Monday, November 19, 2007

«Tristão, Isolda e o filto do amor»

Ando a ler vários livros ao mesmo tempo. Para mim não é complicado. É, isso sim, divertido, porque por vezes, ao ler autores com ideias antagónicas, sinto um imenso prazer em perceber,como mera espectadora, a força com que pessoas diferentes defendem ideias opostas, com a mesma inabalável convicção. É por isso que sou incapaz, hoje em dia, de ter ideias inabaláveis seja lá sobre o que for. Penso, leio, releio, procuro, sinto esta curiosidade insaciavél em perceber, saber, ir mais além... mas não sinto a necessidade do conforto de encontrar respostas embrulhadas e prontas a consumir. Não as há.
A vida vai mudando e alargando a nossa forma de ver as mesmas coisas, ou então estagnámos, mumificámos nalgum degrau do processo de viver. E perceber esta realidade não me causa angústia, pelo contrário, começa a ser algo que me dá um imenso gozo. Este mar imenso de possibilidades à minha frente...esta certeza que nunca saberei tudo o que há para saber...que haverá sempre algo mais para aprender para me «espantar».
Ando a ler António Damásio e «O Erro de Descartes» e ao mesmo tempo «Maturidade» de Osho, entre outros livros. Não deixa de ser curioso que se possam pegar nas mesmas ideias e vesti-las com uma roupagem científica e espiritual. Vejamos os conjuntos que descobri...
Começo pela abordagem científica do consagrado autor de livros como «O sentimento de Si» e «O Erro de Descarte» e lamento ter de dizer que, de acordo com António Damásio, em termos neurobiológicos, emoções não são ideias meio etéreas e românticas, mas sim estados do nosso corpo. Um conjunto de processos químicos, aprendizagens e reacções inatas que nos levam a reagir, a cada momento, a estímulos que visam a preservação da vida do corpo. Já os sentimentos serão algo que se segue às emoções, em último caso o complexo processo de perceber que temos essas emoções e de as avaliar cognitivamente e reagir a elas.
Pode parecer pouco romântico, mas explica muita coisa para mim. Explica, por exemplo, o facto de muitas vezes não sermos senhores absolutos das nossas decisões ou reacções. De existirem no nosso cérebro processos neurais e químicos que podem desencadear respostas que escapam ao poder da vontade dita consciente.
Há um sub-capítulo no capítulo Seis do livro, com o título «Tristão, Isolda e o filtro do amor» que nos dá uma ideia alargada da opinião de António Damásio sobre esta problemática. Transcrevo: «Existem, de facto, poções nos nossos organismos e cérebros capazes de nos impor comportamentos que podemos ser capazes, ou não, de eliminar através da chamada força da vontade. Um exemplo elementar é a substância química oxitocina (...) O seu efeito não fica em nada atrás do efeito dos elixires lendários. De um modo geral influencia toda uma série de comportamentos higiénicos, locomotores, sexuais e maternos. Um bom exemplo encontra-se nos estudos de Thomas Insel sobre o arganaz, um roedor com uma belíssima plumagem. Após um namoro fulminante e um primeiro dia de copulação repetida e apaixonada, o macho e a fêmea tornam-se inseparáveis até à morte (...) Não ha dúvidas que os seres humanos estão constantemente a usar muitos dos efeitos da oxitocina (...) Podemos acrescentar à neurobiologia do sexo, a respeito da qual se sabe já bastante, os primórdios da neurobiologia do afecto e, munidos de ambos, lançar um pouco mais de luz sobre o complicado conjunto de estados e comportamentos mentais a que chamamos amor»Por aqui depreendo que até o amor, mais tarde ou mais cedo terá uma leitura neurobilógica. Mas para exemplificar o poder das «forças ocultas e indomáveis que por vezes se conseguem sobrepor à vontade própria», nas palavras do autor, muitas vezes atribuídas ao destino ou à magia, o mesmo recorre à história lendária de Tristão e Isolda que, ao beberem por engano um «filtro do amor», se perdem de paixão um pelo outro, sem o desejarem, tornado-se incapazes de resistir à força ilógica dessa emoção proibida, acabando ambos de forma trágica.
A questão que se coloca é esta: se há, de facto, «poções» que ao actuarem no nosso organismo impõem comportamentos que a força da vontade não consegue controlar, como o exemplo do efeito da oxitocina, produzida no cérebro e no corpo dos mamíferos e que influencia comportamentos sexuais, locomotores e maternos; facilita as interacções sociais e induz a ligação entre amantes, entao será que a paixão é um simples e inevitável truque químico, que ocorre sem o nosso consentimento ou controle? Será que a oxitocina explica as paixões sem limites, quer de arganazes, quer de humanos (no caso dos araganazes a paixão pelos visto é eterna até que morte os separe..já os seres humanos não podem dizer sempre o mesmo...) ?


Dá que pensar não dá?


Entretanto vejam o que diz Osho, esse polémico e igualmente consagrado autor indiano, e estudioso da espiritualidade, sobre o amor e a paixão. Num capítulo que fala de «dependência, independência e interdependência» num «relacionamento maduro» , vai dizendo coisas deste género e que vou transcrevendo para exemplificar a sua opinião sobre o tema:


«O homem adquire maturidade no momento em que começa a amar mais do que a precisar»


«Quando você está dependente do outro há sempre infelicidade. No momento em que fica dependente, você começa a sentir-se infeliz porque a dependência é escravidão»


«Sempre que duas pessoas são infelizes juntas não é uma simples adição, é uma multiplicação»


«Aqueles que se apaixonam não têm amor nenhum, foi por isso que se apaixonaram. E como eles não têm amor nenhum, não o podem dar. E uma coisa mais - uma pessoa imatura apaixona-se sempre por outra pessoa imatura, porque só elas conseguem compreender a linguagem uma da outra. Uma pessoa madura ama uma pessoa madura. Uma pessoa imatura ama uma pessoa imatura» ( evidentemente Osho nunca ouviu falar da oxitocina,mas também não precisava... )


«Na realidade uma pessoa com maturidade não se apaixona, cresce em amor»


«Quando duas pessoas maduras estão apaixonadas ( caramba, a paixão afinal é para os maduros também? pensei que seria só para os imaturos..mas continuemos) acontece um dos maiores paradoxos da vida, um dos fenómenos mais belos: estão juntas e apesar disso estão tremendamente sozinhas. Estão tão juntas que praticamente são uma só, mas a sua unicidade não destroi as suas individualidades - na realidade, realça-as torna-as mais individuais. Duas pessoas maduras apaixonadas ajudam-se uma à outra a serem mais livre. Não há nisso nem política, nem diplomacia, nem esforços para dominar.» ( admito que concordo com a maioria do que ele diz..menos na história da paixão..aí prefiro a teoria da oxitocina...)


«A liberdade é um valor mais elevado do que o amor. Por isso, se o amor estiver a destruir a liberdade, esse amor não tem valor. O amor pode ser abandonado, a liberdade tem de ser salva - a liberdade é um valor mais elevado. E sem a liberdade você nunca poderá ser feliz, isso não é possível»


Mas há mais...veja o que pensa este autor sobre o casamento ( o que pensariam os arganazes disto, se pudessem ter sentimentos além de emoções???)


«Ninguém se deveria casar com uma mulher ou com um homem num estado de espírito poético. Deixe que surja o espírito da prosa, e depois case-se. Porque o dia a dia é mais parecido com a prosa do que com a poesia» ( E não é que ele sabe mesmo o que está a dizer? talvez a taxa de divórcios baixasse drasticamente se tal ideia fosse posta em prática. Claro que metade dos casamentos também não se realizariam...)


«Uma pessoa deveria adquirir maturidade suficiente. Maturidade significa que se deixou de ser um palerma romântico. (Esta doeu para quem se considera romântico, não doeu?). Que se compreende a vida, que se compreende a responsabilidade da vida, que se compreendem os problemas de estar junto de uma pessoa. Não se espera que tudo seja um paraíso, que tudo sejam rosas. Não se espera nenhum absurdo; sabe-se que a realidade é dura, é difícil. Haverá rosas, mas só de longe em longe; haverá muitos espinhos.» (Não há como negar que estas palavras fazem sentido...doa a quem doer.)


«O amor não é uma paixão, o amor não é uma emoção. O amor é uma compreensão muito profunda de que, de certo modo, alguém o completa a si. Alguém faz de si um círculo completo. A presença do outro faz realçar a sua presença. O amor dá-lhe liberdade de ser você mesmo; não é possessivo. Por isso, fique atento - nunca pense no sexo em termos de amor, caso contrário terá uma decepção. Esteja vigilante e quando começar a sentir em relação a alguém que basta a presença, a pura presença - nada mais, nada mais é necessário; você não pede nada, basta que o outro seja, é suficiente para o fazer feliz (...) é porque você está apaixonado. E então poderá passar por todas as dificuldades que a realidade cria.» ( Será que António Damásio já leu as teorias de Osho? Será que elas ajudariam a completar um estudo sobre a neurobiologia do amor? ...afinal Osho também percebeu que o amor não é uma emoção... )


E perante isto tudo pergunto-me: que ideias escolher? optar pela paixão ou o amor? E porque não as duas? E, já agora, que mal pode haver em deixar a oxitocina fazer o seu papel biológico inevitável e, ao mesmo tempo, mantermos a nossa capacidade de pensar e decidir - de sentir - fazer o seu papel de gestão das emoções?


De uma coisa estou certa, neurobiologia e espiritualidade à parte, ainda há uma margem enorme de capacidade de escolha no ser humano. Até o direito de errar na escolha é uma capacidade que prova inteligência. Escolha. Liberdade. Felizmente, além de um fantástico e complexo organismo, ainda somos seres indecifraveis, capazes de atitudes e escolhas. Somos corpo e mente. Somos biologia e espiritualidade. A maior dificuldade, ocorreu-me agora, não é a de não termos escolhas. Temos. A dificuldade no meio disto tudo é a de escolher o melhor entre várias boas opções.

Eu sei que já estou a misturar isto tudo, num bolo confuso, com mel e fel à mistura. Já é tardíssimo e tenho de ir dormir, por isso termino com as palavras do Padre Vasco Pinto de Magalhães ( eu disse que andava a ler muitos livros diferentes...) e que, no que toca a escolhas na vida, resume tudo o que é importante saber nestas linhas desarmantemente simples:


«Primeiro pára, senta-te e pesa o que pretendes de bem. Depois, pondera, não as hipóteses teóricas, mas as possibilidades reais. Então, entre duas realidades, podes escolher a melhor. Decidir não é descobrir a única hipótese boa, é decidir, entre coisas boas, qual é a melhor, a mais construtiva para si e para os outros. Se é fácil ou difícil, isso não conta».
E não é que de tudo o que li e escrevi...só isto, acreditem, me abalou realmente? ...

3 comments:

Anonymous said...

Não sendo avalista de estereótipos, diz-se que as pessoas ditas "burras" são mais felizes do que as ditas "inteligentes". E Porquê?
Porque as "burras" não pensam muito, não perguntam os "porquês" da vida, riem-se de tudo e para eles está tudo bem, não têm ambições! Já as "inteligentes" pensam muito, colocam muitos porquês, têm muitas ambições que, quando não atingidas, levam à frustação. Agora eu pergunto (lá me estou a armar em inteligente, coisa que não sou...bem...dizem que dizer isto é sinal de inteligência...ai...stop!), eu pergunto:
Qual o melhor, ser feliz com o pouco que se sabe, ou ser infeliz com o muito que não se sabe?! Afinal a escolha não é nossa?!...........Isto das teorias mentais deve ser como os buracos negros, ou seja, são muito grandes, complexas, mas não se sabe bem o que lá está!
E quando "des"criogenarem e devolverem à vida o primeiro homem, um walt disney ou outro qualquer...se um dia isso acontecer...que acontece à teoria da alma e tudo o resto que abarca?! (lá estou eu armado em inteligente outra vez ;) ).....

Bom, está um texto muito interessante...muito maduro ;)
Abordas 2 vertentes dum mesmo assunto...razão? Não posso dar a nenhum deles, agora a ti, dou pelo que escreveste! Parabéns

Não há acasos said...

Tambem acho...que as pessoas «burras» são masi felizes. Só quenao sabem. E eu prefiro, às vezes, ser menos «feliz» e saber...tudo tem um preço e saber custa sangue e suor e lágrimas. E cada uma delas vale a pena.
Obrigado pelo comentário, «por acaso» inteligente! :))

Anonymous said...

Escolher...Pois aí é que está a dificuldade! Mas pelas palavras do Padre se é difícil ou não, não é isso que interessa!E pensando bem, está muito bem dito. Porque quando chega a altura (e há muitas alturas dessas) de escolher, de tomar decisões, complicadas ou não, temos de arriscar, porque é sempre um risco visto que não há certezas cem por cento absolutas na vida, temos de optar por um caminho! E que seja pelo mais estreito, como nos ensinaram na catequese, porque todo o esforço compensa! :) ****
Daniela Costa