Sunday, October 14, 2007

Porque é que o essencial é invisível aos olhos?

Já passou um bom bocado. Já me retirei e voltei. Já lhe dei tempo para pensar e agora vou pensar eu, alto...

Já alguma vez foi cativado? assim, sem dar por ela, de mansinho...devagar, passo a passo? se foi cativado, sabe que cativar é um processo lento. Exige tempo e exige investimento. Exige que as portas mais íntimas da nossa alma se vão abrindo, que as nossas máscaras caiam, que as nossas defesas baixem. E ficamos expostos. Mas não há outra maneira de cativar...não há!
Reparem, não estou a falar em «prender» pessoas. Isso é outra coisa. Estou a falar nessa arte rara de ir entrando na alma de alguém, sem pressa, de a ir conhecendo, de a ir percebendo, de a ir aceitando, sem condições, mesmo sabendo que o «preço da felicidade» pode ter como desfecho um adeus. Como a raposa teve de dizer adeus ao principezinho. Mas ao dizer adeus, a raposa fez questão de vincar: «valeu a pena...eu choro pelo adeus, mas vou sorrir sempre pelas memórias eternas e felizes que ficaram de ti...»
Na arte de cativar aprende-se a amar. Nunca se pode amar o que não se cativa. Que fique bem claro! E não se pode também cativar sem investir. Investir em alguém é «querer» perder tempo com essa pessoa. Pelo puro prazer de o fazer. Inventando tempo, se preciso for. E todos nós temos tão «pouco» tempo para investir, não é? Pensando bem, nem para receber temos tempo. Por isso a raposa falou em paciência, porque para conhecer alguém profundamente é preciso muita paciência.
É preciso deixar que a outra pessoa se revele, ao seu ritmo, sem forçar, sem invadir. Sem querer tudo de uma vez. Hoje as relações são um pouco como «fast-food»...prontas para serem comidas, todas iguais...«enchendo» e «fartando», digeridas rapidamente. Algumas enjoam. Outras tornam-se um prato repetido e já sem sabor a nada, mas viciante...mais e mais...do mesmo. Relações que «enchem» até à saturação...mas não saciam.
Para alguém se tornar «único», ou seja especial, é preciso que algo o distinga de milhares de outras pessoas. E ninguém, por muito bom que seja, é perfeito. Não é a perfeição que nos cativa. É a a imperfeição assumida, é o todo de alguém. Uma rosa é igual a milhares de outras rosas, a menos que , pelo tempo e amor investidos nela, ela se torne «aquela» rosa, cujo cheiro, textura, cor, sejam diferentes, para mim.
O principezinho teve de ser cativado e cativar para entender que a sua rosa era de facto única. Sendo irritante. Sendo imperfeita. Sendo «igual» a milhares de rosas...era única. Precisamente pelo tempo que o principezinho tinha investido nela...
E tudo isto nos traz ao âmago da questão: o segredo da raposa. E o segredo de tão simples, parece um enigma: «O essencial é invisível aos olhos». Porque investir, cativar, aprender a amar, aprender a deixar partir, não exigir ,mas sobretudo querer dar...não se vê. Como não se vê a magia que une amigos ou amantes eternos, mesmo separados. O essencial sente-se.
A única certeza que resta é esta: somos para sempre responsáveis por aqueles que cativamos. Não porque nos abriguem...mas porque é impossível ser de outra maneira.
Quando o principezinho partiu, levou com ele a raposa. A «sua» raposa. Para a raposa o principezinho passou a viver na cor do trigo, nas memórias somadas, nos rituais que ambas tinham inventado e partilhado. É no invisível que fica a nossa alma. Na saudade, nas recordações que vão e vêem, mesmo sem serem conjuradas, vão e vêem ao seu ritmo, como as marés...
Percebem porque é que o essencial é invsível aos olhos? e percebem porque é que «O Pricipezinho» é um dos livros da minha vida?

1 comment:

ahmisa said...

sim,acho que sim,que entendi.