Temos duas alternativas na vida: usar máscaras e fazer os outros acreditarem numa versão ou outra do nosso ego: o lado lindinho, o lado interessante, o lado que interessa divulgar, ou prescindimos de máscaras e ficamos com a alma nua.
E somos, evidentemente, olhados como «loucos», porque ser o que se é, atrapalha, escandaliza, pode criar constrangimentos.
Há um preço e um prémio para ambas as atitudes: quem usa máscaras é escravo da imagem falsa que cria, paga com perda de liberdade o que ganha em «boa» opinião alheia. «Aqueles que nos compreendem fazem de nós escravos»...
Além disso, fingir o tempo todo é algo que desgasta como ácido. Corrói a alma. Quem é louco e não usa máscaras, seja amado seja odiado, vale apenas pelo que é. Não pelo que inventa ser. O que perde em termos de exposição da alma, ganha em liberdade interior, porque não depende da aprovação ou desaprovação alheia. É precisamente aquilo que deseja ser...contra tudo e contra todos.
Khalil Gibran, no seu livro «O louco» retrata bem esta mensagem. Vou partilhá-la com quem me lê, dizendo que estou a aprender a ser «louca»...mas é muito mais difícil do que eu imaginava...
«O Louco
Sabem como fiquei louco?
Há muito tempo, muito antes de terem nascido os deuses, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas.
As sete máscaras que tinha fabricado meticulosamente tinham desaparecido. Sem nenhuma máscara, saí a correr para a rua a gritar: Ladrões! Malditos ladrões!
Todos se riram de mim, mas alguns fugiram e fecharam-se em casa com medo.
Quando cheguei à praça principal uma criança que estava sobre o telhado de uma casa gritou: "olhem, é um louco!"
Voltei a cabeça para a ver e o sol encontrou pela primeira vez o meu rosto nu. O sol iluminou ao mesmo tempo o meu rosto e a minha alma.
A partir desse dia nunca mais usei máscara, e agradeço todos os dias aos ladrões que me a roubaram.
Agora que já sabem como me tornei num louco posso confessar-lhes que encontrei muita liberdade e segurança na minha loucura. A liberdade da solidão e a segurança de nunca ser compreendido (aqueles que nos compreendem fazem de nós escravos).
No entanto, sei que não posso orgulhar-me demasiado da minha segurança, pois nem o ladrão encarcerado está livre de encontrar outro ladrão. »
Thursday, October 18, 2007
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