Hoje reli a última parte do meu Diário «Estados de Alma» e senti algo estranho. Senti que aquelas palavras, escritas há tanto tempo, me parecem escritas por outra pessoa. Acho que, de lá para cá, me aconteceu tanta coisa e tanta coisa inesperada, que apesar de tudo o que sei, de toda a evolução por que batalhei, de todo o estudo, empenho, paixão, fui surpreendida por uma tempestade tão forte, que o meu «navio» naufragou e neste momento me encontro «encalhada» numa ilha esquecida, longe de todas as certezas que sempre me abrigaram.
Estou em maré cheia... não sei se vou conseguir soltar de novo o meu navio. Não sei, mas também já não tento ir além do minuto que vivo. A minha humildade e capacidade de entender que os homens são as suas circunstâncias, esticaram para lá dos meus próprios limites. Não tenho mais certezas. É a única certeza que tenho. Deixo-vos com os últimos capítulos dum diário interior, que começou, mas não sei quando, nem como acaba...
Capítulo 83
Já não me espanta que o amor morra. O amor entre homem e mulher. O mais forte e o mais frágil de todas as formas de amar.
Agora já não me espanta tanto. Conheço a rotina, conheço as cinzas e as chamas de paixão. Vejo em muitas histórias que cruzam no meu caminho o desencanto crescer e os corações perderem-se um do outro sem saberem bem onde ou porquê. Para amar alguém a vida inteira é preciso tecer laços de amizade e respeito que resistam a testes inevitáveis: o da desilusão, (porque ninguém é como sonhamos), o do cansaço (porque o tempo desgasta mais uma relação do que o vento norte as dunas), o da impaciência (porque os defeitos do outro parecem crescer com o conhecimento e as virtudes encolherem), o das tentações (porque o que é novo e aparece no meio do nosso desiludido e impaciente cansaço, pode apaixonar as nossas emoções ressequidas e ter o sabor de água fresca).
O amor morre, simplesmente porque é uma força viva. O amor nasce, cresce e mais tarde ou mais cedo chega a uma encruzilhada. Ou se fortifica com a maturidade e a experiência e nesse fortificar se renova como um elixir de eterna juventude, ou segue o caminho do envelhecimento, da doença e da morte.
Hoje há muitos amores moribundos, nem vivos nem mortos. Alguns perduram, por medo, por comodismo ou por vergonha e mantém-se mortos na árvore da vida. Outros mantêm-se aparentemente firmes, mas baseiam-se na ilusão e na mentira. Outros, simplesmente, assumem que o vazio é a única recordação que resta duma vida em comum. Reconhecer que o amor morreu é a maior das derrotas. É sempre um pecado de omissão, uma perda por desatenção, como deixar uma criança a morrer à fome porque não a alimentamos. Mas já não me espanta, também. Dói-me apenas. Assisto a tantas, tantas, vidas a tombarem, partidas ao meio. Amores desfeitos, sonhos perdidos, um sofrimento sem fim. Constato e aprendo. Aprendo que o que é belo e frágil não deve ser descuidado. Que tudo o que tem vida em si tem de ser alimentado e protegido. Que tudo o que é importante, como o sentimento que une duas pessoas no corpo e na alma, não pode morrer sem ajuda. O amor pode morrer, sim, mas só se o deixarmos morrer…
Capítulo 84
Nunca estamos sozinhos. Nunca. Mesmo nos momentos de mais sofrimento e angústia, se pararmos um segundo para dizer interiormente: “Aceito o que me está a acontecer” e, com um esforço supremo conseguirmos pedir a Deus que nos ensine a lição desse acontecimento, estou certa que, por mais doloroso que este seja, rapidamente nos deixará sentir uma paz que não é nossa – porque nos é dada – e o medo abrandará.
Se mantivermos o coração aberto, não deixando espaço à revolta, procuramos ver o bem que surge de cada mal, Deus se encarregará de colocar – estrategicamente! – nos apeadeiros do nosso caminho as pessoas, os acasos, as situações e os meios que nos permitem resolvê-los.
Só destrói o sofrimento quem não se aceite e se recalca. Só não se ultrapassa a dor que não assumimos e nos deixa orgulhosamente sós.
Os anjos andam sempre por aí, nos locais de sofrimento. Surgem no gesto amigo dum desconhecido, numa ajuda inesperada e tão necessária, no consolo que nos vem duma palavra escutada e lida. Só necessitamos de estar atentos.
A solidão na dor é sempre resultado da revolta. Uma dor assumida e entregue é integrada e vencida, porque há sempre quem nos ajude a fazê-la.
Capítulo 85
Estou tão cansada…
Parece que vivo num mar encapelado. Uma vaga sucede-se à outra e mal mergulho e ponho a cabeça de fora, sôfrega de ar, surge outra e outra e outra vaga. Luto, sim, é preciso lutar, mas o cansaço é tremendo, o peso que sinto no corpo e na alma parece querer esborrachar-me, como a um insecto inoportuno.
Mas a luta, a maior luta, é tentar sempre manter as minhas convicções, acreditar que um obstáculo – e são tantos! – é apenas um degrau para ver mais além. Ver o quê?
Não sei, apenas me agarro desesperadamente à certeza que tudo o que me desafia e me morde são testes, que viver é um sopro e que nada importa muito. Tudo são provas a passar, lições a aprender, apegos a deixar partir.
Procuro, que o meu lago interior mantenha a paz. Não à superfície. Lá só vejo ondas, desinquietude, turbulência. Mas no fundo, na alma do lago, espero preservar intacta a minha paz, a harmonia e a serenidade.
É como se estivesse num campo de batalha e sentisse as balas a rasarem-me a pele e visse também a meu lado os companheiros de luta. Há sangue, barulho e dor. Tanta dor inútil…
Mas de uma forma estranha parece-me que olho tudo de “cima”, que estou, sem estar, no meio do fogo e da guerra. Algo em mim sabe que há alturas em que não se pode remar contra a maré, que é preciso esperar e aceitar. Que é preciso acreditar teimosamente na felicidade, sobretudo quando ela se esconde. Tenho muita fé nessa energia superior que nos ampara desde toda a eternidade. Sei que nunca estou só, mesmo que assim pareça. Sei que até os desafios, as incompreensões, as injustiças e os medos passam. Tudo passa. Tudo acaba. Tudo é sempre um princípio que caminha para um fim. Tudo menos a alma. Só ela é eterna, só ela não pode ser atingida. Não sei mais nada. Hoje, não quero nem posso saber mais nada.
Capítulo 86
Estou sempre a repetir-me. Despejo palavras, como um vómito da alma. Digo sempre a mesma coisa, mas tenho de o fazer, para continuar a acreditar naquilo em que acredito.
Neste momento assisto a uma situação – uma lição – de vida paradoxal.
No bem que procuro fazer, encontrei ressentimento, crítica e incompreensão. Parece que tudo o que faço, mesmo com a melhor das intenções, resulta numa bofetada. Deixa-me contudo anestesiada, esta situação. Talvez o problema não seja sequer meu, porque quem não me entende ou me julga, injustamente, está pior do que o mal que me está a fazer. Quando nos sentimos atacados injustamente, quando o bem que fazemos é posto em causa o terreno sagrado da verdade violada, então só nos resta imaginar que uma tempestade de chuva fria e de vento agreste nos pretende atingir. Contudo, se uma “janela” estiver entre nós e o vento, este não nos fustigará.
É preciso manter o coração imune, não deixar que a negatividade o contamine e que o ressentimento o envenene. É preciso ver. O mal só nos atinge em pleno, quando acreditamos que é mais forte do que a nossa vontade. O mal que os outros nos causam é sempre fruto da ignorância, logo deve ser visto como tal. Proteger a alma e o coração é não empolgar através da auto comiseração os ataques exteriores.
O único inimigo que devemos temer está cá dentro: somos nós próprios, quando somos vítimas das nossas emoções e pensamentos. Não podemos deixar que as emoções nos controlem mas aprender a controlá-los. Então, o vento que sopre, a chuva que caia, os relâmpagos que ecoem furiosos a nosso redor. Não nos atingirão. O nosso “lar” continuará quente, seguro e protegido. Lá crepitará a lareira da compreensão, do não julgamento, da liberdade interior. E tudo fará sentido…
Capítulo 87
Às vezes não fazemos o que desejamos e podemos – pelo simples motivo que “fazer” é um acto que implica uma decisão, um sair do nosso rotineiro comodismo. Assim, recusamo-nos involuntariamente, a momentos únicos de contentamento por pura preguiça física ou emocional. E depois queixamo-nos, queixamo-nos, queixamo-nos…
Capítulo 88
O crescimento espiritual é tão lento, tão custoso de saborear e tão difícil de transmitir, que não admira que a maioria das pessoas só se aperceba da sua existência ou muito tarde ou quando alguma circunstância extrema o obriga ao seu aceleramento. Crescer espiritualmente é como escalar uma montanha. Primeiro só há pedras soltas, distracções e retrocessos. Depois começa o gosto pela subida. Algures no caminho surge o cansaço e a dúvida: saber para quê? Não será uma perda de tempo? Sobe-se mais um pouco, a contra gosto e surgem obstáculos difíceis de transpor. Há abismos, contornos pouco seguros, insegurança. Surge o medo e algumas vezes o desânimo, quando se pensa que não é possível ir em frente, que não se tem força, nem coragem, nem vontade de subir mais.
Mas depois de algumas vitórias na escalada o cume já se avista. Há um objectivo e uma promessa. Às vezes no derradeiro instante há quem perca o equilíbrio e caia. Há quem deixe de acreditar em si mesmo e resvale para o abismo. E toda a escalada terá de começar de novo… As maiores vitórias perdem-se quase sempre quando estão ao alcance da nossa mão. Quem atinge o pico da montanha sabe que as arranhadelas no corpo, os dedos dilacerados, o cansaço e todas as dores somadas são uma peça diminuta comparando com o prémio que se alcançou. A visão sublime, o silêncio cheio, a paz sem limites de estar com os pés na terra e a alma a tocar o céu.
Mas as palavras nunca serão capazes de explicar o que só a exemplo pessoal proporciona. A vivência espiritual é uma aventura individual, sem espectadores e sem guias. Há setas e sinais, mas o caminho é só nosso. As derrotas são só nossas. As virtudes, essas, curiosamente, são de todos, porque quem sobe ao cume de uma montanha já não consegue mais rastejar e vive para incentivar outros a voarem até ao infinito.
Capítulo 89
Aprendi mais uma lição nova. Surpreendente. O seu teor está perfeitamente englobado na palavra inglesa “surrender”. Apetecia-me continuar a usá-la, como me foi transmitida, mas de alguma forma precisa de encontrar uma tradução que me satisfaça, na minha língua materna. Surrender pode significar “rendição”. Podemos render-nos, a um inimigo e ficar com a ideia que a palavra significa derrota. Mas não é isso. Surrender pode também significar aceitação do inevitável. Rendição no sentido de “não combate”, voluntário. O seu significado não é derrota, mas a escolha consciente de uma atitude que pareça fraqueza, mas é força, que pareça desistência, mas é fé, confiança, entrega. Acho que é isso mesmo; entrega, sem luta desnecessária a um momento que não se pode vencer a não ser pela aceitação.
Eu sempre lutei, sempre tive medo de me “render”, porque isso significava muitas vezes aceitar o inaceitável, deixar-me “dobrar” por uma vontade alheia à minha, fosse ela de Deus ou dos homens.
Mas há situações em que lutar com revolta e não-aceitação é mais doloroso que esmurrar rochas com os pulsos. Só nos fará sangrar e dilacerar a alma inutilmente. Tudo o que é inútil é uma perda de tempo triste e inglória. Sofrer por exemplo uma doença. Aceitar a doença e combater contra ela com aceitação – sem medo ou revolta – é sem dúvida a atitude mais difícil, mas a mais útil, porque é uma atitude positiva geradora de paz e vale por um milhão de lutas negativas que nos atolam no desespero. A morte é outro desses exemplos, tal como a perda dum amor, a perda de segurança, de um emprego, de uma posição.
Na vida os problemas surgem sempre. É inevitável. A vitória de uma vida não consiste em não ter problemas mas sim em escolher a atitude mais correcta para os enfrentar. Sentir raiva, gritar, dizer “não” é por vezes necessário à nossa sobrevivência.
As nossas fronteiras terminam onde começam as fronteiras dos outros e vice-versa. Mas há lutas que só se podem vencer sem violência. Aceitar é procurar tirar do momento presente todo o seu sumo em vez de o maldizer. É encarar os obstáculos como desafios e não como prisões. É compreender que tudo são lições e que é nossa a escolha de as aprender – e ultrapassar – ou de as recusar e ser de novo confrontado com elas. Uma lição por aprender regressa sempre, de novas maneiras, até que o nosso espírito diga “sim, vou abraçar-te, porque só depois podes partir”.
Às vezes esgoto-me em lutas por ideais, por opiniões, por opções que os outros não aceitam e me parecem as certas. Argumento, uso a arma da raiva, da impaciência, da intolerância. Mas nunca venço. Enquanto a boca grita “vence-te” o coração chora, porque não tem paz, não se sente em casa, não sobrevive, inteiro, no caos da desarmonia.
“Surrender” é uma técnica de sobrevivência que só os mais corajosos conseguem empreender. Dizer “sim” à dor, parece renúncia ao prazer e à alegria, mas trata-se apenas de adiar uma satisfação passageira em nome de uma prova maior: sentir o nascer duma paz que nada nem ninguém pode matar, porque se tornou imune a todas as provocações. Sem paz interior é impossível a felicidade. Com dor, sofrimento, perda é possível ter paz, logo ser feliz de uma maneira diferente. É aceitar o presente, tal como é, e ser feliz aos bocadinhos. Humildemente, com gratidão. É isto que eu aprendi com a palavra “surrender”, é exactamente assim que espero ser capaz de enfrentar, daqui para a frente, todos os meus “demónios”.
Capítulo 90
Quando um pensamento nasce e se torna em vontade, medo ou desejo, a sua realização concreta torna-se real e transforma-se em acção. Teremos sempre de ter cuidado com o que tememos e desejamos. Se acreditarmos num mal futuro, ele virá. Se acreditarmos numa bênção futura, ela virá. O que pedirmos, obteremos, o que procurarmos, encontraremos. O que pensarmos, seremos…
Capítulo 91
Aquilo que mais me cansa, hoje, é a noção que cada passo parece um retrocesso. Dou dois passos para a frente e logo a vida me testa e me faz recuar três. Estou parada, lutando. Imóvel, esbracejando. E a corrente arrasta ressentimentos, incompreensão, lutas mesquinhas, um vazio na mente e um peso no coração.
Estou no deserto e só a fé me permite acreditar que do escuro que me rodeia, na monotonia da vida, de todos os conflitos, uma luz irá surgir e a paz abraçará o que sou. Não serei eu a alcança-la, será ela a alcançar-me a mim.
Capítulo 92
Somos o que fazemos, ou fazemos o que somos? Acho que é uma dúvida importante. Eu acho que “faço” o que sou. O bom, ou o mau, faço-o porque transmito a minha forma de agir, de sentir e de pensar nas minhas acções. Posso até levar os outros a pensarem que o que faço, sobretudo o que faço conscientemente bem, me define como pessoa. É falso. Nos momentos de crise, de impaciência, de teste, a forma como actuo, o que faço, espelha o que sou, mostra os meus medos, fraquezas, inseguranças. Posso quase sempre, com mais ou menos esforço controlar o que eu faço. Raramente consigo controlar o que sou.
Capítulo 93
Descobri uma realidade terrível, assustadora: o ressentimento que o amor nos pode causar. Quando sacrificamos tempo, sonhos, desejos e forças para estar junto de quem amamos, para os proteger, para lhes facilitar a vida, podemos, sem o perceber, acumular frustrações que, mais tarde ou mais cedo rebentam numa depressão ou numa impaciência incontida.
Dor, dor, dor até à exaustão. Dar sem esperar recompensa, mas calcando sonhos próprios, pode pagar-se muito caro. Não é raro olharmos os que mais amamos mas estão dependentes de nós fisicamente, ou emocionalmente com um certo amuo. Por causa deles não podemos fazer, não podemos ser, não podemos escolher, o que nos apetece fazer, ser e escolher.
Ser altruísta, generoso, abnegado, pode não ser tão inofensivo como parece. A morte dos nossos sonhos nunca é pacífica.
Talvez por isso seja necessário termos paciência com a nossa natureza. Se um pai ou uma mãe doentes nos roubam todo o tempo e energia, não nos devemos sentir culpados, por alguns momentos nos apetece fugir e deixar o “fardo” noutros ombros.
O cansaço é humano. O nosso limite é testado vezes sem conta até aprendermos a alcançar o meio-termo “mágico” que nos permite continuar a viver as nossas escolhas, sem desprezar as nossas obrigações. Duma coisa estou certa: amar é prescindir, voluntariamente, de ter sossego na vida. Mas isso é estar vivo.
Capítulo 94
Quando alcançamos a compreensão duma verdade, quando ela nos parece clara e a nossa convicção segura, surge o teste. E o teste é sempre uma perda, uma humilhação ou injustiça. É algo que nos abana, de dentro para fora, até ter a certeza que a nossa certeza é uma planta com raízes.
Não é aquilo em que dizemos acreditar que é importante. Importante é a capacidade de nos mantermos fiéis, sejam quais forem as circunstâncias, às verdades teóricas que proclamamos. Não podemos amar a justiça, sem conhecer a injustiça. Não podemos sentir o amor, se não cruzamos a linha do rancor. Não podemos entender a paz, se não lutamos algum dia. Não podemos saber o que é vencer, sem conhecer o fel da derrota.
É na prática, nunca na teoria, que mostramos o peso das nossas convicções e seremos testados uma e outra vez, até Deus nos confiar outro teste mais elevado, por missão. A isto chama-se evoluir espiritualmente e faz-se muito, muito devagarinho, porque o tempo tem uma paciência infinita e nunca desiste de nós.
Capítulo 95
Recebi uma mensagem. Chegou quando devia chegar e diz assim: “Se queres muito alguma coisa deixa-a livre. Se ela voltar será tua para sempre, se não, é porque nunca foi tua de verdade. A liberdade é o espaço que a felicidade precisa.”
Se assim é, o que penso perder, nunca possuí e o que conquistei sempre foi meu. O segredo é o desprendimento, a liberdade interior que nos permite possuir sem orgulho ou perder sem mágoa. A isto chama-se felicidade.
Capítulo 96
Tantos mundos paralelos se cruzam no meu trajecto. Mundos onde habita o luto, a incompreensão, a dor. Almas desesperadas, num quarto trancado às escuras. A janela está lá. Por trás está a luz, mas a janela tem as portadas cerradas e estas só abrem por dentro e ninguém pode abri-las na vez de outro alguém. Revolta, raiva, apegos. Algemas que a alma aceita, sem questionar a razão. Sem chegar a perceber que a chave que as abre está na própria fechadura, ao alcance do coração.
Mas tudo é necessário: a dúvida, o erro, a dor, a raiva, o desespero, a procura, a perda, a solidão. Um dia o cálice chega à última gota e a travessia está completa. Sem cruzar todas as etapas do conhecimento interior, sem despir as capas pesadas que sufocam a alegria e estrangulam a paz, sem aprender a sofrer vendo na dor uma lição, sem morrer todas as mortes antes da morte chegar, não se cresce, não se é homem, não se torna tudo simples, transparente, imperturbável como o lago da verdade.
Todas as experiências são positivas porque, juntas, são a herança da alma. Tudo o que se aprende é útil, um dia, quando menos se espera. Combater a ignorância e treinar o desapego são dois combates espirituais obrigatórios para quem procura a “luz”. Sem elas continuaremos a apalpar o mundo, como cegos errantes, num círculo ininterrupto de caminhos repetidos que não nos levam à saída mas ao ponto de partida. E viveremos milhares de vidas até entendermos o sentido de cada uma delas. Até esgotarmos o leque das emoções, dos sentimentos, das escolhas e já não existe mais nada para sentir ou experimentar.
Acredito que todos teremos de lá chegar e acredito que o nosso caminho só se torna mais plano, quando nos esforçarmos por tornar menos duro ou solitário o caminho de alguém. Afinal, contra toda a lógica do mundo, vivemos, apenas, para aprender a amar...
Sunday, March 2, 2008
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