Saturday, October 20, 2007

Quem Morre? (Pablo Neruda)

«Quem morre?»

Morre lentamente
Quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa
com quem não conhece.

Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um
redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu
trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de
um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente,
quem passa os dias a queixar-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.

Morre lentamente,
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que
sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço
muito maior que o simples fato de respirar.
Somente a perseverança
fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.



Este poema de Pablo Neruda, que me fascina, talvez seja o retrato mais perfeito do que considero um grito pela vida.
De facto, morre lentamente, quem se recusa a viver. Morre sem graça, sem mérito, sem cicatrizes mas igualmente sem marcas felizes. Morre lentamente quem nunca arrisca a segurança podre do que tem, para poder perseguir um sonho novo. Quem se conforma com prisões impostas, quem não ousa quebrar os grilhões dos preconceitos sociais e, por cobardia, conforma-se eternamente com o mesmo emprego gasto, a mesma relação gasta, a mesma rotina gasta...mesmo que a oportunidade lhe bata à porta e lhe grite : «Estou aqui..ousa ser feliz!»
Ninguem pode ser feliz na nossa vez, decidir na nossa vez, sofrer ou ser feliz na nossa vez. Há coisas na vida que nunca se podem ensinar, embora se possam aprender. E aprender a não morrer lentamente é a única forma de poder estar realmente vivo. Quem morre? a resposta é radical: basicamente quem se recusa a viver....

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