Sunday, October 14, 2007

O Principezinho

Tudo aquilo em que investimos, cresce. Aquilo em que deixamos de investir, murcha ou morre...

Tenho andado a resistir, mas não consigo evitar muito mais pegar num dos livros que mais me seduziram e encantaram. «O Principezinho» de Antoine de Saint-Exupéry.
Como se comenta algo que só se pode entender, lendo e sentindo na primeira pessoa?
No entanto tenho de o fazer, porque a minha frase de vida é «O essencial é invisível aos olhos» e eu própria tenho de parar, e perceber porquê.
De todas as páginas fantásticas deste pequeno grande livro, a parte que sempre me marcou mais foi a história da raposa e do principezinho. Para quem não conheçe a história, o principezinho chegou de um pequeno planeta, de visita ao planeta terra. Vinha sedento de amigos, de aprender, de crescer. Trazia na memória um amor especial: a única flor que existia no seu planeta. Uma rosa que ele julgava ser única no universo. A rosa que ele considerava um tesouro. Contudo, ao chegar à terra, ele descobre um campo coberto com milhares de rosas. Milhares...
E descobre,também, com agonia, que afinal a sua rosa era uma entre muitas. Afinal não era especial, pois não?
E é a partir daqui que entro no livro e o deixo com as páginas que mais gosto, antes de lhe dizer o que me vai na alma:

«Depois de ter caminhado durante muito tempo e de só ter encontrado areia, rochas, e neve, o principezinho acabou por descobrir uma estrada. E as estradas vão dar aos homens.
- Olá, bom dia! - disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Olá, bom dia! - disseram as rosas.
O principezinho olhou para as rosas e viu que todas se pareciam com a flor dele.
- Quem são vocês? - perguntou-lhes, estupefacto.
- Somos rosas - disseram as rosas.
- Ah! - exclamou o principezinho.
E sentiu-se muito infeliz. A flor dele tinha-lhe contado que era a única da sua espécie no universo. E afinal ali tinha cinco mil, todas iguais, só num jardim.
«Muito vexada ficava ela se visse isto...»,pensou. «Nunca mais havia de parar de tossir e, para escapar ao ridículo, punha-se a fazer de conta que estava a morrer. E eu lá tinha de fazer de conta que tratava dela porque, senão, era bem capaz de se deixar morrer mesmo a sério só para eu também ficar humilhado...».
E depois ainda pensou: «Julgava-me muito importante por ter uma flor única no mundo e, afinal, tenho uma rosa vulgar. Com ela e com os meus três vulcões que mal me chegam ao joelho - um dos quais, se calhar, extinto para todo o sempre - sou, de facto, um rico príncipe...» E desatou a chorar, deitado na relva.

XXI
Foi então que apareceu a raposa.
- Olá, bom dia!- disse a raposa.
- Olá, bom dia!- respondeu educadamente o principezinho, que se virou para trás e não viu ninguém.
- Estou aqui, debaixo da macieira - disse a voz.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou tão triste...
- Nao posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou.
- Ah! Então desculpa! - disse o princiepzinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- «Cativar» quer dizer o quê? -
- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que andas tu á procura?
- Ando à procura de homens - disse o principezinho. - «Cativar» quer dizer o quê?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. É uma maçada! E também fazem criação de galinhas. Aliás, na minha opinião, é o único interesse deles. Andas à procura de galinhas?
- Não - disse o principezinho. - Ando à procura de amigos. «Cativar» quer dizer o quê?
- É uma coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa.- Quer dizer «criar laços».
- Criar laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti.
- Parece-me que estou a perceber - disse o principezinho. - Sabes, há uma certa flor...tenho a impressão que ela me cativou...
- É bem possível - disse a raposa - Vê-se cada coisa cá na terra...
- Oh! mas não é na Terra! - disse o principezinho.
A raposa pareceu muito intrigada.
- Então, é noutro planeta?
- É
- E nesse planeta há caçadores?
- Não
- Começo a achar-lhe alguma graça...E galinhas?
- Não
- Não há bela sem senão... - suspirou a raposa.
Mas voltou a insistir na ideia:
- Tenho uma vida terrívelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos precidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus passos hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! o trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo...
A raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durnate muito tempo.
- Se fazes o favor ...Cativa-me!
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos o que cativamos - disse a raposa. - Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me.
- E tenho de fazer o quê? - disse o principezinho.
- Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas podes-te sentar cada dia um bocadinho mais perto...o principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo a mesma hora - disse a raposa. - Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... Precisamos de rituais.
- O que é um ritual?
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - É o que torna um dia diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas
. Por exemplo, os meus caçadores têm um ritual. À quinta-feira, vão dançar com as raparigas da aldeia. Por isso, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear às vinhas. Se os caçadores fossem dançar num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
E o principezinho cativou a raposa. Mas quando se aproximou a hora da despedida:
- Ai! - suspirou a raposa - Ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho - Eu não te desejava mal nenhum, mas tu pediste para eu te cativar...
- Pois pedi! - disse a raposa.
- Mas agora vais pôr-te a chorar! - disse o principezinho.
- Pois vou - disse a raposa.
- Então nada ganhaste com isso!
- Ai ganhei , sim senhor! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...
E acrescentou:
- Anda, vai ver as rosas outra vez. Vais entender que a tua rosa é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

O principezinho foi ver as rosas outra vez.

- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada - disse-lhes ele. - Ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. São como a minha raposa era, uma raposa perfeitamente igual a outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e ela passou a see única no mundo. E as rosas ficaram bastante arreliadas.
- Vocês são bonitas, mas vazias - insistiu o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que para um transeunte qualquer, a minha rosa é igual a vocês. Mas, sozinha, é muito mais importante do que vocês todas juntas, porque foi ela que reguei. Porque foi ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.


Depois voltou para o pé da raposa e despediu-se.
- Adeus...
- Adeus - despediu-se a raposa - Agora vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só de vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
- o essencial é invisível aos olhos - repetiu o principezinho para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante...- Foi o tempo que perdi com a minha rosa...- repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.´
- Os homens já não se lembram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.


Deixo-vos a pensar em tudo o que marquei no texto...primeiro é preciso pensar, Só depois estamos prontos para ouvir outra voz que encontra eco na nossa...
Até já!

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