Há um pequeno livro que me tem feito pensar muito. Já o tenho há uns anos e não me canso de o reler, sobretudo nos momentos em que a tentação de me «apegar» a alguém ou a algo me puxa com força. O livro é de Anthony de Mello, chama-se «Apelo ao amor» e diz coisas tremendas, que abalam, porque nos tiram o tapete debaixo dos pés. Sigam-me e percebam porquê...
«A razão de ser infeliz é concentrar-se naquilo que não possui, em vez de naquilo que possui agora»
«Não são o mundo e as pessoas à sua volta que o fazem feliz, mas sim os pensamentos que nutre na sua mente. Procurar a felicidade fora de si é o mesmo que procurar um ninho de águia no meio do oceano.»
«Outra falsa crença: pensa que se todos os seus desejos forem satisfeitos, será feliz. Não é verdade. De facto, são esses mesmos desejos e afectos que o deixam tenso, frustrado, nervoso, inseguro e amedrontado»
«A realização do desejo traz, quanto muito, lampejos de prazer e arrebatamento. Não os confunda com a felicidade»
«Ficamos ligados para sempre àquilo que somos forçados a abandonar»
«O que é o apego? É um estado emocional de obstinação causado pela crença de que sem determinada coisa ou pessoa voçê nao pode ser feliz»
«O que é cego não é o amor, mas o apego»
«Se deseja viver em plenitude, tem de adquirir um sentido de prespectiva. A vida é infinitamente maior do que essa insignificância à qual o seu coração se apega e à qual deu o poder de o perturbar tanto. Insignificância, sim, porque se você viver o bastante, em breve chegará o dia em que ela deixará de ter importância. Não será sequer lembrada - você tem experiêcia suficiente paa comprovar isso. Hoje, de certeza que mal se lembra de determinadas situações que foi vencendo e deixando pelo caminho; aquelas tremendas insignificãncias que tanto o perturbaram no passado»
«Sempre que houver conflito entre a Natureza e o seu cérebro, apoie a Natureza. Se a combater ela acabará por destruí-lo.»
«Pode amar alguém de quem é escravo? Como pode amar alguém, quando sem ele não consegue viver? Só pode desejar, necessitar, depender e temer, além de ser controlado. O amor só existe onde há destemor e liberdade.»
«Se o que procura é destemor e liberdade, precisa de, agora mesmo, desistir de ser «especial». Como? Não levando ninguém a sério quando lhe dizem o quanto é especial.»
«Se conseguir ver isso com clareza, perderá o desejo de ser «especial» ou de ser altamente considerado por alguém. Andará com todo o tipo de pessoas e fará e dirá o que quiser, independememente do que pensam a seu respeito. Será como os pássaros e as flores que são completamente espontãneos ocupados demais com a tarefa de viver para dar a mínima importância ao que os outros pensam deles; se são ou deixam de ser especiais para eles. E, finalmente, será livre e destemido»
«O amor nasce da consciência. Só ama as pessoas quem é capaz de as ver como realmente são, aqui e agora, e nao como existem na sua lembrança, no seu desejo, na sua imaginação ou projecção; qando as ama de verdade; de contrário não ama as pessoas mas a ideia que delas formou; como objecto do seu desejo, não como elas são em si mesmas.»
«O amor que nasce da sensibilidade asume muitas formas inesperadas e reage, não a princípios pré-fabricados, mas à realidade cncreta e presente.»
«Os acontecimentos felizes fazem da vida um prazer, mas não levam à descoberta de nós próprios; nem ao crescimento ou à liberdade. Esse privilégio é reservado às pessoas que sofrem; às coisas e situações que nso causam dor.»
«Se houver algo que eu possa fazwer neste momento a respeito domeu futuro, fa-lo-ei, caso contrário, não me vou incomodar com isso e voué aproveitar o momento presente, porque toda a experiência da minah vida me tem mostrado que só posso lidar com as coisas quando estão presentes e não antes de acontecerem. E que o presente me dá sempre os recursos e a energia de que preciso para lidar com elas.»
«Por mais doloroso que seja, o momento presente nunca é insopurtável. Insuportável é o que voçê pensa que vai acontecer dentro de cinco horas ou dentro de cinco dias.»
«Para que possa viver, precisa de encarar a realidade. Só assim deixará de ter medo de perder as pessoas, passando a aceitar a novidade, a mudança e a incerteza. Já não terá medo de perder o que conhece, aguardando com expectativa e dando as boas vindas ao que é estranho e desconhecido. Se é a vida que procura, eis um exercício que talvez seja doloros, mas que, se conseguir realizar, lhe dará a alegria da liberdade.»
«Quase nunca é à realidade concreta desta pessoa ou coisa que você reage, mas a princípios, ideologias, pontos de vista económicos, políticos, religiosos e psicológicos; a ideias preconcebidas e a preconceitos, tanto positivos como negativos.»
E, no fim de todas estas pinceladas de pensamentos, deixo-vos com um texto meu. Um texto que me faz pensar, uma vez mais, que nunca me chega o que sei. Por cada passo que dou, tenho a sensação que há ainda mil por dar. Serei, tenho a certza, uma eterna aprendiz na arte de viver... e ainda bem!
Não quero ser doutora, quero ser discípula eterna!
Nos últimos tempos fiz «greve» às palavras. Elas não «me dizem». São poucas, esgotadas. Entrei no casulo e tenho estado lá, encolhida e confortável, em metamorfose. Hoje saí um pouco, não sei por quanto tempo, mas enquanto a caneta se mantiver na mão e não parar de rabiscar o que a mente lhe dita.
Há alturas na vida em que não temos nada para dar. Nada de novo, entenda-se. Chama-se «deserto» a estes períodos, aparentemente inóspitos, em que há mais questões do que respostas; em que somos invadidos por desafios e mudanças tão radicais na nossa paisagem interior que somos obrigados a admitir que não há nenhum tipo de seguranças interiores ou exteriores a que nos possamos agarrar, porque o «rio» de que somos feitos nunca se alimenta da mesma água. Hoje não sou igual a ontem, nem serei igual a manhã. As circunstâncias, de facto, fazem o homem…
Dou comigo a questionar as certezas de ontem e fico na expectativa das respostas que virão. Deixei de ter medo de me espantar, mas com esta lufada de mudanças e desafios inesperados na minha paisagem interior, perdi um pouco da minha quietude. Não o lamento, apenas o constato. Percebi, além disso, que a vida não é só feita de desafios. Isso é evidente. O que é novo e estimulante é perceber a lógica infalível da sua chegada. Os desafios chegam por etapas e tornam-se cada vez mais complexos e contundentes.
Os maiores desafios chegam numa fase da vida em que é importante abanar as certezas adquiridas. È quase como fazer um curso de pós-graduação. De facto, quando obtemos uma licenciatura pensamos, ingenuamente, que sabemos tudo. Depois somos confrontados com a realidade e, se tivermos alguma coragem e humildade, percebemos que sabemos alguma teoria, normalmente inútil, temos alguma preparação básica para saltar para a prática, mas, sobretudo, descobrimos com alguma decepção que não sabemos a maioria do que é importante saber.
Depois, a vida, a prática, a experiência, o erro, vão moldando a nossa inteligência. E vamos evoluindo, sentindo mais e mais o desejo de aprofundar os conhecimentos e alargar os horizontes intelectuais. Pode ser que nessa altura o «mestrado» apareça como um desafio. E, quanto mais se sabe, mais se tem a noção de não saber o suficiente. Todo o processo de crescimento e evolução passam por aqui, com a «parada» a subir a cada nova aposta. Com os «testes» a serem cada vez mais exigentes. Mas o processo, que fique claro, é feito por etapas, nunca de uma vez só.
Além disso o processo de aprendizagem só pode desenvolver-se se estiverem reunidas duas condições:
1ª Sentirmos o apelo inquieto que nos leva a querer evoluir no conhecimento.
2º Aceitarmos as dificuldades, estudo e testes, inerentes ao processo.
Não se aprende nada de útil sem reconhecermos a nossa ignorância. Não se evolui sem a ânsia de o fazer. Também na vida é assim. Os testes, de toda a ordem, vão-nos sendo propostos, à medida que estamos preparados para os enfrentar. Não sem «estudo», não sem esforço, não sem uma entrega de corpo e alma à missão de «crescer». Não sem aceitar com sentido de humor e «fairplay», a possibilidade real de «chumbarmos» o teste e ter de começar tudo, de novo, mas de outra maneira.
Hoje tenho a noção que dei alguns passos nesta «escalada», mas tenho a noção ainda mais clara que o pico da «montanha» está muito longe. Tão longe que até parece que todos os passos já dados não me fizeram avançar a não ser uns «metros» de alma. Não é assim, contudo, ou nem sequer teria a capacidade de estar aqui a partilhar essa sensação com quem é tão inquieto como eu e me segue mais nas entrelinhas do que nas linhas que escrevo.
As grandes «provas» são-nos apresentadas mais ou menos assim: se aprendemos a enfrentar com serenidade a dor e a perda, se passámos esse teste e sabemos que a revolta não traz a liberdade da paz, alcançamos um estádio de evolução que nos faz passar para uma outra etapa. Por exemplo, ser confrontados com a riqueza ou o poder. E se estes não nos seduzem, se aprendemos com eles o desapego e a partilha, então poderemos ser confrontados com as nossas paixões. O domínio das emoções, das guerras interiores, dos conflitos. A paixão no que tem de apelativo e de «consumista», de terrível, de envolvente, de predador. A paixão por causas, por pessoas, por ideias. Se a paixão for vencida, se o facto de perder ou ganhar não afectar os nossos valores e equilíbrio, aprendeu-se a lição do desapego. E aí, quando parece que nada mais há a perder, há ainda a lição do desapego supremo: a certeza da nossa morte, da decadência física, da perda de poder real sobre a vida. E por aí fora…
Todos os testes essenciais têm algo de comum. Estão intimamente relacionados com os nossos sentimentos e emoções. Tocam a alma, onde somos únicos e parecidos. Moldam a nossa essência, «lapidam» o diamante bruto da nossa alma e obrigam-nos a ganhar transparência. É um processo lento e doloroso, porque a maior paciência reside na aceitação das nossas falhas e erros sem auto-culpa. Aceitar que temos o direito de errar, de fazer opções insensatas, de bater com a cabeça na parede. Saber sorrir da nossa fraqueza. Dar palmadinhas de consolo nas nossas próprias costas, como o fazemos a um amigo que está em baixo. Aceitar o erro, sim, mas com esta condição: ter a certeza que a conquista suprema da evolução é aprender com a lição do erro a crescer quilómetros de alma e, assim, enriquecer o nosso «curriculum» interior.
A caneta parou na minha mão. O coração não parou, mas deseja regressar ao «casulo». Limitou-se a deixar aqui uma amálgama de palavras, sensações e dicas, só para quem é capaz de as subentender. E só mais uma coisa: embora os «testes» se teçam no tempo, nada têm a ver com o passar dos anos. Um só minuto, por vezes, representa mais do que décadas de vida. Por isso quero deixar, antes de continuar a minha metamorfose silenciosa, uma confissão pouco ortodoxa aos apaixonados da vida, como eu: assumo, aqui e agora, que estou a «estudar» e quero ser tratada como estudante. Que ainda não aprendi tudo, não vivi tudo, não me espantei com tudo e que sinto uma indescritível alegria por o saber. Não capitulei perante a rotina dos «canudos» adquiridos. Não quero ser tratada como doutora, quero ser uma discípula eterna. Ouso beber, até á ultima gota, o cálice dos desafios. Piso o terreno sagrado do que é novo. Prefiro arriscar, mesmo perdendo, do que calçar as pantufas do comodismo emocional. Arrisco ser radicalmente livre, ao ponto de assumir que as minhas certezas de sempre não me protegem dos fracassos e que, estes, são adubo para futuras vitórias.
Regresso então ao casulo e deixo-vos com uma pergunta e uma resposta que me fizeram sair dele, enquanto lia «A saga de um pensador» , de Augusto Cury.
A pergunta é: «Qual é a diferença entre um poeta e um poeta da vida?»
A resposta é: «Um poeta escreve poesia, um poeta da vida vive a vida como uma poesia» …
Bom «estudo», amigos leitores, até aprenderem, como eu quero aprender, a viver a vida, nas suas múltiplas apostas, sem julgamentos nem preconceitos, como a mais bela poesia: aquela que ainda não foi escrita e só o nosso coração saberá escrever, quando se tornar poeta…
Wednesday, October 3, 2007
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2 comments:
Olá madrinha!
Ao receber o seu mail não resisti à curiosidade de passar por aqui e ver o que escreveu!
Resultado: Deliciei-me ao ler tão belas e profundas palavras... E porque em cada momento há palavras que nos tocam, este foi um dos textos que mais me fez reflectir.
Vou ser uma visitante asssídua do seu blog.
Um beijinho.
Ola Fátima,
Serás sempre bem vinda...sempre! Um abraço
Any
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