«The fish in the water is silent.
The animal on the earth is noisy.
The bird in the air is singing.
But MAN has in him
The silence of the sea
The noise of the earth
And the music of the air»
R. Tagore
Hoje sinto-me como se todos os oceanos me inundassem, num silêncio sem fim.
Sinto que a terra grita cá dentro, num grito incluso.
Sinto,sobretudo, o mistério infinito de ter uma sinfonia na alma...
Mas, às vezes, afundo-me nesta confusão de vozes...e nao sei qual seguir...
Deixo-vos com um texto que talvez possa desvendar um pouco mais sobre este mistério dos sentimentos e emoções.
“Dói-me a cabeça e o Universo” – Fernando Pessoa
Se calhar é por estar com gripe, mas hoje dói-me a cabeça. O estranho é que o “Universo”, também me doa, como escreveu Fernando Pessoa. Há dias assim, em que acordamos mais cansados do que quando nos deitamos e, ao levantar, abrimos a janela e saúda-nos um rosto cinzento, com um céu amuado, que teima em chorar pingos de chuva e esconder o sol, irremediavelmente. Não reajo muito bem à despedida do sol. Por mim seria Verão o ano todo, com dias infindáveis e luminosos, com muito calor, com pouca roupa, com noites cheias de estrelas e sonhos. Mas estou a dar desculpas, eu sei…
Afinal, não é Verão o ano todo. Não há sol o ano todo. Não há sonhos que apaguem todas as realidades. A vida é feita de contrastes; de luz e de sombra, de momentos altos e momentos tão baixos que chegam a descer abaixo do subsolo. A vida é vida, precisamente porque nela podemos “partir” a cabeça e sentir o universo a doer.
Não, não estou propriamente pessimista. Apenas vou discorrendo e pensando, a partir da frase de Fernando Pessoa que encontrei, por acaso, e me ficou a “bater”, de mansinho na alma: “Hoje dói-me a cabeça e o Universo”.
Não podemos mudar o mundo, eu sei. Às vezes nem a nós mesmos conseguimos mudar. A luta é contínua. O desgaste é imenso, por isso, as pessoas mais equilibradas têm, inevitavelmente, de atingir momentos de limite em que só lhes apetece atirar com tudo – literalmente tudo! – para o ar e dizer: “Vou para outra galáxia! Vou esquecer que só tenho responsabilidades e pensar em mim, para variar. Vou correr descalça numa praia e não vou pensar nas tarefas, nos deveres, nas imposições, na consciência, nem em nada que me envolva e me roube o meu direito de não pensar: Hoje quero viver para mim!”
Há momentos em que ser irresponsável é uma tentação irresistível. Em que fechar a razão num “armário” e trancá-lo a sete chaves, parece a única solução possível. Há momentos em que o peso nas costas é tão grande, que as forças diminuam e as pernas vacilam. Há momentos em que ao olharmos a nossa história pessoal ficamos com a sensação terrível de que nada do que semeamos dá frutos, que as nossas apostas no lado positivo da existência saem goradas, que a nossa opção pela verdade, coerência, responsabilidade, não passam de sacrifícios meio lamechas e não de não opções assumidas e desejadas.
Mas depois, devagarinho, por entre os escombros da dor surge a luz. Um fio pequeno de luz que nos revela uma flor que nasceu duma semente perdida. E recordamos que o “bem” no seu todo não se faz para ter frutos vistosos e sumarentos, mas por uma necessidade interior que não se pode calar. Que a escolha do lado responsável, activo e interventivo da vida é uma aposta a longo, longo prazo, sem direito a prémios, mas que ao ser escrita na nossa história pessoal lhe deixa uma marca viva e fecunda que provocará uma reacção em cadeia.
Nada do que fazemos é isento de consequências. Quantas e quantas pessoas são – para o bem e para o mal – receptoras das nossas acções e portadoras das suas consequências? Um simples gesto, um sorriso, umas palavras, podem ter efeitos curativos ou destruidores. O que fazemos, dizemos ou pensamos tem um poder próprio que age, mesmo sem termos consciência real dessa acção. É por isso que, mesmo que me doa a cabeça e o universo, mesmo que o sol se esconda por trás das nuvens, mesmo que as evidências me digam “Não vale a pena!” eu sei que não vou desistir de ser teimosa, de acreditar no direito ao amor, na alegria, mesmo que ela tenha rostos diferentes, na amizade, mesmo nas amizades incompreensíveis, na verdade e em todas as coisas “tontas” que dão sentido à minha existência.
Mesmo que o peito se aperte num nó de mágoa, mesmo que hoje eu deseje fazer apenas o que me apetece, e não o que devo, mesmo que hoje sinta na alma a tentação de fechar portas, mesmo que nada faça sentido, eu sei que amanhã é um novo dia. Sei que a Primavera acaba por chegar. Sei que o sol, que habita o meu peito e não se esconde para sempre e, logo, logo, vai espreitar por entre os juncos do cansaço e trazer luz à escuridão.
Entretanto, fui buscar uma frase de Richard Bach que me diz algo de fundamental. Que me mostra um caminho, que alivia a tensão. De facto, eu não tenho de agradar a ninguém! Eu posso rir, chorar, ser louca, ser feliz, ser poeta, ser responsável ou irresponsável. Posso dizer sim e posso dizer não. Posso tudo, desde que escolha, em consciência, os meus caminhos. O meu maior dever na vida é construir a minha própria vida. Moldá-la e enfeitá-la com as flores que eu mais gostar. Não para que me aplaudam, mas para me sentir bem, comigo mesma…
E tudo isto, por uma simples razão que Bach define assim: “Não existes para impressionar o mundo. Existes para viver a tua vida de um modo que te faça feliz”. E sabê-lo, saber que posso escolher, ajuda, e muito, a serenar a dor que sinto na cabeça, mas, sobretudo a voar acima da dor que sinto, hoje, no Universo…
Tuesday, October 2, 2007
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