Friday, October 19, 2007

Não quero este Mundo perfeito

O Mundo Perfeito – Khalil Gibran ( O Louco)

«Deus das almas vagabundas, deus fugido dos deuses, atende-me. Tu, destino que proteges espíritos loucos e errantes como o meu, escuta-me.
Vivo no meio de uma raça de homens perfeitos e eu o mais imperfeito de todos os homens; eu, um caos humano, uma nebulosa confusão, movo-me entre mundos perfeitos, entre povos regidos por leis exemplares, que seguem uma ordem pura, de pensamentos catalogados, de sonhos ordenados, de visões inscritas e registadas.
As suas virtudes, meu deus, estão medidas, os seus pecados estão calculados pelo seu peso e medida e até os inumeráveis actos que acontecem ao crepúsculo, o que não é pecado nem virtude, estão registados.
Aqui, os dias e as noites dividem-se em períodos exactos, e as estações são governadas por normas de precisão impecável. Comer, beber, dormir, cobrir o corpo e depois cansar-se. Tudo a seu tempo. Trabalhar, jogar, cantar, depois entregar-se ao descanso, tudo na hora que o relógio determina. Pensar e sentir de modo definido e programado depois de pensar e sentir quando certa estrela sobe no longínquo horizonte. Roubar o vizinho com um sorriso, dar uma prenda com gesto gracioso, louvar com prudência, censurar com cautela, destruir uma alma com uma só palavra, queimar um corpo com um sopro e a seguir lavar as mãos depois de cumprida a tarefa diária.
Amar de acordo com a ordem estabelecida, divertir-se segundo o que se combinou, adorar adequadamente os deuses, enganar o diabo com artifício e depois esquecer tudo como se a memória tivesse morrido.
Imaginar com um fim determinado, projectar certas considerações, ser feliz com discrição, sofrer com nobreza depois de esvaziar a taça para no dia seguinte poder enchê-la de novo.
Todas estas coisas, meu deus, estão concebidas com previsão, criadas pela vontade, mantidas com cuidado, governadas com regras, dirigidas pela razão e depois mortas e enterradas. E até os seus túmulos salientes que moram na alma humana têm cada um número e marca. É um mundo perfeito, um mundo de excelência consumada, um mundo de coisas supremas e maravilhosas, o fruto mais maduro do Paraíso, o pensamento que rege o universo.
Mas porque tenho eu de viver nele, meu Deus? Eu que sou a imatura semente de uma paixão insatisfeita, louco vendaval que não vai para Oriente, nem para Ocidente, fragmento aturdido de um planeta que sucumbiu envolto em chamas?»


Cada idade nos traz novos desafios. Alguns são como espinhos que se enterram na carne, como uma dor miúda e contínua que nada nem ninguém é capaz de apaziguar. Mas uma dor escolhida, assumida…procurada.
Descobri que sei coisas que não preciso e que não sei muitas que preciso. Descobri que de tudo o que aprendi, interiorizei, apregoei, resta pouco que me sirva. De repente sinto-me espartilhada, como se andasse há muitos anos a vestir uma camisola que não é minha. Será que é por ter assumido que sou «louca»?
Só pode ser, porque quem não é louco enquadra-se no mundo, aceita a sua perfeição e rege-se por ela. Eu já não consigo.
Sou rebelde, gosto do que não devo, nego o que outros aceitam, aceito o que outros negam. Não me escandalizo. Não julgo. Entendo o que ninguém entende. Não sei ser perfeita …e não quero. E não gosto de pessoas perfeitas. Gosto de pessoas loucas, que assumem a sua loucura e são como são.
Quero ter o direito à imperfeição, à descoberta, a cair e a levantar-me por mim, a secar o sangue que me escorre em cada queda, mas jamais a negar a sua marca. Quero a vida em estado latente, não como um projecto que alguém fez para mim.
Este mundo nasceu selvagem e perfeito até os homens, para descanso da maioria, terem descoberto as leis, as regras, as instituições, os partidos, as religiões e, em nome de Deus e da Sociedade decidirem, para bem de todos, estabelecer que ninguém pode ser diferente do estereótipo que foi moldado e aprovado. A mesma camisola para todos os tamanhos seja a alma um gigante ou um anão...
É este o preço da perfeição...
E tu, Deus, não te sentes prisioneiro nas máscaras que o homem inventou para ti? Tu que entendes os opostos porque és feito deles, aceita-me como sou. Curiosamente, sei que me entendes… quando nem eu consigo entender-me, quando me sinto assim, afogada neste mar cor-de-rosa de imbecilidade colectiva. Sei que entendes os meus cambiantes, loucos, de cinza e vermelho e percebes que, por muito que o deseje, não consigo assumir e acreditar, no que já não acredito...sei que me entendes, louca e imperfeita, numa procura incessante de respostas que mudam como as marés e os ventos...como a vida...

1 comment:

Anonymous said...

Deixa a tua loucura respirar