Quero renovar-me e voar, como as águias!
Ultimamente, e por várias razões muito minhas, tenho pensado no acto de «voar» como sinónimo de liberdade. Não a liberdade no que tem de corriqueiro (todos se afirmem livres, embora poucos o ousem ser, de verdade), mas na sua dimensão interior, no que tem de «violento» e renovador. A liberdade de alma, que nenhuma amarra física ou mental pode aprisionar. A liberdade no que tem de solidão: eu ao encontro de mim mesma, num diálogo que permite assumir escolhas difíceis, descobrir rotas alternativas, recusar apegos e, por uma questão de qualidade de vida interior, apostar na certeza da alegria, mesmo que tudo, na prática, a pareça contrariar.
E, ao pensar assim a liberdade, como um «voo», para dentro, imagino uma águia, a rainha das aves, de asas abertas, a planar alto, muito alto no céu, abrangendo com o seu olhar toda a terra e não apenas uma porção dela. Quando estamos na terra temos uma visão reduzida do mundo. Vemos apenas o que está à nossa volta, a uma dúzia de metros. Vemos tudo condicionado pelas circunstâncias. Para ver bem uma paisagem, na sua totalidade, precisamos de nos elevar, de sair do nosso território conhecido e arriscar subir mais alto, mesmo que cause medo, mas só assim é possível ver todos os ângulos da realidade. Só assim podemos perceber o que queremos ou do que gostamos realmente.
Na vida temos, por norma, a tendência de ver tudo demasiado perto, logo sem a perspectiva total. Reagimos por impulso, ou hábito. Escolhemos baseados em medos e crenças de falsa segurança. Vivemos presos a inúmeros preconceitos, a certezas calculadas. Julgamos e somos constantemente julgados. Ficamos no nosso território conhecido, sem correr riscos. Pensamos pequeno. Comportamo-nos como águias presas num galinheiro. Águias que não aprenderam a voar. Águias que não sabem usar as asas – às vezes nem sabem que as têm. No entanto somos águias, todos nós, e podemos sempre aprender a voar. Se nos dermos ao trabalho de ser felizes…
As pessoas, no geral, e no que toca a escolhas, alternam períodos em que se comportam como galinhas, a esgravatar a terra dos mesmos hábitos esgotados, da mesma profissão desgastante, da mesma relação sem vida, presas ao passado, presas a traumas, a desilusões, a medos, com períodos inspirados em que ousam arriscar mudanças, dar passos loucos, sentir o gosto da liberdade nas asas e voar…como as águias. Nessas alturas ousam começar de novo, ousam fazer o que nunca fizeram, ousam ser mais fortes que o velho cliché do pessimismo. Ousam ir onde as leva o coração e os sonhos. E aprendem, só assim, a distinguir a diferença entre o sabor inesquecível da felicidade e o sabor morno e sem sal de uma vida rotineira e acomodada.
Mas a liberdade tem um preço. Um preço alto. A incompreensão, a critica, a solidão. Implica a teimosia de não desistir de viver a vida pela nosso cabeça, não pelo que os outros dizem ou acham que devemos fazer. Implica arriscar. E implica perder batalhas… mas quem um dia experimenta o voo livre da águia, como pode conformar-se em viver apenas como uma galinha? No entanto acontece todos os dias. Preferirmos esquecer que somos águias e retomar, por opção, a vida «segura» das galinhas. Os que se arriscam a ser águias e assumir que o são, não julguem, porém, que serão felizes para sempre, ou que podem criticar as galinhas. Na vida todos têm o direito a ser o que desejarem ser. Se calhar há galinhas felizes. Além disso, a vida não é justa, seja para as águias seja para as galinhas. A vida é apenas um risco que se assume ou se nega e as consequências de qualquer escolha, constituirão, no final, o saldo, positivo, ou negativo de qualquer existência.
Curiosamente, enquanto estas ideias voavam em mim, «caiu-me do céu» um pequeno livro com o título «Voando como a águia». Sorri, por mais um acaso incrível, e fiz o que era inevitável: li-o em poucas horas. De tudo o que li há uma história que resume quase tudo o que gostaria de dizer. Ser uma águia, na vida, não é sinónimo de sucesso garantido. As águias também se cansam, perdem força, voam sem convicção. Por isso até as águias precisam de parar e recolher-se ao ninho, para poderem aferir as suas rotas e renovar as suas forças, ciclicamente.
Quando sentimos que chegámos a um ponto de estagnação na vida, sendo águias (já nem falo das galinhas, pobrezinhas, pois essas normalmente estão condenadas a terminar a sua vida segura, transformadas numa canja…) há que pensar como renovar as forças perdidas e ganhar animo para novos voos. E as águias sabem que esse momento chegou quando o seu presente se resume a recordar os voos do passado, sem força para voar no presente. O passado, passou. Não há glória nas recordações. Há apenas recordações que valem, ou não, a pena ser guardadas. Não há glória no futuro. Ele não existe. Há apenas a certeza do presente, do que posso fazer aqui e agora para mudar o que já não me serve, para renovar o que tem de ser renovado.
Deixo-vos com a história (fictícia, mas belíssima) que serviu de mote a este artigo. Que se tornou, para mim, um excelente guia para gerir as mudanças difíceis, mas libertadoras, que precise de fazer na vida. Porque, garanto, não me conformo a viver como galinha, mesmo sabendo que as águias, para o serem até ao fim, pagam a sua liberdade com sangue e dor. Quero, custe o que custar, renovar-me, a cada novo ciclo, como as águias.
«Conta-se que a águia chega a viver setenta anos, porém, para chegar a essa idade, precisa de tomar uma séria e difícil decisão. Aos quarenta anos, as suas unhas estão muito compridas e flexíveis e já não conseguem agarrar as presas que lhe servem de alimento. O bico, alongado e pontiagudo, curva-se, apontando para o peito. Voar torna-se muito difícil porque as asas estão envelhecidas e pesadas por causa da grossura das penas. Nesta situação, a águia só tem duas alternativas: deixar-se morrer, ou enfrentar um dolorido processo de renovação que irá durar 150 dias.
Este processo consiste em voar para o alto de uma montanha e lá se recolher num ninho que esteja próximo de uma escarpa. Um lugar de onde, para regressar, ela necessite fazer um voo firme e pleno. Ao encontrar esse lugar, a águia começa a bater o bico contra a escarpa até o conseguir arrancar, enfrentando corajosamente a dor que essa atitude acarreta. Durante algumas semanas nessas condições, ela espera pelo nascimento de um novo bico. Depois disso, com o bico novo, ela vai arrancando as suas velhas unhas, uma por uma. E quando lhe nascem unhas novas, com as unhas e o bico ela arranca as penas do seu corpo.
Quando nascem as novas penas, a águia está renascida e sai, então, para o voo da renovação. Recomeça a viver por mais trinta anos.
Na nossa vida também podemos fazer um processo de renovação. Para conseguirmos voar o voo da vitória, precisamos de nos renovar, libertando-nos do peso do passado, mesmo que isso doa muito e nos tire sangue do peito»
Posto isto, quer escolha viver como uma águia, ou como uma galinha, perceba que a escolha é só sua, para o bem e para o mal, e que ninguém tem nada a ver com isso,
mas lembre-se que, pior do que perder, arriscando, é viver recordando e lamentando oportunidades perdidas, com asas penduradas e murchas, como andorinhas sem uma primavera… o pior mesmo, digo-o baixinho, em segredo, é viver uma vida que nunca chegou, realmente, a ser VIDA. A sua VIDA…
Saturday, October 20, 2007
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