Friday, October 12, 2007

Desejar ou querer?

Há quem confunda desejar e querer. E não se podem confundir. Desejamos o que nos dá prazer, o que nos massaja o ego, o que nos dá colo. Mas podemos desejar o que não nos convém. Querer é ultrapassar o desejo e fazer escolhas. É negar, muitas vezes, o desejo, em nome de uma liberdade maior...
O desejo pertençe ao reino do ego. O querer pertence ao reino dos sonhos, da esperança, da alma...

Deixe-me falar um pouco mais de desejos....



Desejo

Vou começar pela história, depois salto para as conclusões. E a história chama-se «O prato de esmolas mágico» e começa assim:
Um dia um mendigo bateu à porta do palácio do Imperador de um grande reino. Era de manhã bem cedo e o imperador estava de saída para o seu passeio solitário pelos jardins do seu palácio, por isso era o único presente. Não havia nenhum guarda que impedisse a aproximação do pedinte.
«O que deseja?», perguntou o imperador ao mendigo. Este respondeu algo inesperado: «Antes de me perguntar isso, pense duas vezes». O imperador ficou intrigado com a resposta e com a coragem dum pedinte que lhe dizia a ele, um poderoso imperador: «Pensa duas vezes no que estás a dizer, pois podes não ter condições de o realizar». Mas, sem se dar por vencido, o imperador disse: «Não se preocupe, isso é problema meu. Apenas diga o que deseja e será feito».
O pedinte disse então: «Vê o meu prato de esmolas? Quero que seja preenchido! Não importa com quê. Basta que seja preenchido, ele deve ficar cheio. Mas ainda tem tempo de dizer não….lembre-se …se disser sim, estará a correr um enorme risco».
O imperador riu. Era apenas um prato de um mendigo…e o mendigo dizia-lhe para ter cautela? E o imperador deu ordens para que se enchesse o prato com diamantes. Uma vez mais o mendigo avisou: «pense duas vezes!» e logo se tornou claro que o mendigo estava certo, porque assim que os diamantes eram colocados no prato, desapareciam. Rapidamente se espalhou a notícia do que estava a acontecer no palácio do imperador e milhares de pessoas chegaram para ver o fenómeno. Quando todas s pedras preciosas foram esgotadas do tesouro real, o imperador mandou vir ouro, prata, e, finalmente todo o seu reino. Mas no final da tarde tudo havia desaparecido e sobravam apenas dois pedintes. Um deles era o imperador.
Virando-se para o mendigo o imperador disse então: «Antes que eu peça perdão por não ter escutado o seu aviso, diga-me qual é o segredo desse prato de esmolas». O pedinte respondeu: «Não há segredo nenhum. Eu apenas o poli e fiz com que se parecesse com um prato. Mas é um crânio humano. Pode colocar o que quiser aí dentro…irá sempre desaparecer.»
É esta a história e o seu significado é algo de essencial. O que é o prato de esmolas na nossa vida? Pode ser muitas coisas, entre as quais o desejo de poder, prestígio, riqueza, prazer, e tudo o que possa imaginar que o domina e implica desejo. Colocado no nosso «prato de esmolas», some, desaparece, é comido em segundos. Não importa a dose que se coloca no prato, nunca chega. Porquê? Porque aquilo que desejamos torna-se mestre da nossa felicidade. Se nos é dado o que desejamos, ficamos felizes, se nos é retirado, infelizes. Se nos é dado, por momentos, sentimos o desejo apaziguar-se. Mas por breves momentos apenas, porque sempre que o desejo é preenchido ele não permanece, ele é apenas o lampejo do momento em que se sente prazer. É passageiro, porque mal se obtém o que se deseja, a mente (o prato de esmolas) começa a desejar outras coisas. Mais coisas. Nada chega. E quanto mais se vai metendo no prato, mais difícil é encontrar prazer. Tudo enfada tudo cansa, nada dá uma sensação de realização plena. A mente, essa terrível hedonista, nunca pode deixá-lo sem desejos, por isso o domina, só por isso.
Podem contrapor com desdém: «Um homem sem desejos é um animal». Eu digo antes que um homem que sabe ir vivendo, não fazendo o seu equilíbrio e felicidade depender de nada nem de ninguém, é um homem raro. Um achado, porque hoje em dia encontrar pessoas felizes e equilibradas, é isso mesmo: um achado. Normalmente as pessoas vivem de expectativas, de «ses», de contínuas metas, insatisfeitos, inquietos, sem paz. Procuram, agarram-se a ilusões, desiludem-se, querem mais, experimentam mais… não há limites para este «prato de esmolas». Digam-me o que disserem, e eu fiz deste estudo da mente humana o meu maior desafio, uma das minhas conclusões é que se a mente domina o homem em vez de ser dominada por ele, a felicidade não é possível.
Há dois tipos de pessoas no mundo: os que correm atrás de sombras, com os pratos sempre vazios e a minoria excepcional, uma pessoa num milhão, que pára de correr, de desejar, de colocar condições, de fazer birras existenciais e deixa de lado os desejos. Não pede mais nada. Não precisa de mais nada. Não deseja mais nada. E, subitamente, encontra tudo dentro de si…
Sabe como descobre a diferença? Pela forma leve, solta, satisfeita, acolhedora e livre como uns vivem e outros não. Conhece pessoas assim? Então não preciso de lhe dizer que, na vida, qualidade e quantidade raramente são sinónimos. Seja com coisas, seja, evidentemente, com pessoas…optar pela qualidade talvez não seja má opção, mesmo que, de início, tal opção pareça não trazer nenhum benefício digno de registo. Tal como a vento se sente mas não se guarda na palma de uma mão, também a felicidade é assim… sente-se se estivermos abertos a ela, sem defesas, sem «ses». Não se colecciona, não se possui, não se prende…sente-se apenas, se prescindir de se agarrar ao seu prato de esmolas….

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