meu sentir. Não sou imune à desilusão. Não continuo a amar da mesma forma, quem me amou menos do que esperava. Se calhar a vida serve para isso: para aprendermos que o verdadeiro amor não se altera, quer seja aplaudido quer seja destruído. O verdadeiro amor «é». Nada mais.




Capítulo 6

“Tudo é amor… Tudo é amor. Com o amor vem a compreensão. Com a compreensão, vem a paciência. E então o tempo pára. E tudo é agora”. Brian Weiss
Quando estas palavras tocaram piano, dentro de mim, a dúvida desvaneceu-se: Vive-se apenas, para aprender a amar.
Nem tudo o que os outros dizem ou escrevem me interessa, mas há palavras, como estas, que me recordam algo de primordial. Algo que soube, desde sempre, mas esqueci. Algo que tem significado para a minha vida e, como tal, me toca na ponta mais recôndita de mim mesma.
Para “aprender”, ou “reaprender”, não sei bem, mas sei isto: viver é um treino, um treino de esgrima de paciência, um soltar as velas à liberdade e um recolher das emoções negativas. A mim falta-me a paciência e, sem paciência, o amor surge aos soluços, sem sequência e sem compreensão. Eu sei que o amor é permanente – por isso o quero adoptar – e a raiva e a revolta são transitórias. Preciso apenas de o gravar, na minha rotina, para não resvalar constantemente nas mesmas imperfeições e cair na armadilha da incompreensão.
Compreender é voar acima de ofensas e não deixar que estas pousem na nossa paz. Compreender é aceitar o erro, sem o condenar. Até o nosso erro. Principalmente o nosso erro. Hoje eu já não me desespero tanto, quando tropeço no erro. Há emoções que eu não controlo, há sentires que me possuem a contra gosto, há raivas que me atraiçoam, à socapa.
A paciência também implica compreensão, com as nossas falhas, até que a alma aprenda a não precisar delas.
Compreender. Esperar. Aceitar. Amar.
E a roda da vida está completa e “tudo é agora”.


Capítulo 7

Se tudo é agora, porque tem o passado um peso tão absurdo na nossa existência? Porque lamentamos o que já foi? Porque temos saudade do que já não vive no nosso presente?
Recordar é viver, dizem alguns. Pode ser, mas recordar só cheira a rosas, se esquecermos os espinhos.
Se o recordar avivar a dor, se a espicaçar, então é espinho. Se, pelo contrário, nos ensinar a lembrar com alegria, mas sem apego, é rosa. Mas as rosas são rosas, porque são flor e espinho. E a vida?
A vida é um novelo que se vai desenrolando. O passado é a linha que conduz ao presente e o presente é a linha que conduz ao futuro. Mas, só existe presente…
Se este momento em que penso e sinto for posta fora, vivi um momento a menos. Aqui, agora, já, é tudo o que tenho, logo amar é sempre uma acção presente e eu estou sempre a esquecê-lo.
Não se deve adiar o amor. Pode ser tarde demais. Não se deve amar no passado. Pode perder-se o presente. Amo no tempo, sem tempo, que é o segredo em que respiro e tenho consciência que o estou a fazer. O presente é essa consciência clara de que penso, sinto e sou no instante em que estou a pensar a sentir ou a ser.
É por isso que o passado me ampara, mas não me prende, e o futuro me atrai, mas não me convence. O tempo é o que queremos fazer dele e só temos o presente para construir a vida.
Quando eu souber praticar o que sei, mas não pratico como quero, terei alcançado a compreensão e começado a viver realmente.


Capítulo 8

Às vezes é cansativo viver. É quase hilariante olhar a minha vida, ver-me imersa em guerrilhas alheias que tento conciliar, em desesperos alheios que tento acalmar; em sofrimentos que me cercam e que alcança só à superfície, por muito que os tente alcançar, no seu fundo. A paz é um objectivo sempre adiado. Procuro-a desesperadamente, mas, depois de uns instantes de tréguas, resvala em mim a vida real espicaçando a minha paz e expulsando-a, à força.
À minha volta, vou procurando que reine a harmonia. Às vezes chego a engolir a raiva, como fel amargo que me deixa em carne viva, só para que a paz se mantenha, à superfície da existência.
Escuto, estendo a mão, digo palavras, dou conselhos. E sabes que mais alma minha? Carrego a cruz de ser considerada uma pessoa forte, segura, sem direito a fraquezas. Como se enganam os que vêm o que me cobre, mas não medem a profundidade do meu sentir.
Se eles soubessem a fragilidade que me veste, as lutas interiores que tenho de travar, as tentações que me atacam…
Quero ter o direito de ser eu; de admitir que choro, que erro, que sinto raiva, que me dói a indiferença, a injustiça e a ingratidão. Quero ter o direito de dizer quem sou, tal como sou.
Sem o direito à fraqueza, nenhum ser humano pode aspirar ao ideal da fortaleza e da humildade.

Capítulo 9

Se não fossem estes instantes de solidão que roubo ao tempo, o meu equilíbrio jamais recuperaria a energia vital que o sustenta. Adoro este silêncio da noite, quando tudo dorme à minha volta e o som inaudível da paz me aconchega a alma.
A solidão e o silêncio escolhidos, são tesouros sem preço. Quando tudo se cala, começa o meu coração a falar, a confessar mágoas, a aceitar desafios, a percorrer a via-sacra dos meus sentimentos e a ordená-los, um a um. Percebo, então, que só posso ter força se a for buscar a algum lugar, sem esforço e sem tempo. E o silêncio tem outra coisa, permite-me namorar comigo mesma. Eu sei que quando faço as pazes comigo, encontro força para as fazer com os outros.
Respiro fundo. Expiro lentamente. Paro. Escrevo. Fecho os olhos.
Já está: o vazio afastou a confusão e preparou-me para ir acumular energia positiva. Rezar serve para isso mesmo, para acumular a energia anímica no exercício de viver.


Capítulo 10


Que gloriosa revelação essa de saber quem somos. Tenho a sensação que mais de metade da população mundial nasce, vive e morre sem ter percebido quem é, ou melhor, que “é”. Nós somos. Eu sou e, saber que sou, admitir com a consciência esse facto, é um gigantesco passo na arte de viver.
Se sou, passo a ter muito mais vontade para o ser “bem”, para não ser qualquer coisa ao acaso, começo a perceber a dimensão infinita do meu ser, começo a colocar questões, a admitir o gigantesco ponto de interrogação que é o meu início e o que está para além do fim do meu corpo.
Este ser que eu sou é imortal? Eu acredito que sim. Acho que me conheço desde sempre, sinto que sou uma molécula de Deus, um ponto de energia em expansão, como os universos e as estrelas. O que sou é o que espelha a minha alma e me permite senti-la vibrante e imensa dentro de mim. Eu sou alma revestida de um corpo. Sou um corpo que cobre a alma e lhe permite sentir, tocar, rir e chorar.
Acho que sempre fui e sempre serei. Repetidamente. Se tenho medo? Para quê, se o circulo mágico da vida não se altera um segundo com o meu temor?
Não. Não tenho medo. Curiosidade sim. Uma fome insaciável de ir ao encontro das certezas que ainda não tenho. Uma vontade crescente, como o fermento na massa, de expandir até ao limite o conhecimento que tenho de mim e dos outros. Também tenho saudades de Deus, de onde parti em forma de energia, para regressar transformada pela experiência.
No fundo só vivemos para perceber quem somos e que a raiz desse ser só atingirá a sua realização se a entender. Aliás, para que serve existir se não chegamos a reconhecer quem somos?

Capítulo 11

É estranho como já consigo entender as emoções de uma forma radicalmente diferente do que fazia há uns anos. Hoje já não deixo que as emoções e as paixões me controlem e orientem. Hoje sou eu que as observo, como se não fossem minhas e lhes nego o poder de me indicarem um caminho. Não todas, mas uma boa parte. E com esforço. Sempre com esforço.
Já não sofro tanto por não ter o que quero. Já não me angustio na esperança vã de chamar “meu” ou “minha” àquele ou àquela que amo e não tenho. Prescindo do direito de possuir. Não quero que o fluir da minha missão encalhe num amor impossível ou numa perda irrecuperável.
Já não posso ser domada pela beleza nem conquistada pelos instintos. Hoje quero misturar a minha essência com outras essências, quero emprestar a alma e pedir emprestadas as almas que me cativam, mas não quero possuir nenhuma nem deixar que me possuam. Percebi que dizer algo como “não posso viver sem ti” é um imenso engano. Todos teremos de aprender, mais tarde ou mais cedo, a viver sem aqueles que amamos ou desejamos. Por isso continuo a querer o que nem sempre posso ter, a sentir saudade e a sofrer mas faço-o sem que o meu núcleo interior se deteriore. Se tenho, tenho, se não tiver, não tenho. A vida é muito mais do que os nossos desejos e expectativas. Acho que teremos de aprender, a bem ou a mal, que a felicidade não depende do que possuímos, mas da nossa capacidade de aceitar ter, ou não ter, com a mesma liberdade interior.
Uns chamam-lhe desapego. Outros indiferença. Eu chamo-lhe sabedoria de sobrevivência, mas tudo vai dar ao mesmo.




Capítulo 12

O rancor… bem, o rancor é inútil e doloroso. Dói mais a quem o sente do que a quem o causou, logo é uma dupla “pedrada” contra a mesma pessoa que sofreu um mal, vindo de fora, e responde a este com um mal, vindo de dentro. E mal é mal, seja qual for a justificação que o mundo lhe queira dar.
O rancor torna a alma míope, mesquinha e ressentida. Por isso me questiono. Qual a sua utilidade? Servir o nosso orgulho? Dar força às nossas queixas? Defender-nos do sofrimento? Ao contrário, para o perdão encontro imensa utilidade. Falo de mim, claro, dos outros não posso falar. Para mim, perdoar é uma forma de libertação radical. Expulsa a raiva, dá lugar à paciência e à compreensão, permite reatar laços, ensina-me a lição de humildade e oferece-me a paz.
Cada um escolhe o que quer na vida e responde, inevitavelmente, por cada escolha que faz. Eu sei que escolho a paz, a imperturbável calma do meu lago interior, por muito que as tempestades rebentem contra o meu casco. Sou navio, sim, mas se o mar exterior me afundar, sei – porque o escolho – que o meu navio interior é indestrutível. Lá, o lado do rancor não pode enferrujar os momentos serenos do meu crescimento interior. Sei por onde navego e sou senhora do meu leme!

Capítulo 13

Que luta esta, alma minha! Que esgotante vazio é este desejo de ser livre e nunca o conseguir ser completamente.
Cada acto que conduzo é filtrado por mil precauções impostas: tenho de saber ser amiga, mas com cautela, admitir perto do meu coração afectos diversos, mas não deixar que evoluam para emoções proibidas; tenho de marcar fronteiras, quando interiormente não as tenho; não posso abraçar quem quero, porque a inocência do meu sentir jamais seria entendida; não posso dizer sempre o que penso e sinto, com o risco de ser mal interpretada. E o pior é que cada vez é mais difícil calar o que quero dizer…
Quantos seres humanos terão a coragem de serem integralmente quem são? Porque há tantos tabus e preconceitos? Porque tem de ser “mal” o que não é mal dentro de mim?
Viver é uma grande confusão dualista: ou se ama demais ou de menos, ou se dá demasiado ou de menos. Tudo é demais ou de menos e eu não percebo porque não pode ser tudo equilibradamente central: para mim só é excessivo o que eu sinto que ultrapassa os meus limites. Não o que os outros decidem considerar um limite.
Só eu sei as minhas fronteiras. Só eu sei a verdade dos meus gestos e palavras, por isso abomino a hipocrisia das convenções. Não é por não agir de uma certa forma que uma alma se pode rotular de virtuosa ou pecadora. O pecado pode habitar invisível o coração de quem age virtuosamente. Eu posso sentir um poço de tentações sem actualizar nenhuma. Posso até dissimular os meus mais secretos desejos. Pergunto: só porque não se vêem, só porque não são conhecidos, serão os meus pecados interiores menos pecado?
Quando iremos todos entender a inutilidade de julgar as aparências e compreender que se nem os mais ínfimos pensamentos alheios somos capazes de desvendar, é pateticamente inútil a presunção de os julgar?
O preço da liberdade é a incompreensão. Só não sei se já estou preparada para o pagar…

Capítulo 14

As decepções. Como pesam… Projectos adiados, expectativas que caem, como folhas secas de Outono. Tristes, em câmara lenta, num adeus derradeiro à seiva do sonho.
E depois tudo se repete, maniacamente: novos sonhos, teimosos, insistentes, novas esperas, novas agonias, novas decepções e, de vez em quando, um triunfo entre mil derrotas.
Lutas, mil lutas contra o tempo e os contratempos. Desafios, como facas finas e certeiras, lascando a alma e deixando cicatrizes por cada derrota sofrida.
Mas não será isto viver? Esta tensão viciosa e infindável entre o nascer de um sonho e a sua morte certa? Ou será que viver é teimar em sonhar, mais do que temer a morte do sonho?
A balança dos vencedores, será para mim aquela em que as derrotas pesaram tanto ou mais do que as vitórias, mas não conseguiram, apesar de tudo, estrangular a nascente do sonho. Essa capacidade inata, indestrutível, de olhar cada perda como um contratempo e um estímulo ao recomeço. Sonhar é recomeçar do nada a construir o tudo. É construir um puzzle de mil peças e acreditar que a persistência, a força da alma e a coragem serão a bússola que indica o passo que se segue. Há sempre um passo que se segue. As decepções doem, sim. Doem muito. Mas desistir de sonhar é a decepção suprema, a derrota sem retorno, a única derrota que nunca admitirei assumir. Nunca!


Capítulo 15

Porque me assaltam pensamentos que não foram convidados e me deleito, inutilmente, com desejos que jamais deixarei sobreviver? Olho-me, sem culpa. Para quê a culpa, se o crescimento não se faz sem erros assumidos? Estranhamente não me culpo por sentir estes vendavais loucos, a uivarem na planície da minha alma. Sei que são miragens. Loucas tentações em forma de fantasma, filtrados pela minha consciência subsiste apenas esta curiosidade sem resposta, ao porquê desses assaltos à minha calma coerência. Como posso, de repente, desejar o que condeno? Como posso sentir esta ânsia esta forma insaciável do proibido que não aceitarei viver? Já sei: terei de tratar estes pensamentos loucos que me habitam, como pedaços de nuvens negras a taparem, momentaneamente o meu sol.
Não deixo que me atormentem. Não lhes dou essa confiança. Hoje mordiscam-me a alma. Às vezes arranham-na, eu sei. Mas não a aprisionam, porque não os solto na vida nem os deixo assumirem o comando das minhas acções.
As nuvens podem pairar no céu por muito tempo, mas não são capazes de esconder o sol para sempre…

Capítulo 16

Sou consciência. Cada vez mais consciência. Olho-me, de dentro para fora e meço emoções, assisto a mudanças, deixo que se desenrole o filme da minha existência enquanto vou navegando por entre escombros, perdas e conquistas.
Descobri, entretanto, que a consciência só se tem, quando sabemos que a temos. Quando estou a agir conscientemente, estou a ser senhora da minha direcção. Não são os instintos, o acaso ou a preguiça que me governam.
Sei que crescer interiormente é um acto de consciência… sou eu que, voluntariamente, procuro conhecer, busco a sabedoria, desvendo os mistérios que ninguém me pode desvendar. Aprendo o que não se ensina, porque a sabedoria encontra-se no acto de a buscar, mas só se enraíza naqueles que a querem encontrar.
A consciência de quem sou, do caminho que desejo seguir, das renúncias que escolho fazer, da sede de conhecimento que não deixo apagar, são os passos que me permitem ser senhora do meu destino. Ninguém mos dá, embora os estimulem. Não sou nada sem os outros, mas, e isso é o principal, não sou nada sem a consciência assumida e adulta de mim mesma.

Capítulo 17

Ainda bem que ninguém me pode ler facilmente. No sentido literal e no sentido figurativo. O que escrevo, estes arranques de vivências, são fragmentos meus que só eu tenho de entender. Sou eu que me espelho em mim mesma e vejo, microscopicamente, o tecido de que sou feita. Os outros vêm o que deixo que vejam. Mais nada…
Figurativamente não sou legível porque já me esqueci de ser criança e aprendi a tapar muitas das minhas emoções. Melhor ainda, cada vez mais consigo filtrar o que quero mostrar de mim mesma. Só deixo que me leiam a alma, aqueles que amo muito, ou aqueles por quem sinto uma empatia tão forte que não resisto à provocação de mergulhar nas suas almas.
É claro que é um risco, porque quando mergulho em alguém, a minha alma deixa, por momentos de estar na minha posse. Transfere-se para o corpo de alguém e, como dizem as leis da física, nenhum corpo pode tocar outro sem lá deixar as suas marcas.
As almas são corpos invisíveis, mas nem por isso menos fortes. A energia espiritual é a mais poderosa que existe, por isso ultrapassa em poder e mistério qualquer poder físico, palpável e visível.
E porque digo “ainda bem que nem todos me podem ler a alma?” – Por medo? Por fraqueza?
Não. Por pudor. Há pedaços de mim que são tão íntimos, que revelá-los a despropósito seria apresentar a minha alma nua, ao mundo que me rodeia.
O que somos, de bom e de mau, só é aceite incondicionalmente por aqueles que nos amam. Quem não nos ama não nos sabe interpretar, brinca com o que temos de mais sagrado e considerar aquilo que mais nos apaixona, como mera curiosidade.
Por isso ando a aprender a resguardar a alma. Dou-a, sim, mas não a dou à toa, porque “as pérolas não se dão a porcos” que as despedaçariam. A alma, quero dá-la apenas a quem sabe acolher e beber dela a força, e a energia do infinito que me habita. E, se assim for, então, dá-la-ei sem limites…







Capítulo 18

Ver sofrer quem amo, é a maior tortura que conheço. Não é o meu sofrimento, ou a minha doença, ou os meus temores que me afligem. Esses penso que dominarei sempre, enquanto mantiver a teimosa certeza que nada me pode destruir a alma, enquanto a entregar a Deus.
Já a dor dos que amo, é inatingível. O sofrimento físico e espiritual, as decepções, as traições e as injustiças que esmagam os que mais amo, são colapsos que me reduzem a um grão, mais pequeno que o grão de areia.
Posso rezar, posso chorar, posso enviar todas as minhas “bolas” de energia mental para quem veja triste ou derrotado, mas não posso trocar de lugar com quem sofre, sem sequer sei medir com rigor a profundidade desse lago negro.
Olho essa dor nas manifestações visíveis que a transcrevem, mas esse é o ponto do iceberg, porque a parte que não vejo é infinitamente maior do que a que enxergo.
Ver sofrer é um teste supremo de resistência que põe à prova todos os meus alicerces. E eu sei – porque sei – que se até essa prova de fogo servir para me treinar para o desapego, não será em vão. Nada é em vão. Nada acontece por acaso. Tudo tem um sentido, mesmo que escondido na atroz certeza que já só resta a dor.

Capítulo 19

E por falar em desapego – outra vez em desapego – esta é uma luta que tenho de vencer até ao fim dos meus dias.
Ainda há tantas emoções que me querem agarrar, como algas, no fundo dum rio, tantas vontades que teimo em domar, tantos desejos que bailam, à deriva, ma minha louca loucura. Um apego é uma prisão consentida. Pode até ser uma prisão saborosa ou desejada. Não importa, é prisão e, como tal, o portal da angústia, do desespero, da perda inevitável e da carência da liberdade.
Se não sei viver sem alguém, é porque não aprendi que só amo, quando não prendo nem quero ser presa. Posso desejar, posso sentir paixão, mas todos os desejos e todas as paixões são estados de euforia temporária. Até os desejos insaciáveis morrem. Só não morre a liberdade do amor.
Amar é olhar alguém e deixá-lo partir. Presente ou ausente, nada altera a força desse sentimento. Ama-se de igual modo quem temos ao nosso lado, como quem morre, porque o amor é intemporal, logo não está dependente de presenças ou ausências. Renova-se na dor gratuita, que não espero retornos. O apego não.
O apego exige, desconfia, tortura e desinquieta. Se um dia eu souber viver sem apegos, ganharei as minhas asas. E, então, voarei ao sabor dos sonhos, amarei a todos e não me acorrentarão ansiedades nem perdas, porque já nada mais poderei perder. No fundo, o desapego, é o antídoto que me permite matar a perda, antes que ela me mate a alma.

Capítulo 20

Já terei falado da raiva? Não sei o que já escrevi, porque a escrita só me prende no sentido ascendente. Não releio, não me deleito a espicaçar as feridas que a alma vai curando.
É por isso que me repito. Tudo o que é importante se repete, uma e outra vez.
A raiva perturba-me, porque é instintiva. É o atalho mais curto para se chegar a uma resposta. É pena que a resposta nunca me sacie, mas me esgote até ao limite do infinito.
A raiva pendura-me a alma, com pregadeiras, à corda das emoções. Deixa-me a bailar à deriva, ao vento da dor ou de imprevisto e obriga-me a por correntes à língua e ao pensamento.
Rouba-me a paz, desinquieta e espicaça os meus demónios, faz-me esquecer o amor e o perdão. E é nesse preciso momento que o amor me abandona, que me sinto impotente à força da raiva.
Porém, estranhamente, a raiva passa sempre. É uma emoção transitória, um furacão que se extingue, um uivo que se cala. O amor não. O amor é eterno e imortal, assim, entre os dois, não escolho o que é transitório.
Dobrar a raiva, vencê-la, conseguir elevar-me tão alto que as ofensas não ofendam, que as injustiças não doam, que as traições não ridicularizam a alegria é o objectivo primeiro e último que me proponho. Se atingir o topo deste sonho, terei dobrado as tormentas das emoções e ficarei imune à corrente da dor. Não da dor útil, que me alimenta e me faz crescer, mas à dor inútil e pobre que a raiva finge vestir de vitória.








Capítulo 21

Quantos centímetros de alma crescemos numa vida? Quantas vidas temos de viver até atingir a nossa real estatura?
Não quero respostas. Quero apenas o direito à pergunta. Se a pergunta persistir, com o empenho necessário, a resposta virá sem esforço, como a flor chega depois do botão. É tudo uma questão de paciência e de vontade. Eu sei.

Capítulo 22

Tenho de tentar entender a paixão. Não sei viver sem entender as coisas, os sentimentos, os ventos e as flores.
A paixão ultrapassa-me, engana-me, apanha-me desprevenida, nas esquinas das minhas convicções e apunhala de mansinho, a paz da minha alma.
É uma dor consentida mas desejada. É um desassossego sem tréguas, que me abraça dia e noite, noite e dia.
Como surge, assim de repente? Como pode um simples olhar desplotar uma explosão de energia tão forte que neutralize, como veneno de cobra, o poder de decisão, concentração e até a consciência?
A única consolação a que me agarro, como náufrago, é a certeza do seu carácter ilusório: por muito forte que seja, a paixão morre, como um tornado morre, no final da tempestade. Morre, sem glória. Morre sem história, tal como nasce sem história.
Durante a vida, quantas paixões congelamos por fora, enquanto nos queimam por dentro até às cinzas da alma?
Esta agonia de querer o que não se pode; de desejar até à dor física o que se rejeita conscientemente, é uma tortura indizível.
Paixão não é amor. Paixão é dor, é apego, é prisão. Reconheço-a, quando chega, invadindo todos os espaços, poderosa e arrogante, mas não sei como evitar. A paixão impõe-se, calca a razão, ignora todos os perigos. É doce, como vinho novo e, enquanto retalha a alma, injecta-lhe a anestesia do prazer.
A paixão não se deixa combater frontalmente. Não lhe posso dizer: “Vai-te embora. Não te quero”. Posso, sim, fechar-lhe todas as portas, encerrá-la dentro de mim, ignorá-la ou fingir que não a sinto, mas não posso evitar que apareça, como a chuva inesperada, numa noite de verão.
É o meu tormento silencioso, a que não dou voz nem asas, mas que esvoaça, encurralada e cega, contra as paredes do meu próprio coração. Deixo-a debater-se enquanto me rasga, até morrer de exaustão. Ela e eu, porque eu também morro sempre um pouco, quando uma paixão morre comigo.
Não a entendo. Não sei evitá-la mas sinto-a até a última gota de sangue. Sinto-a na pele, sinto-a nos cheiros, sinto-a em cada poro da vida. Vejo-a espelhada no fundo dos olhos que me enfeitiçam, apalpo-a na energia que se solta de mim, em ondas furiosas e inúteis. Só não a deixo vencer-me. Não sucumbo às suas exigências, não a deixo ser tão forte do que a minha força interior e nego-lhe o que mais quer: revelar-se ao mundo e transforma-se em acção.
As minhas paixões tornam-se eclosões, não explosões. Podem ser devastadoras mas só eu as conheço. Por fora, estranhamente, tudo parece normal. O meu ritmo, as minhas palavras, o meu sorriso, nada se altera. Por fora, não se lê, porque aprendi a escondê-la até do objecto que a causa.
As paixões, como as emoções, escapam à vigilância da consciência mas só se tornam reais se lhes dermos espaço para agirem. Aprendi que o sofrimento que causam é sempre maior do que o prazer que prometem. Se sou obrigada a senti-las, não sou obrigada a deixá-las controlar as minhas acções. Ao menos essa escolha é minha. A tentação vence-se só depois de ser reconhecida, por isso assumo essa tentação da paixão, como uma adversária do amor e, como a vida é feita de prioridades, escolho, desde já e para sempre, manter vivo o amor.
Mas o sofrimento, ah, como é impiedoso este sofrimento da luta. Mas não será a vida o meu teste de sofrimento contínuo?
Desconfio, já sem espanto, que sim…

Capítulo 23

Quando o corpo pára e o repouso o invade, quando o tempo não é medido ao segundo, mal resvala preguiçoso e sem pressa pelas horas que não obrigam a nada, fica esta sensação estranha de monotonia a pairar no meu descanso.
As férias são uma paragem repentina no ritmo frenético da minha vida e, estranhamente, deixam-me vazia, como se o descanso deixasse o corpo, a mente e o coração em ponto morto.
Tudo é mais lento, as emoções mais serenas, as paixões e as raivas (não serão as duas ramos da mesma árvore?) perdem o seu ímpeto e bóiam sem alvoroço nas ondas mansas do meu mar interior.
Estes momentos não me descrevem, tal como sou. A paz que procuro, não se encontra no tempo nem nos lugares nem na monotonia. A paz que persigo habita o meu lago inacessível, mesmo durante as lutas diárias. Amo a agitação que me impele e me obriga a dar sempre mais um passo, um passo mais além. Agora hiberno ao sol. É curioso que seja ao sol e não com o frio, mas é exactamente assim.
Rodeia-me o branco da areia, o sol, quente e anestesiante, o sussurro interminável das pequenas ondas mediterrânicas. Tudo parece quieto, imerso numa ausência irreal de conflitos.
Tudo é morno, suave e temporário.
Aliás, vejo nuvens no horizonte…


Capítulo 24

Volto a insistir: Quantas vidas terei de viver até aprender todas as lições? Será que uma vida chega?
Se uns morrem com cem anos e outros com um dia, que critério de justiça tem a vida? Onde estão as oportunidades iguais, se todas, estou certa disso, um dia teremos de chegar ao mesmo destino?
Céu ou inferno?
O que eu sinto instintivamente, o que me sossega e responde, é uma realidade que a maioria nega como heresia: eu sinto que viverei uma ou mil vidas, mas terei de aprender todas as lições. Sei, igualmente, que todas as lições se reduzem a uma única lei, a lei que todas as religiões defendem, embora com normas diferentes e em nome de diferentes Deuses.
A lei é o amor. O amor não é um sentimento liso, sem percalços. O amor é feito de mil ângulos e cada um desses ângulos representa uma característica que o define. O amor não é só doação, também é partilha, não é só paciência, também é exigência. Não é só serviço, também é poder. Saber conjugar, na medida certa, todos estes sentimentos, opções, certezas e caminhos conduzirá à descoberta do amor. Nesse momento, a missão terá sido cumprida e a roda da vida poderá parar de girar.
Não posso falar dos outros. Sei que cada um cresce ao seu ritmo e que não é útil nem lícito julgar esse ritmo. Cabe-me mudar tudo aquilo que sinto que não me ajuda a crescer, mas não me compete mudar os outros.
A única certeza que tenho é que não serei capaz de aprender todas as lições no espaço de uma vida. É esse o meu desafio e o meu grande desejo, mas só no final saberei até que ponto cumpri a missão que me foi destinada.
Creio, firmemente, que duma ou doutra forma nos será revelado o mapa da nossa vida no preciso instante que cruzamos o portal da morte. Ao menos já sei que a morte não é o fim e essa certeza é um dos grandes trunfos que me amparam na batalha da vida.
Não perco ninguém, não sou de ninguém, não preciso de ter medo de nada. Preciso, unicamente de amar o amor.
Se o fizer, terei vivido.

Capítulo 25

O que ainda não sei fazer?
Ter paciência. Amar com desapego. Ignorar a paixão. Prescindir do direito de ter sempre razão. Escutar o que não quero sem me perturbar. Esquecer o que perdoo. Ser fiel aos meus ideais.

Capítulo 26

O que sei fazer?
Alimentar a minha fome de crescer por dentro. Dar o melhor que tenho. Saber que nada é meu e aceitar essa verdade.
Olhar a morte sem medo. Ter fé no lado belo de tudo, a que chamo Deus. Agradecer o amor que recebo como uma prenda do mesmo valor.
Acreditar na força transformadora do optimismo e da esperança. Não desistir nunca de ser feliz.






Capítulo 27

A fé, gostaria de saber, é uma bênção, um privilégio ou um dom?
Se nasce sem parto, se é fácil, evidente, é um dom. Se chega com a maré-cheia, inundando sem licença todos os espaços, é uma bênção. Se não se quer nem se procura mas surge explicando ou consolando as jornadas da vida, é um privilégio.
Depois, há os que não a têm. Os que a procuram, a invocam, a insultam na esperança de uma resposta que não vem. Ter fé ou não ter fé não me parece uma escolha consciente. Não se pode crer no que não se acredita, e ter fé é ter certezas sem provas. É aceitar um aconchego que não se vê, e sentir força onde ela não pode existir, é sentir calma no meio da tempestade e prescindir da defesa do medo.
A minha fé é dom. Nasceu comigo. Não tenho mérito algum em a possuir, porque não a conquistei. Limito-me a agradecê-la, como um brasão de fogo e calar, no meio da tempestade da vida e espero – isso sim – poder usá-la para acender outras fogueiras e levar calor a outros corações.

Capítulo 28

É tudo tão efémero, tão curto…
O prazer, por exemplo, é sempre algo de escorregadio que nos sai dos dedos antes de o podermos agarrar. É intenso e curto. Passa. Repete-se (às vezes) e volta a passar.
O entretanto é a procura de o obter ou de saber viver sem ele.
Por prazer entendo tudo o que causa alegria: o amor, as ocasiões de festa, as férias e a companhia dos que mais queremos a nosso lado. Todo o prazer é feito de momentos. Momentos inesquecíveis, momentos únicos, momentos de euforia, mas apenas momentos.
A lição para mim é evidente: se a vida se compõe de desertos imensos, interrompido por oásis (os momentos) não nos podemos permitir perder nenhum deles.
Se amo alguém, amo-o o mais que posso, no momento que está a cruzar a minha vida. Se a alegria me visita, agradeço-lhe e convido-a a morar comigo. Se a companhia de um amigo enche de sol o meu dia, fico com ele até ao pôr-do-sol. Não adio a felicidade, só porque não a posso ter a tempo inteiro.
A felicidade é-nos dada, aos pedacinhos, para que saibamos dar-lhe o devido valor e não a engulamos de um trago. Depois, quando o sofrimento me visita, recordo-me que também ele é temporário, que as dores sucumbem, como as alegrias, ao ritmo lento mas seguro do tempo e que nada é eterno, a não ser a alma.
Tudo passa, tudo morre, mas tudo deixa impressões. A alma é o livro onde se vão registando todas as experiências, todos os momentos felizes, todas as lições aprendidas e todas as dores compreendidas.
Morrer é apenas escrever o capítulo final antes de entrar no momento eterno. É aí que espero poder chegar, sorrindo.

Capítulo 29

Fugir para onde, se a alma vem comigo? Onde acostar neste mar onde naufrago, por dentro?
Sinto a cabeça apertada, latejando ao som da trovoada que rasga o céu nesta tarde de Verão. O mar está demasiado sereno, pautado de verdes e azuis. O céu está negro, com uma energia contida que rebenta, de repente, num ponto incontido.
É estranha a chuva de verão. Cai grossa, real, mas ao mesmo tempo parece uma ilusão a mascarar o calor de Agosto.
Ás vezes sou assim: Uma tarde quente de Verão que se deixa disfarçar, por instantes, por uma tempestade. Fustigo as areias dos meus sonhos, corro por entre as vagas, deixo-me cair, de braços abertos, na terra húmida das emoções e planto, aí, nesse instante, os meus desejos insanos. Não como uma semente, mas como um velório.
Há sonhos que nascem para serem vividos. Outros nascem para serem enterrados. Esses sonhos, de que não consigo fugir, mesmo fugindo para milhas e milhas de distância. É este o meu destino: carregar a minha alma e todos os seus pesos na bagagem do meu crescimento. Carregá-la pelos dias e adormecê-la à força, nas noites de insónia.
Embalá-la, de mansinho, até que morram as tormentas, até que se calem os ventos, até que reste apenas o cansaço de uma luta vencida, como uma praia deserta e limpa, depois de vencida a tempestade. Ao longe vejo o azul do céu por entre uma nesga de escuro e sei então, que o azul vencerá sempre o negrume das nuvens, tal como o sol nasce sempre depois duma noite escura, tal como o sofrimento sucumbe sempre na alvorada da esperança.




Capítulo 30

Cada vez mais tenho esta sensação esquisita de ter milhares de anos. Não a digo num sentido negativo, mas constatando que me sabe bem, que me completa a sabedoria dos que já viveram muito. Não me conformo com o que não posso mudar, mas já não me revolto por isso. Não julgo os outros, simplesmente porque me é claro que, dadas as circunstâncias e as oportunidades, nenhum ser humano (a começar por mim) é isento de erros e pecados. Não me aterroriza a ignorância, a falta de fé, a pobreza interior, porque sei que cada um cresce a um ritmo diferente, mas terá, inevitavelmente de crescer.
Dói-me a injustiça, a crueldade, a estupidez, mas todo o mal que os homens fazem não consegue obscurecer a muita certeza do bem e do seu início que é Deus.
É por isso que, interiormente, me sinto com milénios de existência e quero, cada vez mais, entrar nesse sentimento cósmico, unitário, integrante, que é a certeza de que todos caminhamos para um mesmo fim.
O que hoje não entendo, amanhã fará sentido. O que hoje me revolta, amanhã será uma lição. O que hoje perdi, amanhã será a bússola que me permite estabelecer prioridades de amor. Os meus erros, os meus desejos, as minhas quedas assumidas ou evitadas – felizmente muitas são evitadas – serão trampolins de crescimento interior, serão coordenadas que me permitem orientar as minhas emoções e os meus sentimentos.
Vivemos apenas para aprender. Não ensinamos ninguém. São estas as duas verdades que já alcancei e ninguém me poderá roubar. Crescer por dentro e somar anos não é necessariamente envelhecer. Se os anos trouxerem luz à ignorância e à instabilidade então são fontes de juventude. Ser jovem como pensam muitos, não tem valor se se limitar o conceito à agilidade física, à beleza ou à irreverência e irresponsabilidade. O que me atrai na juventude é a paixão dos ideais, a pureza e a inocência de cada escolha que se assume – se ser jovem não representa a abertura ao novo desafio e criatividade, então, mesmo que o corpo fale de juventude, a alma está senil.
Só a força fortalecida de uma alma lhe confere juventude. Só as lutas que levam à sua descoberta e a procura de um sentido no caos da vida lhe conferem a grandeza. Ser grande não é, necessariamente, um acto exterior. É, sobretudo, um processo sereno, que aceita, que entende, que procura, que não se conforma, que resiste ao derrotismo, que combate o pessimismo, que é magia, alegria, encanto, para dentro, sem aplausos, sem espectadores.
Sobretudo, ao olhar o puzzle que representa a vida, começa a sentir que muitos peças se encaixam, como por acaso (e não há acasos!) mas espaços vazios de outrora. Hoje tudo parece ter mais sentido, mesmo a falta de sentido, as crises de fé ou de coerência.
Não tenho nada. Aceito os desafios. Acredito que em mim reside o poder para os vencer. É então que encontro Deus, não fora de mim, mas no meu centro, aninhado e moldado na forma da minha alma.
Então percebo que sou única, que a minha missão é só minha e que serei o que escolher ser.
Não o posso transmitir claramente aos outros. Há sentimentos que não se transmitem, porque as palavras não os abarcam na sua totalidade. Há lições que só se aprendem vivendo-as experimentalmente. Falar de mal, de amor, de sofrimento, de alegria, de morte ou de renascimento, só é uma linguagem inteligível para quem os experimentou.
Assim, não devemos lamentar nada, mas devemos procurar aprender com todas as situações da vida. As boas e as más. E agradecer, sobretudo agradecer, porque uma alma que cresce e sente que o está a fazer, não pode fazer outra coisa. Não pode ser indiferente e a indiferença, afirmo-o, é a raiz de todo o mal, é o sustentáculo da ignorância e o adubo de todas as prepotências, fundamentalismos e faltas de amor.
Aceito tudo, menos a tranquilidade das indiferenças.

Capítulo 31

Quando me pergunto – e chega sempre a altura de perguntar: o que queres Tu de mim, meu Deus? Que esperas do meu nada, das minhas dúvidas, das minhas infidelidades?
A resposta fica sempre pendurada num vazio que não é vazio, num sentido que não entendo, mas posso vencer se disser: “Faz de mim o que quiseres”.
Não é fácil entender Deus, ou melhor, só se pode entender Deus no mistério, renunciando a defini-lo ou aprisioná-lo num conceito restritivo. Deus não é – não pode ser – o que os homens dizem dele. Há demasiadas tentativas patéticas – algumas tristes e até cruéis – de o prender a um conceito.
Deus é. Nada mais. Eu dizia que não é fácil entender Deus, mas não é menos difícil entender o que somos e o que é esperado de nós. Se a nossa missão é amar, logo viver é um exercício, a todos os níveis, de desvendar o amor. E como praticar o que não conhecemos? Como ensinar o que não sabemos? Olho à minha volta. Sinto o sol quente nos meus ombros. Ouça o arrulhar do mar, como mil pombas ao anoitecer. O céu funde-se com o mar num azul contínuo, mas desigual e tudo é paz.
Mas eu sei que a paz que me rodeia não habita todos os lugares, tal como o azul não é dum só cambiante. Os momentos, as circunstâncias, os homens, tudo constitui a roda que tece a história triste ou alegre da humanidade.
No meio deste imenso tapete eu sou um ponto minúsculo. Ninguém me vê, mas estou lá e é importante que eu saiba que só eu ocupo o lugar que ocupo.
Se o meu ponto se quebrar, poderá dar origem a um buraco no tapete. Os homens terão de aprender que somos um todo e que toda a nossa individualidade é aparente. O que penso, o que digo e o que faço, tece a contextura dos outros pontos que me rodeiam. Mais importante ainda: eu dou origem a outros pontos que partem de mim tal como eu parti dum ponto anterior.
Talvez a minha missão seja permanecer fiel a essa certeza e procurar transmiti-la aos que me rodeiam: não somos seres aleatoriamente lançados à vida. Somos parte de um esquema cujo início não conhecemos e cujo fim não adivinhamos. Nós somos sempre o centro da história, o presente que a tece e dirige.
E será preciso mais? Não bastará a certeza dessa missão e a procura de a viver com coerência? É isso que queres de mim, meus Deus?
Esperas que eu entenda e aceite e diga sim? Só te posso prometer que vou tentar. Direi sim sempre que o coração me permitir e, nas vezes que disser não, permite-me acreditar que terás a paciência de esperar que eu volte a dizer sim.
Se Tu, que és Deus, conheces o barro imperfeito de que sou feita, não tiveres a misericórdia paciente do perdão para me oferecer, o que poderás esperar que eu ofereça a quem me rodeia?

Capítulo 32

Não convencemos ninguém pelo que dizemos. Damos origem a acções, pelo que fazemos. Vou dar um exemplo. Vi um dia um exímio escultor de areia a construir um castelo. Não era um castelo qualquer, mas uma obra-prima de pormenor e beleza.
À sua volta as pessoas agrupavam-se, maravilhadas com a perfeição da sua obra. A beleza, como todos sabemos, atrai como a chama atrai a borboleta. Muito depois da obra terminar e do artista ter partido, a obra manteve a sua posição. Os adultos contornavam-no com respeito e até as crianças que gostam de tocar para ver (literalmente) sentiam um pudor instintivo que não lhes permitia estragar a pequena grande obra.
No dia seguinte uma criança tentou construir um castelo igual. Imperfeito, é certo, mas parecido, uma imitação esforçada de copiar o original. Mais à frente uma outra criança fez uma tentativa semelhante. Enquanto observo essa realidade, constato que o que fazemos leva sempre a uma resposta.
Podemos não ter intenção de a provocar, mas ela surge inevitavelmente tal como as ondas dão origem a outra onda. Nada é inútil; nenhuma acção é invisível, nada do que façamos de bom ou de belo pode evitar a cadeia de reacções que irão gerar outras obras belas ou boas.
É por isso que sou optimista. Acredito sempre na capacidade da ser humano de se superar e procurar construir castelos perfeitos mesmo que pareçam efémeros.
A vida também pode parecer efémera por ser curta, mas se cumprir a sua missão, se levar outras vidas a sentirem entusiasmo, fé ou alegria não terá sido em vão, tal como o castelo de areia não foi em vão, ao levar uma criança a reparar na sua beleza e na paciência da sua concepção e, assim ter sentido a motivação de repetir a experiência de criar.

Capítulo 33

Todos temos os nossos demónios que nos assaltam, implacavelmente, quando menos contamos. Os meus são sempre os mesmos ultimamente. Sim, porque é preciso deixar claro que quando vencemos uns, apresentam-se outros. Cada idade tem os seus demónios próprios e cada alma atrai uns, mais do que outras.
Uns sei vencer, com a força das convicções, com a consciência ao auto-demónio. Outros visitam-me em sonhos, abraçam-me pelas costas, enquanto me apunhalam a alma e a anestesiam.
Não gosto de falar deles, porque me deixam vulnerável. Fazem-me perceber que não domino toda a minha interioridade, que não controlo todos os meus desejos, porque não oriento todas as minhas emoções.
É muito estranho, mas muito real. Um desses demónios é alimentado pela vaidade e faz-me sentir num impulso quase incontrolável para cativar, como a aranha, os que me rodeiam.
A necessidade de apreço é um demónio que leva a muitos abismos: à sensualidade, ao desejo de aventura, à procura constante de ganhar terreno, conquistar espaços e corações.
Não importa que eu não chegue a concretizar nenhum – ou poucos – dos meus desejos menos lícitos, mas a vontade permanece e é ela que me assusta.
É por isso que considero a paixão um adversário. O pior de todos e porque desafia e quebra todas as minhas bem montadas defesas e penetra insidiosamente o meu pensamento. Sei que sou muito mais frágil do que aparento ser. Sei que preciso de travar uma luta estóica e diária contra cada um dos meus demónios escondidos, porque só assim evito que ganhem espaço e se instalem nas minhas acções.
Penso que a loucura é a invasão permanente de todos os demónios reunidos na mente de alguém. O pior é que não há a esperar nada de bom de qualquer um deles. Nada. Prometem, mas exigem um preço impagável por qualquer das suas concessões.
E a minha luta solitária continua, porque só eu me conheço – e não totalmente – e só eu posso escolher combater ou sucumbir às minhas limitações. Só eu, orientada pela fé, pelos outros, pelo amor, posso escolher o meu caminho. Se ao menos não existissem tantos demónios… se ao menos eu soubesse voar, como as andorinhas para longe do frio e do Inverno, para uma Primavera eterna de liberdade e de luz!...
E, no entanto…o que seria viver sem paixões?

Capítulo 34

“Non foras ire: in interiore homine habitat veritas… a verdade habita dentro de um homem. Ele não precisa sair para encontrá-la”. Esta é uma das tais frases que, ao embater na minha interioridade desperta mil sinos que não param de tocar. Cá dentro mora a verdade. É por isso que fugir, mudar cenários, ausentar-se da dor ou do medo, não muda a paisagem da nossa alma, antes a encobre, como as nuvens de tempestade encobrem, temporariamente o sol.
Cristo dizia que não deveríamos procurar o Reino de Deus aqui ou acolá, porque esse Reino está dentro de nós.
Se a verdade nos habita, se Deus é a verdade, logo somos habitados pela verdade de Deus e convidados a compreendê-la e a encontrá-la. É claro que por vezes me parece ridículo olhar para o meu interior e tentar descortinar essa verdade. Qual é a verdade? Os meus sentimentos ou a minha razão? Os meus desejos ou a minha consciência treinada e os meus códigos de comportamento? E, contudo, sei que a resposta não me poderá ser dada, mas apenas encontrada. A verdade já existe, tapada, defraudada, esquecida, talvez, mas viva dentro de mim. Então viver torna-se um percurso de retorno à minha verdade esquecida, um longo e suado caminho de peregrino que se dispôs ao risco de procurar, renunciando à segurança de saber o que vai encontrar no final da jornada.



Capítulo 35

Se alguém um dia me lesse, abanaria a cabeça e diria, provavelmente, que sou um amontoado incoerente de emoções contraditórias. E, contudo, sinto que esta aparente incoerência é isso mesmo: aparente. Tudo fará sentido, mais tarde ou mais cedo.
Sem correntes contrárias a empurrá-lo, como pode um navio testar a sua resistência?
Hoje acredito que as grandes almas não viveram pacificamente, mas foram testadas com todos os tormentos. Passaram da noite, para o dia, testando o medo, questionando a fé, delineando os seus limites e chorando com raiva as suas perdas e culpas.
O percurso de uma alma inteira só se faz fragmentando a vida. Não vivemos numa planície verdejante, onde os caminhos são direitos e as veredas limpas. Vivemos no fio da navalha, rodeados de precipícios, de crateras fundas e negras, tapadas por nuvens fofas e enganosas.
Viver é saber sobreviver às nossas maiores loucuras.
É encontrar um fio de razão e luz no meio do confuso emaranhado de outros fios negros e escorregadios.
É ousar ir mais longe do que a promessa fugidia do prazer e da adulação.
É dizer não quando o nosso corpo grita que sim.
É insistir em amar, quando só resta vazio e cansaço.
É vencer a indiferença inventando pormenores de alegria.
É olhar um sonho triste e transformá-lo em algo maior.
É decifrar a dor por trás da tentação fácil.
É renunciar à paixão, estupidamente ou corajosamente – não sei – em nome da liberdade que nem sempre se quer ter.
É tudo isto, e muito mais do que sei ou posso dizer.
Afinal, ainda estou no início da minha jornada para escalar a montanha da minha vida e o pico está longe, muito longe, ao alcance da minha fé, mas fora da minha vista.

Capítulo 36

Estados de alma não se têm sempre. Tem-se, às vezes, quando a alma se palpa, quando está presente, quando espreita para fora da superfície estagnada da nossa rotina e presta atenção a um pormenor.
As almas adoram pormenores. Vibram com um sorriso, aninham-se como gatos, no colo do carinho, espreguiçam-se gostosamente ao som de uma música com sons eternos, comovem-se com o pôr-do-sol; enchem-se de luz quando encontram na presença de um amigo ou de um grande amor.
As almas são mimalhas é bom de ver. O seu berço é o amor, pois foi aí que foram concebidas. É por isso que, quando nascemos, todos somos pedaços perfeitos de Deus. Depois esquecemo-nos. Aprendemos a cobrir a alma com capas de medo, de raiva, de dúvidas, de inseguranças. E a alma hiberna, porque se não pode ser ela mesma, não pode ser nada.
Hoje a minha alma está a sorrir. Meditei, deixei que a energia superior de Deus invadisse cada poro do meu corpo e, depois, submergisse a alma. Tudo é paz, harmonia e bem-estar. As conquistas são sempre estados de alma. A alegria, a felicidade, o amor, a paz não nos são dadas de fora. São descobertas, ou reencontradas – para ser mais clara – a partir de dentro. Tudo o que é essencial existe programado em nós desde o princípio do universo.
As premissas da evolução, os segredos mais profundos, o poder de conduzir toda a energia, estão codificados e guardados na alma à espera de serem descobertas.
Uns vivem uma vida inteira sem usarem o depósito do poder que os habita. Outros despertam para essa dimensão numa determinada altura da vida, quando são postas em causa as suas seguranças, e outros procuram, com uma sede que não se apaga, a sabedoria interior que nos leva de volta à alma, a Deus e à verdade que existe em estado latente nos pormenores da vida.
Tudo são estados de alma para quem sabe que tem uma. Para os outros – os que a têm e não sabem – tudo são conquistas, ganhas ou perdidas, vitórias ou derrotas. A alma, essa, sabe que tudo são experiências, que não existe certo ou errado, possuído ou possuidor, porque todos os binómios são caminhos de aprendizagem. No final a alma está sempre só. Vai e vem, tantas vezes quantas precisar, pelas experiências do crescimento até atingir a maturidade.
Quando aprender a conhecer-se profundamente, o ser humano chegará à conclusão que tudo é alma. Tudo conduz a ela, tudo a justifica, tudo a engloba.

Capítulo 37

Hoje aprendi que deixar partir quem amamos, não me priva da sua presença. Curiosamente a ausência de quem amo fala ainda mais alto do que a sua presença física. O amor vive cá dentro, onde as memórias se guardam e se agigantam no momento do adeus.
Quando parte um amor, fica a sua alma colada à nossa, fica um fantasma que não se pode exorcizar, fica o desejo do reencontro, fica a urgência insaciável de remoer lembranças e alimentar memórias. Fica a saudade também e é ela que guarda a chave do coração que parte. É ela que se encarrega de aparecer, nos momentos mais impróprios, exigindo atenção.
O maior poder que alguém pode ter sobre o nosso coração é fazê-lo sentir saudade. Eu sei que é assim, porque é isso que estou a sentir…

Capítulo 38

Ser feliz é olhar a nossa vida, sem vergonha dos erros, aprendendo lições e tendo um objectivo. Ser feliz é olhar tudo o que fomos e somos e sentir que nada foi inútil, que o investimento no amor cresceu e deu frutos eternos. Ser feliz é estar tão cheio, por dentro, que já não assusta morrer…

Capítulo 39

Não gosto de me sentir assim – insegura, com um bater de asas louco e assustador dentro de mim. Não sei se é angústia, se é inquietação. Não sei sequer o porquê, mas adivinho-o na ausência do silêncio que me cerca. Todos falam. Há muito barulho, palavras a mais, sons que ecoam outros sons. Que saudade da solidão, do meu espaço não invadido, da paz interior que me isola de tudo e de todos.
Não me sinto perdida, apenas inquieta. Sei que este sentimento é temporário, que tudo na vida é temporário. A raiva acaba, a angústia desfaz-se como o fumo, as lágrimas secam, o desânimo cicatriza.
Tudo passa embora doa até esgotar as últimas gotas de sofrimento. Mas não agora. Não neste momento em que me sinto encolhida contra um muro de asas pretas que esvoaçam como morcegos e me bebem o sangue da alma.

Capítulo 40

Se um amigo não aceita que não concordemos com ele, que lhe apontemos um erro, que lhe digamos “não”, o seu coração não é tão ligado ao nosso como parece, porque está centrado sobre si mesmo e não aceita invasões.
Para mim um amigo pode dizer tudo porque, se for amigo de verdade, não diz nada a mais e nada a menos. Diz o necessário, da forma como é capaz. Di-lo com o coração, sem desejo de ofensa. Diz a verdade, mesmo que doa e prefere ser mal compreendido do que omisso.
Sofro muito quando um amigo me vira as costas ou vê veneno nas minhas atitudes. Por um amigo dou sangue e lágrimas, dou riso e tempo. Dou tudo o que posso e sei. Como aceitar sem mágoa, que essa oferta de mim mesma seja calcada ou travada?
Dum inimigo aceitamos as piores ofensas sem espanto. Podemos sentir raiva ou ódio, mas não esta dor mansa e certeira que um amigo nos pode causar.
Só os que amamos têm o poder de nos atingir, porque só eles moram no nosso mundo interior como hóspedes permanentes. Talvez eu tenha de treinar mais o desapego, até ser capaz de não me perturbar nem mesmo com o adeus de um amigo.

Capítulo 41

Cada vez mais sinto esta certeza fininha, este sopro estranho e bom, que me diz que é cá dentro, no santuário do meu espírito que se encontra o tesouro da realização. Sou feliz desde sempre, posso apenas esquecê-la, mas não ignorá-la.
É por isso que as únicas relações não condenadas à desilusão são as relações entre espíritos. O amor da carne, o apego, a paixão ou o desejo não saciam a fome da alma que quer mais do que um simples preenchimento momentâneo. Sim, amar com o corpo é uma forma sublime de dar a nossa energia e de receber energia de alguém. O que há de mais próximo da perfeição. Mas não chega. Sozinha, essa entrega, não chega.
Eu quero a alma, quero beber dela, deixar noutra alma a minha impressão digital, semear memórias, ser um marco, abraçar sonhos e alimentar outros sonhos que não são meus.
Quero tecer laços indestrutíveis, invisíveis e eternos.
É por isso que, quando amo, prefiro amar um amigo. Alguém que não exija o meu tempo ou o meu espaço, porque já o tem. Alguém que não me prenda nem me faça sentir desespero, angústia ou ciúme.
Quero amar sem amarras, quero pensar em alguém, mesmo que não esteja presente e sorrir nesse pensamento. Quero partilhar a alma, dar sangue do meu viver, entregar as chaves do meu afecto e não exigir retorno.
A vida não tem sentido se se pautar por obsessões ou amores doentios. Não quero chorar por não poder ter quem quero a meu lado. Não quero a tortura de amar quem não pode ser meu. Limito-me a purificar esse amor e aceitá-lo, como aceito o sol e a chuva, a terra e o mar. Procuro que o meu interior faça parte do quadro de alguém e que algumas pinceladas sejam marcas, sinais, pontos e beijos que ofereço sem esperar colher proveitos.
Cada vez mais sinto este apelo a viver para dentro, a entrar nesse universo fascinante da minha mente e perceber que tudo o que é importante mora lá. Não exijo exclusividade de mais nenhum coração. Não possuo nem sou possuída. Dou e não ponho condições.
Sinto que é este o caminho inebriante da liberdade e rio e salto, feliz como uma gaivota a sobrevoar o mar. Sei que o mar é meu, que está ao meu alcance, mas não preciso de provar que sei voar e que sei mergulhar. Basta sabê-lo e possuirei todo o poder do universo, mesmo que só o silêncio ou a solidão pareçam habitar-me.


Capítulo 42

Não se pode crescer à pressa. Há um momento para tudo, até para acordar para dentro.
Rodeiam-me pessoas que só vêm as capas de existência e esquecem o seu âmago. Há quem viva sem saber – ou sem querer saber – que é habitado pela eternidade.
Mas não tem importância, pois cada um chegará ao destino comum por seus próprios pés.
Todos cruzamos vidas alheias e deixamos lá as nossas pegadas. Pode não parecer, mas todas as nossas acções e pensamentos, todas as palavras de amor ou de ódio atingem um alvo. Assim não adianta lamentar o aparente fracasso das nossas bem intencionadas palavras. Um dia farão sentido e darão os seus frutos, mesmo que já não estejamos deste lado da vida para o constatarmos.
Cada um cresce ao seu ritmo e não vale a pena querer apressar o ritmo de uma alma que quer ser caracol. A seu tempo tudo fará sentido.

Capítulo 43

Outra vez esta raiva inútil, este galgar desenfreado da alma contra muros de apertos, desencantos, gritos oclusos e uma impaciência profunda e venenosa que me engole a alegria.
Detesto sentir-me assim, sem paz, inquieta, olhando o mundo de soslaio, desconfiada e triste.
O convívio pacífico com aqueles que nos rodeiam no trabalho e em casa é dos mais difíceis que existem. O confronto só surge quando todas as capas foram retiradas e não temos vergonha de ser quem somos.
Com aqueles que nos conhecem., somos mais facilmente agressivos, antipáticos e desdenhosos. Criticamos, voltamos costas, cobramos, sentimos ira.
Curiosamente só nos conhece bem quem vive ao nosso lado ou partilha o ar que respiramos. Para os outros somos paisagem, um arvoredo verde e camuflado que quer esconder as manchas interiores e só revela o lado belo e simpático da alma, não o feio e contorcido.
Hoje estou num dia não. Senti-me apertada, penso que fui injustamente atacada e o meu coração indomado revolta-se porque ainda não é maduro o suficiente para ser imune a desilusões.
Eu sei qual é o caminho para a paz, mas não me decido a segui-lo. O desapego, a ausência de rancor, o ceder terreno e prescindir de justas exigências só é acessível às almas de calibre superior. Aquelas que aprenderam a ser pacientes, humildes e serenas, como eu gostaria de ser, mas ainda não sou.
Acho que vai ser a luta da minha vida , esta de vencer a minha própria natureza e pôr-lhe freio. Detesto que me contrariem, que orientem os meus passos à força, que subam degraus calcando a minha cabeça.
Se me provocam continuo a reagir sem um controle superior de todas as emoções negativas. Quando as expulso, através deste escrita furiosa que me sai com a sofreguidão das ondas num dia de tempestade, acalmo um pouco o espírito e relaxo. Deixo que o pensamento se aquiete e olho com um pouco de lógica o meu lado irrazoável.
Afinal as crises e os desafios só servem para testarmos a evolução do nosso crescimento interior e para delinear os nossos limites.
Tenho ainda muito para aprender. A montanha da vida, cujo cume anseio por atingir, realmente ainda está muito longe do meu alcance. Felizmente sei que está lá e me espera paciente. A vida vai esperando por nós e Deus não desiste de o fazer nunca…
É reconfortante sabe-lo. Ainda assim, é bom saber que amanhã outro dia nascerá.

Capítulo 44

O segredo da vida, o único segredo que abre as portas da luz, que nos dá asas para voar até ao coração de Deus e da eternidade é saber ver. Só as coisas simples, as vivências normais, os pensamentos, desejos, afectos e escolhas que fazemos e que nos fazem interagir com o mundo dos outros nos levam à compreensão.
Ver é compreender. È não rotular nada como certo ou errado, é aceitar que não há castigo nem recompensa, apenas consequências.
Hoje a minha alma está presa a afectos que não compreende. Por isso sofre.
Para mim a incompreensão é um caminho de sofrimento, é um tropeçar às cegas, por entre vivências e escolhas. Há sentimentos que nascem em nós sem serem entendidos e nos escravizam como o desejo, o apego, a paixão, a obsessão, o ódio. Cada um deles é um tormento, uma prisão.
Hoje sinto a alma encurralada. Não sei para que lado fugir, não sei como me libertar desta ânsia, deste mundo profundo e envolvente dum afecto que me roubou a paz. Pensar obsessivamente em alguém, deixá-lo morar em nós como hóspede permanente, é perder a neutralidade e deixar que o terreno sagrado da nossa paz interior seja invadido.
Estou cansada, mas é preciso ver, desmistificar esta emoção, reduzi-la à sua real importância e deixá-la nua de trunfos.
Não me apetece chorar. Não sinto tristeza, apenas nostalgia, saudade e uma inquietação miudinha que me faz desejar o que não tenho nem posso ter.
As lutas, as maiores lutas, são sempre batalhas internas e invisíveis com a nossa consciência. Ver também é isto; identificar a causa da nossa perturbação e aceitá-la até que morra de tédio. Não se pode combater uma emoção, porque reprimida só ganha força.
O melhor é olhá-la de frente, entender a sua força, deixar que nos atravesse o nosso ser, tal como uma onda imensa onde se deve mergulhar e da qual não é sensato fugir.
Olhar e ver. Ver e compreender. Compreender e alcançar a liberdade. É este o caminho…

Capítulo 45

A vida, este sopro momentâneo, é sempre curto e longo demais. Longo no sofrimento, na espera da dor e na impotência, mas curto, fugaz, nos momentos de exaltação e pura felicidade.
Tudo são momentos, mas uns – os dolorosos – parecem mais longos do que os outros – os felizes. Eu sei que é ilusão. Sei que até o sofrimento é uma escolha assumida, mas nada nos preparar para amar a dor da perda, da morte e da caducidade.
Não tenho medo de morrer. Já o afirmei e volto a afirmar, mas não consigo ficar sabiamente serena perante a morte dos que amo ou, simplesmente, perante a ameaça de os ver doentes ou a sofrer.
Disse alguém que “amar é dar a alguém o poder de nos causar sofrimento”. Amar tem sempre de ser assim tão doloroso? Eu sei que amar é garantir a alguém que terá um estatuto permanente no nosso coração, mas como abraçar também a ausência? Como olhar quem não foca nem devolve o nosso olhar? Como falar para o vento e chorar sem que nos deixem as lágrimas? Amar, acredito, só é possível por uma questão de fé e de loucura.
Mas, quem não ama, mesmo que seja durante o sopro duma existência, será que vive de verdade?

Capítulo 46

Tantas lutas, tanta dor,
tantas perdas magoadas,
tantas lágrimas entaladas,
perdidas, inutilizadas
a chover dentro de mim!

Às vezes, paro e escuto.
Ouço memórias felizes,
segredos que me contaram,
relembro risos, abraços,
pressinto o som de passos
nas raízes do meu ser.

Crescer é deixar partir,
é perder e é ganhar,
é guardar o que é bom
e nas horas mais sofridas
aprender a confiar

E na hora da partida,
quando a morte chegar
espero só gritar à vida
que não temo nem lamento
pois vivi só para amar


Capítulo 47

Hoje sinto saudade, essa palavra portuguesa, que só os portugueses sabem dizer.
Saudade é uma dor serena, consentida, amada.
Saudade sente-se porque quem parte, por uma recordação, por alguém.
Dói cá dentro, aperta a alma, cria ilusões visíveis de algo que não se tem.
E por isso é bendita.
Com ela quem morre revive, entre lágrimas e sorrisos à mistura.
Memórias serenas, sons, cheiros, são invocadas do fundo da nossa mente e renascem inteiras, no palco da vida.
Que saudade sinto da minha avó e do tempo em que me sentia segura ao olhar para os meus pais, considerando-os imortais. Tenho saudades da infância, das horas longas, sem fim, que somavam os meus dias. Saudades do entardecer com a família reunida à volta da mesa, do barulho feliz, mesmo nas zangas, dos hábitos vulgares e amados duma casa, igual às outras, mas que será sempre diferente, porque era a minha casa.
Saudades do tempo que eu queria crescer e ser “grande”, de tantos sonhos idiotas, de ser criança a valer.
Hoje, nada é assim. Não é pior mas é diferente. Já não olho as seguranças considerando-as seguras. Sei que perder é uma lei incontornável, aprendi que até a dor mais triste – a da morte dos que amamos – terá de ser aceite sem revolta, porque viver bem não é possuir, é prescindir de se sentir preso.
Mesmo assim abençoo a saudade. É através dela que construo a minha história, que adubo as minhas raízes, que não deixa partir de vez quem parte. E há outra coisa que só pode entender quem a sentir: só começamos a medir com exactidão a presença de alguém, quando a sua ausência nos cerca. Se, por estar ausente, se torna mais forte e persistente o pensamento que nos liga a uma certa pessoa, amamo-la com saudade.
A conclusão é simples: só sabemos o quanto amamos pela saudade que sentimos.
Abençoo-a sim, porque amaldiçoa-la seria condenar ao esquecimento os bocados de vida que permanecem acesos dentro de mim, muito depois de se ter apagado a luz que lhes deu origem.




Capítulo 48

Sabes como me sinto hoje, alma? Como se tivesse sido varrida pelas ondas do mar e ficasse sem pegadas na areia. Semeei pequenos búzios no areal, construí castelos de areia, fiz ruinhas com pedras brancas e, depois, convidei os que me rodeiam a brincar na minha praia. Uns não puderam vir, outros não gostam de brincar, outros olharam, lá do alto, a praia da minha alma e abanaram a cabeça com desdém.
Há gente grande que não sabe brincar e pensa que as coisas muito sérias só podem ser ditas de uma forma muito séria. Por isso não gostam de histórias, nem de palavras simples, nem de coisas tontas, nem de ideias novas.
Sentei-me sozinha na praia, encostei a cabeça nos meus joelhos, abracei as minhas pernas nuas e chorei.
Foi então que o mar, cansado de me ver ali sentada, com a alma enfeitada mas não partilhada, enrolou uma enorme onda que lambeu os castelos, os búzios e as pedras brancas.
Limpou também os meus passos, os meus pensamentos, as minhas expectativas. Varreu tudo até que a areia voltou a ficar lisa e colada, sem histórias para contar.
É assim que está a minha alma, hoje. Nua, sem história, cansada e dormente.
Mas é só hoje, porque amanhã sei que voltarei a construir mais castelos, a procurar mais búzios e a semear mais pedras brancas na praia que me habita. Amanhã…


Capítulo 49

Estranho este olhar o mundo e sentir, claramente que tudo são momentos. Passos, caras, burburinho. Momentos. O céu escuro, onde a chuva está presente, sem se manifestar ainda. O céu da noite, segundo a segundo, numa inevitabilidade sem pressa. Os meus pés a pisarem as pedras da calçada, num ritmo certo e cadente. O balançar do meu corpo esconde apenas a minha alma. Tudo são momentos: as alegrias, as dores, as vitórias, as desilusões. Tudo, menos o amor.
Olho o céu da noite uma vez mais e sei que todos os esforços do mundo unidos, não seriam suficientes para trazer de volta a manhã que já passou. E, contudo, para quê procurar a manhã que já não existe, se a noite dará lugar, de novo, a outra manhã?
Este rodar sereno e inevitável da eternidade escreve apenas os nossos passos em direcção ao amor. É por isso que a alma se reveste de carne. É só por isso que despe e veste vidas até aprender o que é importante saber.
Tudo, a seu tempo, fará sentido. Os erros, as revoltas, as injustiças. Tudo são lições, reservatórios de experiências que codificam a alma no caminho da verdade. No fim de todos os momentos está o cume do tempo, o resumo e explicações de todos os pedaços e horas de risos e lágrimas. No fim de tudo está Deus, que espera. Todos nós somos movimentos ascendentes de energia que peregrinam para Deus. Para Deus que nos habita no único lugar onde raramente vamos: o centro do nosso coração.

Capítulo 50

Entupi-me nas palavras. Sinto-as perto e tão longe, que só o pensamento as alcança. Quando estou assim, sinto a alma atafulhada e entupida de palavras, e sinto uma inquietação estranha, um formigueiro que me percorre e me atormenta a alma.
Penso na vida e sinto-me cada vez mais desligada das suas rotinas. Existo, como, durmo, trabalho. Encontro pessoas, rio e choro, mas parece-me que nada é muito real.
Não levo a sério o excessivo envolvimento com os assuntos do mundo. Tenho de conviver em terras pacíficas com o mundo das coisas e das pessoas, mas sei que tudo é um sopro, uma ilusão. Sei que este tempo, a que chamamos vida, é uma mera interrupção na minha eternidade.
A morte já não me choca, apenas me dói porque não sei controlar a saudade. Não me assusta morrer, nem me destrói ver morrer.
A minha eternidade, que as palavras entupidas não explicam, é algo de imenso, muito maior do que a interrupção a que chamamos vida. Tudo são momentos, fugazes sensações, emoções que vão e retornam. Tentações que venço ou me vencem. Alegria. Dor. Perda. Desapego. Um circulo vicioso errante e efémero que parará, um dia, às portas da vida eterna. A vida só começa depois da morte, por isso, nascer é morrer momentaneamente para a vida eterna e morrer é começar, de facto, a viver.

Saturday, October 20, 2007

Voar como a águias

Quero renovar-me e voar, como as águias!

Ultimamente, e por várias razões muito minhas, tenho pensado no acto de «voar» como sinónimo de liberdade. Não a liberdade no que tem de corriqueiro (todos se afirmem livres, embora poucos o ousem ser, de verdade), mas na sua dimensão interior, no que tem de «violento» e renovador. A liberdade de alma, que nenhuma amarra física ou mental pode aprisionar. A liberdade no que tem de solidão: eu ao encontro de mim mesma, num diálogo que permite assumir escolhas difíceis, descobrir rotas alternativas, recusar apegos e, por uma questão de qualidade de vida interior, apostar na certeza da alegria, mesmo que tudo, na prática, a pareça contrariar.
E, ao pensar assim a liberdade, como um «voo», para dentro, imagino uma águia, a rainha das aves, de asas abertas, a planar alto, muito alto no céu, abrangendo com o seu olhar toda a terra e não apenas uma porção dela. Quando estamos na terra temos uma visão reduzida do mundo. Vemos apenas o que está à nossa volta, a uma dúzia de metros. Vemos tudo condicionado pelas circunstâncias. Para ver bem uma paisagem, na sua totalidade, precisamos de nos elevar, de sair do nosso território conhecido e arriscar subir mais alto, mesmo que cause medo, mas só assim é possível ver todos os ângulos da realidade. Só assim podemos perceber o que queremos ou do que gostamos realmente.
Na vida temos, por norma, a tendência de ver tudo demasiado perto, logo sem a perspectiva total. Reagimos por impulso, ou hábito. Escolhemos baseados em medos e crenças de falsa segurança. Vivemos presos a inúmeros preconceitos, a certezas calculadas. Julgamos e somos constantemente julgados. Ficamos no nosso território conhecido, sem correr riscos. Pensamos pequeno. Comportamo-nos como águias presas num galinheiro. Águias que não aprenderam a voar. Águias que não sabem usar as asas – às vezes nem sabem que as têm. No entanto somos águias, todos nós, e podemos sempre aprender a voar. Se nos dermos ao trabalho de ser felizes…
As pessoas, no geral, e no que toca a escolhas, alternam períodos em que se comportam como galinhas, a esgravatar a terra dos mesmos hábitos esgotados, da mesma profissão desgastante, da mesma relação sem vida, presas ao passado, presas a traumas, a desilusões, a medos, com períodos inspirados em que ousam arriscar mudanças, dar passos loucos, sentir o gosto da liberdade nas asas e voar…como as águias. Nessas alturas ousam começar de novo, ousam fazer o que nunca fizeram, ousam ser mais fortes que o velho cliché do pessimismo. Ousam ir onde as leva o coração e os sonhos. E aprendem, só assim, a distinguir a diferença entre o sabor inesquecível da felicidade e o sabor morno e sem sal de uma vida rotineira e acomodada.
Mas a liberdade tem um preço. Um preço alto. A incompreensão, a critica, a solidão. Implica a teimosia de não desistir de viver a vida pela nosso cabeça, não pelo que os outros dizem ou acham que devemos fazer. Implica arriscar. E implica perder batalhas… mas quem um dia experimenta o voo livre da águia, como pode conformar-se em viver apenas como uma galinha? No entanto acontece todos os dias. Preferirmos esquecer que somos águias e retomar, por opção, a vida «segura» das galinhas. Os que se arriscam a ser águias e assumir que o são, não julguem, porém, que serão felizes para sempre, ou que podem criticar as galinhas. Na vida todos têm o direito a ser o que desejarem ser. Se calhar há galinhas felizes. Além disso, a vida não é justa, seja para as águias seja para as galinhas. A vida é apenas um risco que se assume ou se nega e as consequências de qualquer escolha, constituirão, no final, o saldo, positivo, ou negativo de qualquer existência.
Curiosamente, enquanto estas ideias voavam em mim, «caiu-me do céu» um pequeno livro com o título «Voando como a águia». Sorri, por mais um acaso incrível, e fiz o que era inevitável: li-o em poucas horas. De tudo o que li há uma história que resume quase tudo o que gostaria de dizer. Ser uma águia, na vida, não é sinónimo de sucesso garantido. As águias também se cansam, perdem força, voam sem convicção. Por isso até as águias precisam de parar e recolher-se ao ninho, para poderem aferir as suas rotas e renovar as suas forças, ciclicamente.
Quando sentimos que chegámos a um ponto de estagnação na vida, sendo águias (já nem falo das galinhas, pobrezinhas, pois essas normalmente estão condenadas a terminar a sua vida segura, transformadas numa canja…) há que pensar como renovar as forças perdidas e ganhar animo para novos voos. E as águias sabem que esse momento chegou quando o seu presente se resume a recordar os voos do passado, sem força para voar no presente. O passado, passou. Não há glória nas recordações. Há apenas recordações que valem, ou não, a pena ser guardadas. Não há glória no futuro. Ele não existe. Há apenas a certeza do presente, do que posso fazer aqui e agora para mudar o que já não me serve, para renovar o que tem de ser renovado.
Deixo-vos com a história (fictícia, mas belíssima) que serviu de mote a este artigo. Que se tornou, para mim, um excelente guia para gerir as mudanças difíceis, mas libertadoras, que precise de fazer na vida. Porque, garanto, não me conformo a viver como galinha, mesmo sabendo que as águias, para o serem até ao fim, pagam a sua liberdade com sangue e dor. Quero, custe o que custar, renovar-me, a cada novo ciclo, como as águias.
«Conta-se que a águia chega a viver setenta anos, porém, para chegar a essa idade, precisa de tomar uma séria e difícil decisão. Aos quarenta anos, as suas unhas estão muito compridas e flexíveis e já não conseguem agarrar as presas que lhe servem de alimento. O bico, alongado e pontiagudo, curva-se, apontando para o peito. Voar torna-se muito difícil porque as asas estão envelhecidas e pesadas por causa da grossura das penas. Nesta situação, a águia só tem duas alternativas: deixar-se morrer, ou enfrentar um dolorido processo de renovação que irá durar 150 dias.
Este processo consiste em voar para o alto de uma montanha e lá se recolher num ninho que esteja próximo de uma escarpa. Um lugar de onde, para regressar, ela necessite fazer um voo firme e pleno. Ao encontrar esse lugar, a águia começa a bater o bico contra a escarpa até o conseguir arrancar, enfrentando corajosamente a dor que essa atitude acarreta. Durante algumas semanas nessas condições, ela espera pelo nascimento de um novo bico. Depois disso, com o bico novo, ela vai arrancando as suas velhas unhas, uma por uma. E quando lhe nascem unhas novas, com as unhas e o bico ela arranca as penas do seu corpo.
Quando nascem as novas penas, a águia está renascida e sai, então, para o voo da renovação. Recomeça a viver por mais trinta anos.
Na nossa vida também podemos fazer um processo de renovação. Para conseguirmos voar o voo da vitória, precisamos de nos renovar, libertando-nos do peso do passado, mesmo que isso doa muito e nos tire sangue do peito»
Posto isto, quer escolha viver como uma águia, ou como uma galinha, perceba que a escolha é só sua, para o bem e para o mal, e que ninguém tem nada a ver com isso,
mas lembre-se que, pior do que perder, arriscando, é viver recordando e lamentando oportunidades perdidas, com asas penduradas e murchas, como andorinhas sem uma primavera… o pior mesmo, digo-o baixinho, em segredo, é viver uma vida que nunca chegou, realmente, a ser VIDA. A sua VIDA…

Quem Morre? (Pablo Neruda)

«Quem morre?»

Morre lentamente
Quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa
com quem não conhece.

Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um
redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu
trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de
um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente,
quem passa os dias a queixar-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.

Morre lentamente,
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que
sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço
muito maior que o simples fato de respirar.
Somente a perseverança
fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.



Este poema de Pablo Neruda, que me fascina, talvez seja o retrato mais perfeito do que considero um grito pela vida.
De facto, morre lentamente, quem se recusa a viver. Morre sem graça, sem mérito, sem cicatrizes mas igualmente sem marcas felizes. Morre lentamente quem nunca arrisca a segurança podre do que tem, para poder perseguir um sonho novo. Quem se conforma com prisões impostas, quem não ousa quebrar os grilhões dos preconceitos sociais e, por cobardia, conforma-se eternamente com o mesmo emprego gasto, a mesma relação gasta, a mesma rotina gasta...mesmo que a oportunidade lhe bata à porta e lhe grite : «Estou aqui..ousa ser feliz!»
Ninguem pode ser feliz na nossa vez, decidir na nossa vez, sofrer ou ser feliz na nossa vez. Há coisas na vida que nunca se podem ensinar, embora se possam aprender. E aprender a não morrer lentamente é a única forma de poder estar realmente vivo. Quem morre? a resposta é radical: basicamente quem se recusa a viver....

Outro olhar sobre a morte

Não tenho medo de morrer. Tenho apenas medo de não viver, enquanto vivo. De viver morta. De perder oportunidades que nunca mais voltam, por cobardia, ou por preconceitos. Por medos, por «ses» suspensos na alma...
Tenho medo, porque já perdi pessoas que amava, que adoravam viver e partiram, antes do tempo. Partiram sem ter vivido muitos sonhos interrompidos.
Tenho medo de não viver as relações mais significativas da vida com o amor que elas merecem, porque já sei como dói a saudade de perder a oportunidade de dizer: «Eu amo-te, tal como és». Sei como queima a saudade de não poder ver, tocar, sentir a proximidade física de além que partiu para a eternidade.
Não tenho medo de morrer, porque já senti a morte a rondar-me e percebi que é apenas um nome. Algo que termina mal nasce, levando a nossa energia vital para outra dimensão. Acredito na imortalidade da alma, na certeza de uma continuidade, mas sei que a oportunidade de viver com um corpo é um dom, um presente e não apenas um acaso. Hoje percebo que ambos: corpo e alma, precisam de alimento.Tal como sei que um beijo sem corpo é uma miragem e que um beijo, sem alma, é uma mentira. Por isso quero ambos, corpo e alma, VIVOS....
Um dia, quando morrer, gostava de ter vivido com tanta intensidade e liberdade interior que pudesse ter o direito de deixar esta mensagem,cuja autoria é atribuída a um nativo americano desconhecido, na minha sepultura:

Não pares junto à minha campa a chorar,
Porque não estou lá.
Não estou adormecido.
Sou os mil ventos que sopram,
Sou o brilho do diamante na neve,
sou a luz do sol, na semente madura,
Sou a chuva branda de Outono.
Na quietude macia da luz matutina
Sou a ave que voa veloz.
Não pares junto à minha campa a chorar,
Eu não estou lá,
Eu não morri.

Friday, October 19, 2007

Não quero este Mundo perfeito

O Mundo Perfeito – Khalil Gibran ( O Louco)

«Deus das almas vagabundas, deus fugido dos deuses, atende-me. Tu, destino que proteges espíritos loucos e errantes como o meu, escuta-me.
Vivo no meio de uma raça de homens perfeitos e eu o mais imperfeito de todos os homens; eu, um caos humano, uma nebulosa confusão, movo-me entre mundos perfeitos, entre povos regidos por leis exemplares, que seguem uma ordem pura, de pensamentos catalogados, de sonhos ordenados, de visões inscritas e registadas.
As suas virtudes, meu deus, estão medidas, os seus pecados estão calculados pelo seu peso e medida e até os inumeráveis actos que acontecem ao crepúsculo, o que não é pecado nem virtude, estão registados.
Aqui, os dias e as noites dividem-se em períodos exactos, e as estações são governadas por normas de precisão impecável. Comer, beber, dormir, cobrir o corpo e depois cansar-se. Tudo a seu tempo. Trabalhar, jogar, cantar, depois entregar-se ao descanso, tudo na hora que o relógio determina. Pensar e sentir de modo definido e programado depois de pensar e sentir quando certa estrela sobe no longínquo horizonte. Roubar o vizinho com um sorriso, dar uma prenda com gesto gracioso, louvar com prudência, censurar com cautela, destruir uma alma com uma só palavra, queimar um corpo com um sopro e a seguir lavar as mãos depois de cumprida a tarefa diária.
Amar de acordo com a ordem estabelecida, divertir-se segundo o que se combinou, adorar adequadamente os deuses, enganar o diabo com artifício e depois esquecer tudo como se a memória tivesse morrido.
Imaginar com um fim determinado, projectar certas considerações, ser feliz com discrição, sofrer com nobreza depois de esvaziar a taça para no dia seguinte poder enchê-la de novo.
Todas estas coisas, meu deus, estão concebidas com previsão, criadas pela vontade, mantidas com cuidado, governadas com regras, dirigidas pela razão e depois mortas e enterradas. E até os seus túmulos salientes que moram na alma humana têm cada um número e marca. É um mundo perfeito, um mundo de excelência consumada, um mundo de coisas supremas e maravilhosas, o fruto mais maduro do Paraíso, o pensamento que rege o universo.
Mas porque tenho eu de viver nele, meu Deus? Eu que sou a imatura semente de uma paixão insatisfeita, louco vendaval que não vai para Oriente, nem para Ocidente, fragmento aturdido de um planeta que sucumbiu envolto em chamas?»


Cada idade nos traz novos desafios. Alguns são como espinhos que se enterram na carne, como uma dor miúda e contínua que nada nem ninguém é capaz de apaziguar. Mas uma dor escolhida, assumida…procurada.
Descobri que sei coisas que não preciso e que não sei muitas que preciso. Descobri que de tudo o que aprendi, interiorizei, apregoei, resta pouco que me sirva. De repente sinto-me espartilhada, como se andasse há muitos anos a vestir uma camisola que não é minha. Será que é por ter assumido que sou «louca»?
Só pode ser, porque quem não é louco enquadra-se no mundo, aceita a sua perfeição e rege-se por ela. Eu já não consigo.
Sou rebelde, gosto do que não devo, nego o que outros aceitam, aceito o que outros negam. Não me escandalizo. Não julgo. Entendo o que ninguém entende. Não sei ser perfeita …e não quero. E não gosto de pessoas perfeitas. Gosto de pessoas loucas, que assumem a sua loucura e são como são.
Quero ter o direito à imperfeição, à descoberta, a cair e a levantar-me por mim, a secar o sangue que me escorre em cada queda, mas jamais a negar a sua marca. Quero a vida em estado latente, não como um projecto que alguém fez para mim.
Este mundo nasceu selvagem e perfeito até os homens, para descanso da maioria, terem descoberto as leis, as regras, as instituições, os partidos, as religiões e, em nome de Deus e da Sociedade decidirem, para bem de todos, estabelecer que ninguém pode ser diferente do estereótipo que foi moldado e aprovado. A mesma camisola para todos os tamanhos seja a alma um gigante ou um anão...
É este o preço da perfeição...
E tu, Deus, não te sentes prisioneiro nas máscaras que o homem inventou para ti? Tu que entendes os opostos porque és feito deles, aceita-me como sou. Curiosamente, sei que me entendes… quando nem eu consigo entender-me, quando me sinto assim, afogada neste mar cor-de-rosa de imbecilidade colectiva. Sei que entendes os meus cambiantes, loucos, de cinza e vermelho e percebes que, por muito que o deseje, não consigo assumir e acreditar, no que já não acredito...sei que me entendes, louca e imperfeita, numa procura incessante de respostas que mudam como as marés e os ventos...como a vida...

Thursday, October 18, 2007

O Louco...

Temos duas alternativas na vida: usar máscaras e fazer os outros acreditarem numa versão ou outra do nosso ego: o lado lindinho, o lado interessante, o lado que interessa divulgar, ou prescindimos de máscaras e ficamos com a alma nua.
E somos, evidentemente, olhados como «loucos», porque ser o que se é, atrapalha, escandaliza, pode criar constrangimentos.
Há um preço e um prémio para ambas as atitudes: quem usa máscaras é escravo da imagem falsa que cria, paga com perda de liberdade o que ganha em «boa» opinião alheia. «Aqueles que nos compreendem fazem de nós escravos»...
Além disso, fingir o tempo todo é algo que desgasta como ácido. Corrói a alma. Quem é louco e não usa máscaras, seja amado seja odiado, vale apenas pelo que é. Não pelo que inventa ser. O que perde em termos de exposição da alma, ganha em liberdade interior, porque não depende da aprovação ou desaprovação alheia. É precisamente aquilo que deseja ser...contra tudo e contra todos.
Khalil Gibran, no seu livro «O louco» retrata bem esta mensagem. Vou partilhá-la com quem me lê, dizendo que estou a aprender a ser «louca»...mas é muito mais difícil do que eu imaginava...


«O Louco

Sabem como fiquei louco?
Há muito tempo, muito antes de terem nascido os deuses, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas.
As sete máscaras que tinha fabricado meticulosamente tinham desaparecido. Sem nenhuma máscara, saí a correr para a rua a gritar: Ladrões! Malditos ladrões!
Todos se riram de mim, mas alguns fugiram e fecharam-se em casa com medo.
Quando cheguei à praça principal uma criança que estava sobre o telhado de uma casa gritou: "olhem, é um louco!"
Voltei a cabeça para a ver e o sol encontrou pela primeira vez o meu rosto nu. O sol iluminou ao mesmo tempo o meu rosto e a minha alma.
A partir desse dia nunca mais usei máscara, e agradeço todos os dias aos ladrões que me a roubaram.

Agora que já sabem como me tornei num louco posso confessar-lhes que encontrei muita liberdade e segurança na minha loucura. A liberdade da solidão e a segurança de nunca ser compreendido (aqueles que nos compreendem fazem de nós escravos).
No entanto, sei que não posso orgulhar-me demasiado da minha segurança, pois nem o ladrão encarcerado está livre de encontrar outro ladrão. »