Khalil Gibran é um escritor que me fascina. Pela sensibilidade. Pela profundidade e pela forma inesperada e desarmantemente simples como fala de coisas difíceis. O livro que mais gosto é «O Profeta». Poderia transcrever o livro inteiro, mas não o farei. Vou pegar em capítulos, em extractos e pensar alto, como gosto de fazer.
O profeta representa um sábio intemporal que responde às questões dos que desejam aprender os segredos da sabedoria. Quando o questionam sobre a razão e a paixão, ele respondeu assim:
«A vossa alma é muitas vezes um campo de combate onde a vossa razão e o vosso juízo travam batalha contra a vossa paixão e o vosso apetite.
Gostaria de ser um artesão da paz na vossa alma e de poder converter em unidade e em harmonia a discórdia e a rivalidade dos vossos elementos.
Mas como poderei eu consegui-lo, se não fordes vós mesmos artesãos da paz, e amantes de todos os vossos elementos?
A vossa razão e a vossa paixão são o leme e as velas da vossa alma navegante.
Se as vossas velas se rasgarem ou o vosso leme se romper, mais não podeis fazer se não andar aos balanços, à deriva, ou ficar imóvel ao largo dos mares. Pois a razão, governando sozinha, é uma força restritiva; e a paixão sem controlo é uma chama que queima para vossa própria destruição.
Possa então a vossa alma exaltar a vossa razão até à altitude da paixão e que ela cante; e possa ela, pela razão, governar a vossa paixão, e que a vossa paixão viva pela sua própria ressurreição quotidiana e, qual Fénix, se eleve acima das suas próprias cinzas.
Gostaria que tivésseis para com o vosso juízo e o vosso apetite a mesma consideração que, entre vós, tendes para com dois hóspedes queridos.
Por certo não honraríeis um mais que o outro, porque o que tem mais respeito por um perde o amor e a confiança dos dois. Quando, entre as colinas, vos sentais à sombra fresca dos brancos álamos, partilhando a sua paz e a sua serenidade com os campos e os prados distantes, que o vosso coração diga então em silêncio: «Deus repousa na razão».
E quando a tempestade se anuncia e o vento poderoso abana a floresta e o trovão e o relâmpago proclamam a majestade do céu, que o vosso coração se recolha então e diga. «Deus move-se na paixão.»
E uma vez que sois o sopro na esfera de Deus e uma folha na floresta de Deus, também deveis repousar na razão e mover-vos na paixão.»
Não há muito mais a dizer, eu sei. O que eu tenho a acrescentar é uma mera reflexão, porque em mim paixão e razão lutam a cada minuto para se imporem. Talvez o segredo da harmonia não esteja na luta, mas no equilíbrio entre duas forças iguais.
Razão e paixão. As duas faces de uma moeda. Ambas habitando em lados aparentemente opostos da vida, mas tão complementares, como o dia e a noite.
Sem o leme da razão, não seria possível o equilíbrio, a coragem de um «não» ou de um «sim» na hora certa, a força de ir em frente, quando tudo nos puxa para trás. A razão devolve equilíbrio às emoções, apazigua os excessos, acalma os impulsos.
Mas, viver só de razão seria um cárcere. Seria tirar a humanidade ao homem.
A paixão pela vida, por um ideal, por uma pessoa, é o mais poderoso dos estímulos na vida. A paixão é como a seiva que enche a árvore. E se Deus repousa na razão e na paixão, ganhamos a certeza que cada ser humano é feito de luz e sombra e que ambas estão isentas dos julgamentos de certo e errado. Ambas são o que são e valem por isso mesmo. É nos opostos se joga o centro de tudo.
É possível, estou certa, ser um apaixonado da vida, com o coração a vaguear no universo, e ter os «pés» bem assentes na terra. Difícil, difícil mesmo é ser alquimista e saber, a cada instante, qual é a dose certa de razão e de paixão que a vida nos convida a misturar…
Tuesday, October 16, 2007
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