Há quem critique muito os outros. Porque erram, porque são fracos, porque isto e porque aquilo. Somos tão pequenos e moralistas! criticamos com tanta convicção!No entanto, na altura de se jogarem as nossas escolhas, nem sempre somos coerentes e assertivos. Eu, pelo menos, já dei por ela que não sou. Penso uma coisa, desejo outra e muitas vezes faço outra. Acerto e erro. Já não critico. Ja não julgo. Tento ter tanta paciência com os outros como comigo. E, só assim, tudo se torna mais leve... talvez seja esse o tal segredo dos Evangelhos que nos dizem: «Nao julges para nao seres julgado». De uma coisa estou certa: dentro da alma vivem , como irmãos gémeos o pior e o melhor... o bom e o mau anjo...e vence aquele a quem «alimentarmos» e dermos ouvidos. Uma vez um, outra vez o outro. Nâo sejamos hipócritas. Quem não sabe reconhecer a sua escuridão jamais pode perceber o que é a luz...
Lobos… Internos
«Um velho avô disse ao seu neto, que chegou a casa com raiva de um amigo que o tinha agredido injustamente:”Deixa que te conte uma história. Eu mesmo, algumas vezes, senti grande ódio por aqueles que me fizeram mal, todavia, o ódio corrói a quem o sente, mas não fere o teu inimigo. É o mesmo que tomar veneno, desejando que o teu inimigo morra. Lutei muitas vezes contra este sentimento". E continuou: ”É como se existissem dois lobos dentro de mim. Um deles é bom e não magoa. Vive em harmonia com todos ao redor dele e não se ofende quando percebe que apesar da mágoa, o ofensor não teve verdadeiramente intenção de ofender. Ele só lutará quando for acertado fazê-lo, e fá-lo da maneira correcta. Mas, o outro lobo, ah! esse é cheio de raiva. Mesmo as pequeninas coisas o lançam num ataque de ira! Ele luta contra todos, o tempo todo, sem qualquer motivo. Ele não pára para pensar porque a sua raiva e seu ódio são muito grandes.
É uma raiva inútil, pois essa raiva não irá mudar coisa alguma! Algumas vezes é difícil de conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar meu espírito". O miúdo, então, olhou intensamente para o seu avô e perguntou:
"Qual deles vence, avô?"
O avô sorriu e respondeu baixinho:
"Aquele que eu alimento".»
Já repararam, certamente, que ando em maré de histórias. E não é por acaso. É porque, depois de ter «arrumado», ou «desarrumado» as minhas prioridades, dei por ela que o essencial se diz em poucas palavras e com testemunhos vivos. Como as histórias, por exemplo. E esta, admito, diz-me muito.
È um facto assente que todos nós temos «lobos internos». Que temos «dois» lados que nos puxam com igual força. Que na vida real ninguém é sempre bom, ou sempre mau, sempre «certinho» ou sempre «pecador». Na vida real somos pessoas normais, que podem ser tudo, dependendo das circunstâncias.
Dei comigo um destes dias a pensar que julgar os outros é uma perfeita estupidez. Já nem digo – porque é evidente! – que todos temos telhados de vidro. Não é por isso apenas. É porque estou cada vez mais convencida que não sabemos concretamente os nossos limites. Que só na hora do teste poderemos, com 100% de certeza optar pelo «lobo manso» ou pelo «lobo feroz». Que as decisões da vida, as que nos marcam, por vezes são tomadas no calor de um impulso, de um sentimento ou de uma paixão. Que nem sempre o lado racional e sensato, que nos norteia, leva a melhor. Que há alturas em que as circunstâncias nos levam a fazer o que jamais pensávamos ser capazes de fazer.
Sim, o homem é os seus valores, é os seus preconceitos e é também as suas circunstâncias. E mais ainda: ninguém é sempre igual, porque cada ser humano está em contínua mudança. Ás vezes nem nos apercebemos, mas se olharmos cinco ou dez anos atrás na nossa vida percebemos, se formos pessoas normais, que já não pensamos, sentimos ou reagimos da mesma maneira. Imaginem, agora, o que uma mudança radical pode provocar na vida de uma pessoa. O impacto pode ser tão forte que nada sobre da antiga personalidade. Um «lobo manso» pode transformar-se em feroz e vice-versa, num piscar de olhos.
Eu hoje digo que nem por mim ponho a mão no fogo, ou seja, não posso garantir que aquilo que hoje me serve, amanhã não seja posto em causa. Que o que hoje faço ou não faço, amanhã não seja o inverso. Deixei-me de ingenuidades. Só na hora de agir serei a minha opção. É bom (essencial até) ter bases firmes para a hora «da crise». Mas, lamento dizer que até essas bases podem não ser suficientes, tal como uma barreira de troncos que, mesmo forte e segura, não pode parar a enxurrada de um rio.
Todos temos dois lobos a habitar as cavernas da alma. Ambos comem da mesma «tigela». Ambos dormem lado a lado. São irmãos gémeos, mas que aparecem vez à vez. E jogam com a alma. Puxam-na para um lado, arrastam-na para outro. Tentam ser vencedores num jogo sem tréguas, porque dura o tempo de uma vida.
Por isso repito: para quê julgar os outros se, no fundo, perante as mesmas circunstâncias de vida da pessoa em causa, não sabemos qual seria a nossa reacção?
Não há verdades absolutas (essas são dogmas, logo produtos intelectuais que alguém criou para nos influenciar ou manusear para um lado provável da verdade), não há seguranças (nenhumas e a nenhum nível. Viver é um exercício de risco contínuo), não há moedas com um só lado. Tudo tem dois lados, mesmo o que normalmente consideramos de «bem» ou de «mal». Então, resta perguntar, qual é o nosso poder real sobre a vida? Só temos um. O essencial: a liberdade de optar pelo lobo que desejamos. A liberdade de escolher alimentar um ou outro. A liberdade de errar ou acertar, de escolher bem ou escolher mal, dependendo do momento, das circunstâncias e das tais «bases» que funcionam como barreiras. Mais nada…
Por isso, acredite em mim, amigo leitor. Não critique, não julgue, não atire pedras. Faça como o maior Mestre da vida que, um dia, perante uma mulher adúltera prestes a ser apedrejada pelos hipócritas dos fariseus (Deus do céu, e como eles continuam a abundar por aí!), se limitou a dizer: «quem estiver livre de culpas, atire a primeira pedra». Grande lição de humildade, compaixão e perdão que Deus deu aos homens…
Eu habito com os meus dois lobos. Ambos são fortes, vigorosos e persistentes. Mas sabem um segredo? Quando tento alimentar um deles, fico sem saber qual o manso e qual o feroz. É que, por fora, ambos são exactamente iguais. A base que os nutre é mesma (a razão e o coração) por isso, normalmente, só os distingo a nível das consequências. O manso não causa estragos. O feroz sim. O manso não me deixa um peso na consciência, o feroz sim. E poderia continuar indefinidamente, mas acho que me fiz entender.
Já vivi o suficiente para não me atrever a «matar» nenhum deles, sabem. Ambos são indispensáveis. Mas a verdade é uma… compete-me a mim, e a mais ninguém, saber as doses de alimento que lhes quero dar, porque o a questão aqui não é alimentar só um, como a história acima conta. Deixem-me ser um pouco revolucionária e dizer: o «segredo» está na dose certa de alimento que cada lobo «ingere». No equilíbrio, está a medida certa. Na margem de erro está a nossa capacidade de perceber que, julgar os outros, é tão inútil e ridículo como alguém afirmar: «Eu? Eu posso atirar a pedra…eu não tenho pecados». Atreve-se, amigo leitor a fazer tal afirmação? Eu, sinceramente, não. Eu sei, porque sei, que tenho mesmo dois lobos dentro de mim…
Friday, October 12, 2007
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1 comment:
A leitura deste texto fez-me pensar em muitos aspectos da grandeza, mas também fraqueza do ser humano. A metáfora dos lobos internos, que todos alegadamente possuimos dentro de nós, é uma das melhores comparações que se poderia fazer quanto ao lado bom e lado mau de todo o ser humano. Se é pois verdade que podemos ser aquilo que quisermos dependendo de qual o "lobo, que alimentar-mos", também seja, talvez, verdade que em algumas pessoas o "lobo manso" mantenha-se num quase eterno hibernar, enquanto o "lobo feroz" teime vir ao de cima em cada situação do dia à dia! Porque será? Pergunto eu. Sem julgar, é claro! Suspeito que a resposta a isto, estará, quem sabe, no facto de alguns "lobos mansos" estejam subnutridos e sem força perante os "lobos ferozes".
Eu, própria, tenho ambos "lobos" a cohabitar dentro de mim!! É uma luta, por vezes, a vivência destes dois pólos tão âmbíguos! O que por vezes, resulta numa inevitável introspecção dos "porquês" da vida e da alma.
O homem não deve julgar para não ser julgado é uma das mensagens do Evangelho e que pode ter muitas interpretações e aplicações. Mas, quem, neste mundo cheio de manhas e labirintos, consegue abstrair-se de tanta maldade, violência e injustiça à nossa volta, no mundo inteiro? Devemos perdoar, "dar a outra face", é melhor para a nossa paz interior, tenho consciência disso. E, depois, como fica a nossa paz de alma, a nossa saúde espiritual?
É na complexidade de viver, como um "lobo", em harmonia com o mundo que o rodeia, sem julgar e criticar, que está um dos segredos que procuro, humildemente, desvendar...
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