Muito a propósito do meu último tema, partilho, sem grandes comentário, um texto que escrevi há muito pouco tempo, quando, por diversas circunstância e perdas me senti eu própria «perdida» e percebi que só me podia encontrar, «esquecendo».
O título resume toda a mensagem...
«Se algum dia perderes alguma coisa preciosa para ti… esquece-a!»
Estas férias foram muito especiais para mim, não só pelos sítios novos que conheci, pelo sol e pelo mar que gozei em pleno, pela companhia deliciosa dos que mais amo e dos muitos amigos, mas sobretudo pelas coincidências incríveis que me aconteceram e pelo muito que aprendi numa fase algo complexa da minha vida.
Há alturas em que andamos bem e há outras em que andamos a «lamber» feridas. Em que fazemos luto. E, se conseguirmos ser suficientemente serenos e maduros, sabemos que nestes momentos menos bons faz bem chorar e dar colo à alma. E há outro período em que é indispensável parar de chorar e perceber as pistas que a providência divina – se assim lhe quiserem chamar – começa a semear, como por acaso, à nossa volta, para nos erguermos, renovados e mais fortes, de qualquer tipo de dor. Chorar é bom, mas não ao ponto de afogar a alma… há um momento em que as lágrimas terão de secar e a vida, serenamente, ir em frente.
Curiosamente a questão das vitórias e das derrotas (as perdas) é sempre relativa. Ninguém perde ou é derrotado se aprende algo de importante com a experiência, se a dor em vez de diminuir e tornar mais amarga uma pessoa, lhe ensinar que só perde, realmente, quem não cresce em compreensão, sabedoria, coragem, amor e humildade, em cada perda inevitável.
Quando as circunstâncias da vida nos roubam algo de precioso, nos põem à prova, nos deixam num vazio existencial temporário, é preciso perguntar sempre «para quê?» em vez de perguntar «porquê?». Perguntar «porquê ?» é uma questão errada porque não nos dá uma resposta útil. Faz-nos andar em círculos a mastigar o passado. Perguntar «Para quê?» conduz-nos a pistas. Mostra o que ainda não tínhamos sido capazes de ver. E, isso, significa evoluir.
Foi isso que aconteceu comigo nestas férias renovadoras. Tive a hipótese de comprovar como as «dicas» nos chegam, se estivermos atentos a elas. Li muito, pensei muito e encontrei respostas inesperadas quando deixei de me preocupar com o «porquê» e me centrei no «para quê». Uma dessas respostas veio através de uma situação curiosa, de um desses abençoados «acasos».
Um leitor dos meus artigos ( que ultimamente são poucos, porque ou escrevo com a alma, ou então não escrevo) abordou-me no sentido de lhe dar um apoio na revisão de um livro que tinha escrito e que se revelou uma interessantíssima colectânea de histórias e contos comentados pelo autor, que espero ver publicada muito em breve.
Devorei cada página, deixando que as lições de vida me fossem penetrando e fazendo repensar esta fase da minha vida, marcada por perdas e acertos, tentando descobrir as tais «dicas» que me poderiam ajudar a identificar o «para quê?» de algumas dessas perdas. Num desses contos há uma frase que me permito repetir (o conto terão de o ler, na integra, na altura da publicação do livro do Doutor Luís Mateus) e que revela um conselho fantástico, dado por um pássaro ao seu carcereiro, a troco da liberdade. O conselho é o seguinte: «Se algum dia perderes alguma coisa preciosa para ti… esquece-a».
Quando li esta frase estaquei. Reli-a vezes sem conta até a memorizar para sempre. Esquecer? Mas como se esquece algo que foi precioso? Como se faz ? Mas, depois, entendi. Esquecer é a única opção de «sobrevivência» interior quando a perda de algo precioso é irreversível, quando depois de todas as procuras, depois de todos os esforços, depois de tudo ter sido feito para encontrar o que se perdeu, nada mais há a fazer. Não é esquecer à força, com revolta, com mágoa. É, simplesmente, deixar de estar preso ao que se perdeu (o passado) para o poder recordar, no que teve de feliz, no futuro. È ficar livre…
Se já perdeu um objecto único, se já perdeu alguém que amava, se já foi traído, se sofreu uma imensa desilusão, se a morte lhe roubou alguém «indispensável» , se já perdeu tudo o que tinha a nível material ou emocional, sabe do que estou a falar quando me refiro a algo realmente precioso. E sabe o que custa perder. Deus meu, como custa!
Perder é sempre uma forma de violência. Sentimo-nos roubados, defraudados, injustiçados e invadidos. Mas, como raramente encontramos, inteiro, o que nos foi roubado, temos duas opções: 1ª ficar, dolorosamente, presos à miragem do que foi «nosso» e já não é…ao passado… ; 2ª agradecer o privilégio de ter usufruído de algo precioso e aceitar que nada é permanente, nada é nosso de facto, e que perder pode ser apenas o fechar de um ciclo antes de iniciar outro, eventualmente mais rico. E continuar a viver com a teimosia da alegria colada à alma. Isso é crescer e acreditar, com optimismo, no futuro.
Perder, aceitando, é «esquecer». É não acrescentar dor à dor. Esquecer pode ser perdoar uma grave ofensa, pode ser libertar-se de um apego, pode ser aceitar o inevitável. Esquecer não é, então, «enterrar» à força a dor da perda, mas vivê-la plenamente, de forma aberta, desarmada, sabendo que a frase que diz: «se amares alguma coisa, deixa-a livre para partir; se não voltar para ti é porque nunca foi tua de verdade, se voltar, será tua para sempre» é profética…
Repito: nada na vida acontece por acaso, ou, melhor, Deus escreve nos acasos. Os tais acasos que passam a vida a acontecer-me, simplesmente porque acredito neles. Por isso temos de aprender a aceitar, com serenidade, todas as despedidas e todas as boas-vindas, porque ambas são essenciais e inevitáveis. Podemos perder tudo, mas se conseguirmos distinguir o que na vida é ilusão e o que é sonho, acabamos por perceber que perdemos apenas ilusões. É! No fundo, desiludir-se é apenas isso: perder uma ilusão. Os sonhos, esses, nunca se perdem, porque os sonhos não são «posses», são rascunhos de esperança activos. Os sonhos realizam-se, alcançam-se, não se possuem, por isso não nos desiludem…como as ilusões.
Anthony de Mello dizia que a raiz de todos os nossos sofrimentos é o apego. A ideia, errada, que algo ou alguém é essencial à nossa felicidade, já que a verdadeira felicidade reside na liberdade de não fazer a felicidade depender de nenhuma posse ou ilusão. Estou de acordo. Mas até lá chegarmos, até sermos capazes de fazer esta distinção libertadora, pode ser preciso «esquecer» . Não esquecemos todos da mesma maneira nem ao mesmo ritmo. Uns conseguem fazê-lo com delicadeza, com suprema leveza, sem perder a capacidade de sorrir. Outros precisam de ser radicais, de evitar as memórias, de fugir até conseguirem enfrentar os fantasmas do passado, sem morrer de cada vez que as enfrentam.
Seja como for, todas as experiências da vida, sobretudo as mais fortes na dor e na alegria, servem para a enriquecer. E tudo o que nos faz aprender, crescer, amar mais e melhor, não é tempo perdido. Acredito que aquilo que, de facto, soubemos amar, dando o melhor de nós, investindo tudo sem medida e com verdade, seja a carreira, seja uma relação, seja um filho ingrato dará os seus frutos, mais tarde ou mais cedo, porque foi construído como se constrói um sonho: com sangue e alma, com vida, com esperança. Por isso, não perdemos aquilo em que deixamos as nossas impressões digitais…não podemos perder onde semeámos, onde tatuámos pedaços de nós. Mesmo que depois o sonho voe sozinho, mesmo que já não pareça nosso, leva nesse voo livre uma das nossas asas…
Assim, se perderes algo de precioso para ti, esquece-o. Mas esquece-o no que teve de ilusão, para o poderes recordar, quando estiveres pronto para isso, no que teve de sonho. Ou perdes tudo…a ilusão, já perdida, e o sonho…que a ilusão matou. E não vale a pena. A sério que não. A vida é demasiado bonita e vibrante para vivermos a chorar por ilusões quando há tantos sonhos fantásticos ainda por realizar e tantas memórias preciosas que podemos, docemente, sem mágoa, guardar numa das inúmeras «gavetas» do nosso coração e revisitar, como recordações felizes, sempre que desejarmos… Faz sentido não faz?
Thursday, October 11, 2007
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3 comments:
O famoso texto. É incrível como a sua escrita, que tive a sorte de conhecer, nos envolve de tal forma que chega até a abalar-nos... a mexer realmente cá dentro.
Acho que a Any (custa-me a trata-la assim... mas faço o esforço) percebe o que digo, é como um velho clássico do cinema que vemos hoje e amanha. E de todas as vezes que o vemos tiramos novas conclusões e aprendemos mais alguma coisa. É realmente incrível.
Não me canso de ler os seus textos. Hoje não estou com muito tempo mas suspeito que este blog vai ser um mar para eu me perder... Vou ler tudo tudo !
Continue assim professora.
Gosto muito de si.
E obrigado por, já quase há dois anos, me ter ajudado tanto numa faze menos boa da minha vida. Felizmente hoje posso fazer o que posso e provar aos meus pais (pessoas mais importantes da minha vida) que estava certa. A música não é nem vai ser a minha profissão. É a minha vida. Envolve-me... É isto que eu realmente quero*
=)
Beijinhos,
Francisca Bastos*
Olá Francisca,
encontrar um espaço para expor a alma, falr da, sem medo, não é fácil..mas é uma missão, como outra qualquer...sê bem vinda!
Um abraço
Good words.
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