Tuesday, October 2, 2007

Correr ou não correr riscos...eis a questão!

Lembrei-me de uma frase de Paulo Coelho, da sua crónica «Eu não sou feliz». Uma das muitas que tenho guardadas e irei semeando aqui. Uma frase que me define:

«Tenho muitas cicatrizes, mas também trago comigo momentos que nunca teriam acontecido se eu nao tivesse ousado ir além dos limites»

E, a propósito, lembrei-me de um texto que escrevi há uns tempos...e continua, curiosamente, a ser como um espelho dos meus sentimentos. Que assumo, porque viver é ,em primeiro lugar, admitir que os temos. Sabem, prefiro cair, partir-me em pedaços, ter cicatrizes, mas perceber que nos riscos que corri VIVI...

«Vou construir um castelo!»

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não
esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo e que posso evitar que
ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se um autor da própria
história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no
recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma critica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
Fernando Pessoa
Recebi este e-mail, e transcrevo-o. Sinceramente não me parece de Pessoa, mas o que diz, sim, é pessoal, belo e profundo, por isso o partilho. E nem sempre recebemos «mensagens» com corpo e sobretudo com alma, como esta, seja quem for o autor. Do muito que tem para comentar tenho de eleger alguns pontos. Como de costume os que mais me tocam na vida, no dia a dia.
Curiosamente esta semana, nas minhas aulas, dei-me conta, uma vez mais, como as pessoas, sobretudo os jovens, têm uma imensa dificuldade em falar de sentimentos íntimos, em identificá-los, em saber até o significado de algumas palavras que os traduzem. E já não falo em Inglês, porque se o meu objectivo foi ensinar palavras que definem a personalidade e a capacidade de sentir, ao passarmos para a noção em português, nem por isso as coisas melhoraram.: «angústia», «compaixão», «desespero», «medo», «apatia», «inquietude», «dúvidas», enfim uma imensa panóplia de sentimentos que as pessoas têm dificuldade em traduzir em exemplos reais. Quando me senti assim? Sei dizê-lo por palavras? Sei identificar o que anda a bulir cá dentro? Sei perceber a profundidade da minha dor ou da minha alegria, da minha esperança ou do meu desespero? Estou «vivo» e consciente do milagre da vida? Sei, ao menos, porque me sinto como sinto?
Parece fácil, mas não é. Porque quem o sabe fazer ousa ser autor da própria vida. Sem julgamentos, sem espanto, sem preconceitos. E poucos, muito poucos se atrevem a tal ousadia. Só quem o faz ousa assumir o que sente, seja qual for o preço a pagar. Nada, absolutamente nada, é tão importante como os sentimentos. São eles que nos elevam ou destroem. São eles que medem a qualidade da nossa vida e a tornam insossa ou cheia de tempero. São eles que nos traem e nos trazem o céu ou o inferno para os braços. São eles e só eles que nos quebram as asas da alma, ou nos fazem voar nas asas de um sonho.
Assumir sentir e viver o cálice dos sentimentos até à última gota, significa ultrapassar o medo e arriscar pisar o solo do desconhecido, num inconformismo militante. A caminhada é totalmente solitária: ninguém pode viver nada de verdadeiramente importante na nossa vez. Ninguém pode chorar na nossa vez quando a perda, a morte, o desanimo ou a injustiça nos envolvem; ninguém pode sentir o coração explodir de alegria na nossa vez, como quando estamos apaixonados, entusiasmados com um sonho, envolvidos num desafio, enfeitiçados por um pôr-do-sol. A maioria das pessoas prefere viver num limbo amorfo, onde a rotina dita as regras e o comodismo emocional é calçado como os chinelos velhos de trazer por casa. Chamam a isso segurança e bom senso. Eu chamo-lhe viver «emparedado». Enganadoramente livres numa prisão assumida, onde não se passa nada, não há altos nem baixos, e as emoções mais fortes se resumem à novela da noite ou ao jogo de futebol a «correr» em nossa vez na televisão.
Diz o poema que ser feliz: «é atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da própria alma», o único local onde a felicidade faz ninho. Quantos de nós terão a coragem de o fazer? De mergulhar na alma, perceber o seu apelo e seguir o que nos pede, contra tudo e contra todos?
«Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos». É perceber que os sentimentos não são certos ou errados, são sentimentos. Que os sentimentos nos ajudam a escrever o guião da nossa vida, são como uma bússola interna que devemos consultar sempre que viajamos no reino da nossa alma. Que podemos até ignorá-los, mas corremos o risco de viver pela metade, perder oportunidades que, passando, demoram muito tempo a voltar, ou nunca mais voltam. Quantos sonhos possíveis deixamos morrer por medo de os assumir? Quantas vezes traímos esses sonhos por preconceitos, conformismo, medo, comodismo?
«Pedras no caminho? Guardo todas! Um dia vou construir um castelo» . Esta é a minha frase favorita. Diz-me que no meio das derrotas, dos erros e quedas, dos desafios e riscos assumidos, há sempre algo de precioso a aprender. Que todas as experiências são «pedras» ganhas, carregadas e somadas. Que só perde mesmo quem não as carrega, porque sem pedras também não há castelo… não há perdas nem ganhos, não há riso nem lágrimas, não há paixão nem dor, não há erros nem vitórias, não há nada…e nada é pior que esse vazio existencial. Sim, eu quero construir um castelo…um dia, com toda as pedras que me rasgaram a alma, mas a tornaram um edifício que se ergueu, de dentro para fora. Meu, muito meu, mesmo que mais ninguém o consiga vislumbrar… e a isso eu chamo: VIVER!

1 comment:

Anonymous said...

Querida madrinha, identifico-me plenamente com este seu texto, aliás, faz-me lembrar a velha máxima de que "O que não nos mata, deixa-nos mais fortes". E entre quedas e vitórias, sucessos e fracassos, vamos contruindo o nosso caminho e o nosso castelo.
Mas para arriscar é preciso ter coragem, que por vezes falta...

Um beijinho,
Fátima.