Às vezes dou comigo a pensar que a nossa maior fonte de confusões é o sentimento de posse. Temos de ser donos do que queremos, ou não parece nosso. Das coisas, às relações, a mentalidade é a mesma. Por isso damos, mas só se esse dar implicar receber. Damos de forma condicionada, mercantil. E ficamos presos, inseguros, se não temos a nossa «assinatura» a marcar territórios. Curiosamente, tudo funciona ao contrário, porque possuir é prender e ficar preso; não possuir, usufruindo, é ser livre para amar sem apego. Desde um filho a um grande amor.
Não se pode ususfruir de nada que valha a pena, se ficarmos teimosamente presos ao que quer que seja. Ou somos tudo no que damos, sem esperar possuir, ou nunca entenderemos o significado de ter amado, ter partilhado, ter construido, ter vivido. Hoje já consigo dizer adeus e obrigado. Aos que morrem, aos que não podem ficar, aos que vieram e deixaram marcas felizes. Contudo, adeus é uma palavra que não gosto de dizer. Prefiro dizer que nunca me despeço das minhas cicatrizes nem das minhas memórias felizes. No fundo só elas contam...são elas que me fazem.
Deixo-vos com um texto que escrevi há muito tempo, e continua actual, para mim.
Um coração na areia...
Vi uma onda recuar na areia. Levava com ela conchas, pedritas, pequenos paus e muita areia. Engolia a sua carga e depositava-a, algures no segredo interior do mar, dando logo lugar a outra onda que voltava a varrer a praia, repetindo o mesmo enrolar de búzios, conchas e areia.
Percebi, nesse momento, que a minha vida é um pouco assim, como uma praia varrida por ondas, que leva os meus búzios e as minhas conchas, para dentro de algum mar. Lá, deixam de ser minhas para sempre. Devo perguntar-me, claro, se alguma vez foram realmente minhas. Poderemos chamar nossa a alguma coisa ou alguém?
Perco tempo a coleccionar pequenos grupos de conchas coloridas e tenho a tentação de as julgar minhas. Por isso, quando alguma onda impertinente me rouba o meu tesouro, sinto uma vertigem doentia a espicaçar-me a alma. Dói muito perder o que considerávamos ser nosso, mas afinal não é…
Na vida também não se podem coleccionar corações. Podem cativar-se corações, mas um coração cativo deixa de ser livre e aprende a chorar. Eu quero cativar e que me cativem, mas não queria perder, nem chorar. Penso que deve haver uma maneira de amar que não pregue o coração com alfinetes, como se faz com as pobres borboletas. Eu não quero o meu coração preso. Preciso muito dele, por isso não é conveniente que o vá perdendo aos bocados, aqui e acolá.
Gostaria muito de escrever as últimas linhas da minha vida, com um coração cheio, mas livre e inteiro. Não sei se é possível. Quem ama torna sempre único alguém, por isso passa a ser responsável por ele ou por ela. É inevitável. O coração está onde mais ama, não onde quer estar…
O meu… bem, penso que a única forma de o conservar inteiro é dividindo-o em milhares de grãos, que formarão um todo, como a areia, que é um todo aos bocadinhos. Passa a ser um todo dividido.
Depois, é só esperar no meio da praia da vida, rodeada pelas conchas e pelos búzios, que não são meus mas estão a meu lado, que alguma onda nos enrole e nos misture, sem pressa e sem apego, na espuma do mesmo mar…
Thursday, October 11, 2007
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2 comments:
Desde essa praia que é a vida, um olá cheio de amizade e as boas-vindas ao blogmundo.
Desde esta praia fantástica, que tu conheces tão bem, um enorme abraço e vem aqui visitar-me..eu gosto...
Any
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