Wednesday, January 2, 2008

Talvez...

Talvez

Talvez não ser,
É ser sem que tu sejas,
Sem que vás cortando
O meio-dia com uma
Flor azul,
Sem que caminhes mais tarde
Pela névoa e pelos tijolos,
Sem essa luz que levas na mão
Que, talvez, outros não verão dourada,
Que talvez ninguém
Soube que crescia
Como a origem vermelha da rosa,
Sem que sejas, enfim,
Sem que viesses brusca, incitante
Conhecer a minha vida,
Rajada de roseira,
Trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
Sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

Pablo Neruda

Talvez… palavra que encerra em si essa certa incerteza que só os poetas conseguem apreender, por momentos, na rima de uma palavra. Nos contrastes que se fundem, misturando os sentidos, invertendo a razão, inventando cheiros, sons, emoções. Tal como o amor que, de cada vez que nasce, é novo, único, irrepetível. Sobretudo indizível…
Pergunto-me: em que botão mágico do nosso ser toca o amor, ao ponto de alguém poder exclamar, como o poeta: «E desde então, sou porque tu és…». Porque tu és, porque tu existes, porque tu me alimentas o pensamento, sou. Sou em função de uma nova forma de olhar a realidade, que é só minha, porque quem ama vê no ser amado o que ninguém consegue ver. Vê «essa luz que levas na mão, que talvez mais ninguém veja dourada».
Começo a desconfiar que quem ama não vê o que o outro é: vê-o pintado com as cores de si mesmo. Inventa-o. Acrescenta-lhe poderes, que talvez ninguém veja… precisamente porque não existam.
Por isso, «quem o amo feio, bonito lhe parece», por isso é possível amar quem é, de facto, incompatível connosco. Pode-se amar quem nos magoa, nos desilude, nos quebra a vontade de viver. Ama-se, afinal, quem não seria jamais uma escolha racional.
O amor, entre duas pessoas, o amor que envolve a sexualidade, é talvez a ilusão mais realista da história. Sem sexualidade, o amor pertence a outra área dos sentimentos: o amor amizade, o amor da família, o amor a um ideal. Estes são amores realistas, que não envolvem o lado caótico do sentimento de posse ou do ciúme.
O amor romântico é, de longe, o sentimento mais fundamentalista de todos. Consegue, numa fracção de segundos, com uma única palavra ou gesto levar uma alma ao céu ou ao inferno. È tudo ou nada. Por ele se morre e se mata. Por isso os poetas o tentam decifrar, com palavras que ninguém decifra.
Alberoni, o meu guru em termos de Sociologia, defende que enamoramento (paixão) e amor são diferentes. Vamos analisar um pouco o primeiro. Segundo Alberoni «a polaridade da vida quotidiana é entre tranquilidade e desapontamento; a do enamoramento, entre o êxtase e o tormento. A vida quotidiana é um eterno purgatório; no enamoramento, há só ou o paraíso ou o inferno, ou somos salvos ou condenados». O enamoramento não nasce porque se quer. Curiosamente só se apaixona quem atingiu nas suas relações e experiências uma profunda estagnação. Quem está insatisfeito. Cansado. Sem mais nada a perder. «Ninguém se enamora se está, embora parcialmente, satisfeito com o que tem e com o que é. O enamoramento nasce da sobrecarga depressiva, isto é da impossibilidade de encontrar algo que tenha valor na existência quotidiana. (…) Não é a nostalgia de um amor que nos faz enamorar, mas a convicção de não termos nada a perder tornando-nos naquilo que somos».
Chegados aqui começamos a perceber que o enamoramento é uma revolução. Pode ser o início de um novo amor, ou o anúncio do fim dum amor já «gasto». Pode desenvolver-se para um processo de amor, ou não sobreviver face à realidade. Talvez por isso, como diz Alberoni «O enamoramento mais intenso é aquele que põe em jogo mais existência, mais riqueza, mais responsabilidade, mais vida. O enamoramento é uma revolução: quanto mais complexa, articulada e rica for a ordem, mais terrível é o desenvolvimento, mais difícil, perigoso, arriscado o processo. È frequente enamorarem-se duas pessoas das quais uma possui grande riqueza de existência e a outra grande possibilidade de mudança, porque tem menos vínculos, como seja o caso de uma pessoa casada e uma não casada, de uma adulta e de uma jovem, ou de uma política ou religiosamente) comprometida e uma não comprometida. Quem tem vários vínculos, vários deveres, várias coisas a integrar e a mudar, é aquela para quem o enamoramento é mais perturbante.» E, inevitavelmente, conclui: «É mais fácil o amor surgir quando as duas pessoas se encontram numa situação mais equilibrada, mas, paradoxalmente, neste caso também o enamoramento é menos intenso. (…) Um enamoramento pode por isso marcar, perturbar profundamente a existência de uma pessoa ou de duas sem criar amor, e, ao invés, é possível surgir o amor sem um enamoramento perturbante, mas de um encontro sereno, do prazer de se estar junto, de se poder facilmente estabelecer aquele querer em conjunto o que cada um quer, e o pacto institucionaliza-o». Só isto justifica o que Alberoni diz: «Será possível amar simultaneamente duas pessoas? Certamente. Amar uma e enamorar-se de outra? Certamente. Estar enamorado de duas? Não»
E posto tudo isto onde quero eu chegar? Confundir quem me está a ler? Não. A observação da realidade tornou-me cortante. Acredito que o amor e paixão põem ser realidades complementares, mas isoladas. Uma pode existir sem a outra. O grande problema de muitos casais é, precisamente, confundirem os conceitos. Vejo que milhares de pessoas vivem a fingir que são felizes com o mito do «casaram e foram felizes para sempre», alimentando a ilusão de uma paixão eterna. Há quem consiga viver com um amor firme ao passar de forma sábia do enamoramento para o amor. Mas uma grande maioria não. A maioria engana-se, finge, encontra escapes, conforma-se. Sofre em silêncio. Outros enamoram-se…e sofrem a dobrar. Uma minoria consegue ter a coragem de separar o trigo do joio e assumir aquilo que sente e quer, doa a quem doer, por uma questão de verdade interior.
O poeta fala de amor e diz ao terminar o seu poema «Talvez»: «Sou porque tu és… e por amor serei, serás, seremos». Deixo de lado o realismo e permito-me ser embalada pelas palavras outra vez… e, bem no íntimo, sei que, para termos a certeza se o que sentimos é mesmo amor, «talvez» seja necessário imaginar o passado o presente e o futuro junto da mesma pessoa. O que sente? Alegria ou sofrimento? Excitação ou monotonia? Paz ou desespero? «Talvez» só assim lá chegue e perceba em que patamar da vida anda: do enamoramento, do amor, ou no limbo da procura… uma delas terá de ser. E seja qual for não é a certa ou a errada…é apenas a que as circunstâncias, tantas vezes cómico-trágicas da vida, engendraram para si…

1 comment:

Francisca said...

Talvez ... bela reflexão. Faz bem à alma vir cá! Tudo aqui neste blog parece construir a sua logica... mesmo que uma logica subjectiva. é disto que uma pessoa precisa para alimentar a alma. quem se sentaria a pensar nestas coisas num mundo tao apressado como aquele em que vivemos hoje? * este é decididamente uma espaço muito agradavel, para quem gosta de ler, para quem reflectir e para quem nao dispensa qualquer teoria ou reflexao que o faça perceber ou confundir o seu conceito de "existência".

um beijinho,
Francisca